quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Essências e Energias



Por Vladimir Lossky

A teologia da Igreja Oriental distingue em Deus as três hipóstases, a natureza ou essência, e as energias. O Filho e o Espírito Santo são, por assim dizer, processões pessoais, as energias processões naturais. As energias são inseparáveis da natureza, e a natureza é inseparável das três pessoas. Essas distinções são de grande importância para a concepção de vida mística na Igreja Oriental:

  1. 1. A doutrina das energias, inefavelmente distinta da essência, é a base dogmática do real caráter de toda experiência mística. Deus, que é inacessível em Sua essência, está presente em Suas energias ‘como em um espelho’, permanecendo invisível n’Aquele que é; ‘do mesmo jeito que podemos ver o nosso rosto, invisível a nós mesmos em um vidro’, conforme um dito de São Gregório Palamas. (Sermão sobre a Apresentação da Santa Virgem no Templo). Totalmente desconhecido em Sua essência, Deus totalmente revela a si mesmo em Suas energias, que de forma alguma divide a Sua essência em duas partes – conhecida e desconhecida – mas significam dois modos diferentes da existência divina, na essência e fora da essência.

  1. 2. Esta doutrina torna possível entender como a Trindade pode permanecer incomunicável em essência e ao mesmo tempo vem e habita dentro de nós, conforme a promessa de Cristo (Jo 14.23). A presença não é uma causa, tal como a onipresença divina na criação; nada mais é que uma presença segundo a mesma essência – que é por definição incomunicável; esta é a forma, segundo a qual, a Trindade habita em nós por meio daquilo que em si mesma é comunicável – ou seja, pelas energias que são comuns as três hipóstases, ou em outras palavras, por graça – pois é por esse nome que conhecemos as energias deificantes que o Espírito Santo nos comunica. Ela que tem o Espírito, que confere o dom, tem ao mesmo tempo o Filho, através de quem todo dom nos é transmitido; ela também tem o Pai, de quem vem todo dom perfeito. Ao receber o dom – as energias deificantes – recebe-se ao mesmo tempo a habitação da Santíssima Trindade – inseparável das Suas energias e nelas presente de um modo diferente, mas não menos real daquela que está presente em Sua natureza.

  1. 3. A distinção entre as essências e as energias, que é fundamental para a doutrina ortodoxa da graça, torna possível preservar o real significado das palavras de São Pedro ‘participantes da natureza divina’. A união a que somos chamados não é hipostática – como no caso da natureza humana de Cristo – nem substancial, como a das três pessoas divinas: ela é união com Deus em Suas energias, ou união pela graça de nos fazer participantes da natureza divina, sem que a nossa essência com isso se torne a essência de Deus. Na deificação somos pela graça (isto é, nas energias divina) tudo o que Deus é por natureza, salvo apenas a identidade da natureza..., conforme o ensino de São Máximo (De Ambiguis). Permanecemos criaturas enquanto nos tornamos Deus pela graça, assim como Cristo permaneceu Deus em tornar-se homem pela encarnação.


Estas distinções que são feitas em Deus pela teologia da Igreja Oriental não contradizem de forma alguma a sua atitude apofática em relação à verdade revelada. Pelo contrário, estas distinções antinômicas são ditadas por uma preocupação em proteger o mistério, ainda que expressando as informações da revelação no dogma. Assim, como vemos na doutrina da Trindade, a distinção entre as pessoas e a natureza revela uma tendência de representar Deus como ‘mônade e tríade em um’, consequentemente a dominação da unidade da natureza sobre a trindade das hipóstases foi evitada, como foi a eliminação ou minimização do mistério primordial da identidade-diversidade. Da mesma forma, a distinção entre a essência e as energias se deve a antinomia entre o desconhecido e o conhecido, o incomunicável e o comunicável, com o qual tanto o pensamento religioso como a experiência de coisas divinas são em última instância enfrentados. Estas distinções reais não introduzem ‘composição’ para dentro do ser divino; elas significam o mistério de Deus, que é absolutamente um conforme a Sua natureza, absolutamente três conforme as Suas pessoas, soberano e inacessível Trindade, habita na profusão da glória que é Sua luz incriada, Seu Reino eterno que todos devem entrar ao herdar o estado deificado da era vindoura.



Fonte: Myrio Biblos




Retirado de The Mystical Theology of the Eastern Church, Cambridge 2005, James Clarke e Co. http://www.lutterworth.com/jamesclarke/


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