sábado, 30 de março de 2013

Da Santíssima Trindade - Capítulo III


Capítulo III
Da Santíssima Trindade.
1. Quanto a distinção e relação, Deus é considerado sob três hipóstases(a) ou três pessoas. Sob as quais, evidentemente, revela a Sua própria Deidade na Sua Palavra, a fim de ser considerada economicamente por nós, em relação a Si mesma. Esta Trindade é Pai, Filho e Espírito Santo(b). Assim, uma hipóstase da Deidade é ἀναίτιος (anaitios), isto é, sem causa[1] e ingerada. Outra hipóstase, verdadeiramente, tem a sua causa do Pai por geração, a saber, o unigênito do Pai. E também a outra hipóstase procede igualmente do Pai e do Filho, ou emana do Pai por meio do Filho.
(a) Mt 28.19; Jo 14.16,26 e 15.26; 1Co 12.4-6; 2Co 13.13; 1Jo 5.7
(b) Idem

2. Porém, só o Pai(a) é totalmente desprovido de origem, ou seja, Ele é ingênito e de nenhum outro procede. No entanto, o Pai comunica desde a eternidade a Sua própria Deidade, então o Filho unigênito(b), não por criação(c) (a respeito dos anjos é dito serem filhos de Deus), nem por graciosa adoção(d) (pela qual nós os crentes também somos filhos de Deus), e nem só por meio do poder divino e glória suprema, mas de fato por esta graciosa comunicação é o Mediador(e), e também por uma verdadeira geração(f), que é secreta e inefável. Assim, também o Espírito Santo procede igualmente tanto por secreta emanação quanto por espiração(g). O Pai é mais corretamente considerado a fonte e origem de toda Deidade.
(a) 1co 8.6; Ef 4.6
(b) Jo 1.18 e 3.16; Rm 8.32
(c) Jó 1.6, 2.1 e 38.7
(d) Jo 1.12; Gl 3.26
(e) Jo 3.35 e 5.22s
(f) Sl 2.7; Hb 1.5s; Jo 1.18
(g) Jo 15.26; Gl 4.6; 1Co 2.11-12

3. Portanto, o Filho e o Espírito Santo, ainda que sejam divinos em relação à hipóstase, modo e ordem, verdadeiramente são distintos do Pai. Todavia, são verdadeiramente participantes da mesma Deidade do Pai, isto é, têm em comum a essência divina e absoluta natureza. Exatamente como, entre outras coisas, é provado dos nomes divinos(a), ou títulos, também das propriedades e operações divinas(b) que são atribuídos abertamente a ambos ao longo das Sagradas Letras.
Aqui está a soma total do Credo dos Apóstolos, no qual professamos que cremos em um Deus, Pai Todo-Poderoso, etc. E em Seu Filho unigênito, etc. E, por último, no Espírito Santo.[2]
(a) Jo 1.1ss, 20.28; Rm 9.5; Cl 1.15ss; Hb 1.2s; Ap caps. 1-4, 5
(b) Is 11.1s, 63.10; 1Co 2.10ss, 3.16s, 6.19-20, 12.4 e 11; At 5.4, 13.2 e 20.28; Mt 12.31-32

4. Estas coisas são suficientes a este mistério, o qual, de fato, é totalmente necessário tratar com muita sobriedade, prudência e religiosidade. E fazer o quanto for possível, para enunciar nas próprias e expressas frases do Espírito Santo, o que julgamos ser mais seguro, visto que o Espírito de Deus conhece melhor a Si mesmo(a)  e pode expressar a Sua própria natureza mais retamente.
Todavia, na medida daquilo que é necessário e suficiente, Ele quis expressar isto a nós em Sua palavra. Por sua vez, devemos segui-la reverentemente e com maior religiosidade, até finalmente vermos e perfeitamente conhecermos o próprio Deus em pessoa(b). Então, Ele poderá ser visto e conhecido mais claramente por nós num glorioso século futuro. Isto é o suficiente sobre o próprio Deus.
(a) 1Co 2.10ss; Jo 1.18; Mt 11.27
(b) 1Jo 3.2 e 1Co 13.12




Bibliografia:
The Arminian Confession of 1621, tradutor e editor Mark Ellis (Eugene: Pickwick Publications, 2005), 105-110pp.
Confessio, sive Declaratio, Sententiae Pastorum, qui in Foederato Belgio Remonstrantes vocantur, Super praecipuis articulis Religionis Christianae. (Herder-Wiici: Apud Theodorum Danielis, 1622), 14-15pp.



[1] No original “improduzida”. O termo grego anaitios é traduzido literalmente por “incausado” (i.e. sem causa), mas a tradição latina preferiu o traduzir por “sem princípio” (N. do T.)
[2] Lutero já havia usado o mesmo Credo, ou Símbolo, dos Apóstolos em seu Catecismo Menor.
C.f. Catecismo Menor - Lutero (N. do T.)


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domingo, 24 de março de 2013

1 Timóteo 2.4 e 4.10, os calvinistas piram!


domingo, 10 de março de 2013

Da Vocação - Capítulo XVII


Capítulo XVII
Dos benefícios e promessas divinas, e principalmente da eleição à graça, ou vocação à fé.
1. Mas quanto a estes preceitos divinos, até agora explicados, o homem não consegue cumpri-los, e nem de boa vontade e de coração quer os cumprir. Todavia, Deus quis da sua parte fazer tudo o que era necessário para que essas coisas fossem realizadas no homem(a), isto é, decidiu conceder tal graça ao homem pecador, pela qual idôneo e apto volta a exercer tudo o que lhe é exigido no Evangelho. Além disso, ao prometer coisas tão boas a ele, cuja excelência e beleza de longe excedem a capacidade de intelecto humana, assim faz para que o anseio e a certeira esperança possam ascender e inflamar a vontade do homem a fim dele exercer a obediência em atos.
De fato, Deus beneficia a todos, Ele é de si mesmo clementíssimo, pois em Cristo nos tem afeição paternal. Pelo seu Santo Espírito(b) (do qual declaramos mais completamente acima) nos revela e, com efeito, também nos concede cotidianamente os Seus benefícios.
(a) Jr 31.32-34; Hb 8.8ss; Ez 11.19 e 36.27; 2Co 7.1; 2Pe 1.3-4; 1Jo 3.3; Cl 1.4-5; 1Pe 1.3-4
(b) 1Co 2.10s,12.3s; 1Jo 2.20,27; Rm 5.5,8-9
2. Então, primeiramente, Deus concede a graça(a) aos pecadores – não só a graça necessária, mas também a suficiente – para que eles possam prestar fé e obediência, quando os chama pelo Evangelho. Seja sob a promessa de vida eterna, ou ao contrário, sob a ameaça de morte eterna, Deus seriamente prescreve fé e obediência.

Essa vocação[1] é às vezes chamada de Eleição(b) nas Escrituras, a saber, a graça como meio de salvação. Isso é muito diferente da Eleição para a glória ou para a própria salvação, da qual falaremos mais sobre isso abaixo.
Essa chamada, todavia, é efetuada e executada pela pregação do Evangelho(c), junto com o poder do Espírito Santo. De fato, essa vocação tem a graciosa e séria intenção de salvar e, por isso, conduz à fé a todos(d) aqueles que são chamados, quer eles efetivamente creiam e sejam salvos ou não, e assim recusem obstinadamente a crer e a serem salvos.
(a) Mt 11.20-21; Jo 5.34,40 e 6.44-45; 2Pe 1.3-4
(b) 1Co 1.26; 2Tm 1.9; 1Pe 2.9
(c) Mt 28.18; Jo 5.34; Rm 10.14-15; 2Co 3.5-6
(d) 1Tm 2.4ss; Tt 2.11; 1Pe 1.23,25

3. Existe uma chamada eficaz(a), assim dita porque ela deriva o seu efeito salvífico a partir do evento ao invés de uma única intenção de Deus. Portanto, ela não é administrada por alguma sabedoria singular e secreta de Deus a partir de uma absoluta intenção de salvação, que se une frutuosamente com a vontade daquele que é chamado. A vontade da pessoa chamada não é eficazmente determinada a crer através de um poder irresistível ou de alguma força onipotente(b) (por exemplo, a criação ou a ressurreição dos mortos) de modo que não possa senão crer e obedecer; mas graças à convocação de Deus ao homem, já chamado e suficientemente preparado, este não resiste e também não se coloca uma barreira contra a graça divina, que de outra forma poderia ter sido posta a ele.
Ainda há outra chamada que é suficiente(c), porém ineficaz, que evidentemente, da parte do homem carece de efeito salvífico; pois é só por causa da vontade e evitável falha do homem que está infrutífera, e não pode atingir o seu desejado e devido resultado.
(a) Rm 8.28-29; 1Co 1.24,26
(b) At 2.41 e 13.48; Rm 6.17; 1Ts 2.13
(c) Pv 1.24-25; Ez 12.2; Is 5.1-4; Mt 23.37; Lc 7.30; Jo 5.40; At 7.51 e 13.46; 2Ts 3.1-2; ao contrário dos Cânones do Sínodo de Dort, caps. 3 e 4.

4. A primeira chamada quando unida com o seu efeito salvífico, ou já constituída pelo seu ato exercido, é às vezes designada na Escritura de: Conversão(a), Regeneração(b),  ressuscitar espiritual dentre os mortos(c) e nova Criação(d). Claramente, por ela fomos eficazmente convertidos de um estilo de vida corrupto para vivermos de forma justa, sóbria e piedosa(e), e fomos levantados pelo divino despertar da morte do pecado mortal(f)  – ou costume mortal de pecar – para uma vida espiritual e um modo de vida santa.
E, finalmente, sendo reformados pela eficácia espiritual da Palavra de acordo com a primeira forma de doutrina(g) e da vida de Cristo, é como se nascêssemos de novo e feitos novas criaturas(h) através do arrependimento e da verdadeira fé.
(a) At 3.19,26; 1Ts 1.9
(b) Jo 3.5ss; Tg 1.18
(c) Ef 2.6
(d) Gl 6.15; 2Co 5.17; Ef 2.10
(e) Tt 2.11-12
(f) Rm 6.2ss
(g) Rm 6.17
(h) Ef 4.24; Cl 3.10

5. O homem, portanto, não tem a fé salvífica de si mesmo(a), e nem é regenerado ou convertido pelo poder do seu livre-arbítrio. Visto que no estado de pecado ele de si mesmo, ou por si mesmo, não consegue pensar, muito menos querer ou fazer algo de bom para ser salvo(b) (a qual primeiramente é a Conversão e a fé salvífica). É necessário que Deus em Cristo(c), pela palavra do Evangelho, junto com o poder regenerador do Espírito Santo, renove totalmente o homem – a saber, no intelecto, nas emoções, na vontade, e em todas as suas forças – para que ele seja capaz de entender, meditar, querer e consumar essas coisas que são salutarmente boas.
(a) Mt 11.27,13.11 e 16.17
(b) Mt 7.17 e 12.34; Jo 6.44-45,65 e 3.5
(c) Fp 1.5-6 e 2.13, Ef 2.1; Tg 1.17-18; 1Pe 1.23

6. Afirmamos, portanto, que a graça de Deus é o princípio(a), progresso(b) e consumação(c) de todo o bem, tanto que nem mesmo um homem regenerado pode por si, sem essa precedente ou preveniente, excitante, prosseguinte e cooperante graça, pensar, querer, ou terminar qualquer bem salutar, muito menos resistir a quaisquer tentações e atrações para o mal(d).
Assim, a fé, a Conversão, todas as boas obras, e todas as ações piedosas e salutares que podem ser pensadas, devem ser atribuídas solidamente à graça de Deus em Cristo como a sua causa principal e primária.
(a) Ef 2.5,18; Tt 2.11-13 e 3.4-5; Fp 1.6
(b) Jo 15.5; 1Co 1.4ss
(c) 1Ts 5.23-24; Ef 6.13
(d) Mt 26.41; 1Co 10.13; Ef 2.4ss 

7. O homem, contudo, pode desprezar e rejeitar(a) a graça divina, resistir à sua operação, de modo que quando divinamente chamado para a fé e obediência, ele se torna incapaz de crer e obedecer a vontade divina, e isso por sua verdadeira e evitável própria culpa, seja por segura inadvertência(b), ou prejulgamento cego(c), ou zelo irrefletido(d), ou amor desordenado pelo mundo(e) ou por si mesmo(f), ou por outros motivos desse tipo(g).
Tal graça irresistível ou força – que quanto à sua eficácia não é criação, nem é geração propriamente dita, nem é ressurreição de mortos – por menor que seja (e assim cause cada ato de fé e obediência, para que através de si o homem não seja capaz de descrer ou desobedecer) certamente não pode ser aplicada onde a livre obediência é uma séria ordem, exceto de maneira equivocada e insensata. Essa obediência está sob a promessa de grande recompensa se prestada, mas sob a ameaça de pena gravíssima se negligenciada.
Todavia, inutilmente Deus ordenaria essa obediência e a solicitaria para outro fim, e sem motivos prometeria recompensar tal obediência, sendo que só Ele próprio efetua, exige, e requer cada ato de obediência através dessa força que não pode ser resistida. Consequentemente, é um absurdo irracional recompensar alguém, como verdadeiramente obediente, em quem esta obediência é efetuada por uma força alheia.
E,finalmente, uma pena, maximamente eterna, iníqua e cruel é infligida sobre a pessoa que, de modo desobediente (mas que efetivamente não é desobediente), não prestou obediência a Deus exclusivamente pela ausência da graça irresistível, visto ser ela necessária.
Agora não podemos dizer onde, aqui e ali, na Escritura se afirma de alguns: que resistiram ao Espírito Santo(h); que se julgaram indignos, ou melhor, se tornaram indignos da vida eterna(i); que rejeitaram o conselho de Deus contra si mesmos(j); que não quiseram ouvir(k), vir(l) e obedecer(m); que fecharam os seus ouvidos(n) e endureceram os seus corações(o); etc.
E, de outros é verdade: que eles prontamente e livremente creram(p); que obedeceram a verdade e a fé; que se mostraram atentos e dóceis; que estavam concordando com a doutrina evangélica(q), que receberam a Palavra de Deus com alegria, e que eram mais generosos nisto do que aqueles que a rejeitavam; e, finalmente, que a partir do coração escutaram a verdade, isto é, o Evangelho; etc.
Atribuir tudo isto aqueles que, de nenhum modo, podem crer ou obedecer, ou não podem sequer crer e obedecer quando chamados, é realmente muito estúpido, e claramente ridículo.
(a) Ez 12.2; Pv 1.24-25; Mt 13.19 e 23.37; At 7.51 e 13.46
(b) Mt 13.19
(c) Jo 7.3-5,52
(d) 2Co 3.13; Rm 10.1-3
(e) Lc 14.18
(f) Jo 5.44
(g) 2Co 4.4; 2Ts 3.2; 2Tm 3.2ss, 1 Jo 5.4ss
(h) At 7.51
(i) At 13.46
(j) Lc 7.30
(k) Pv 1.24-25; Ez 12.2
(l) Jo 5.40
(m) At 7.39; Rm 10.16
(n) Zc 7.11-13; Jr 5.3
(o) At 28.24; Hb 3.12-13 e 4.2; Sl 95.7-8
(p) At 2.41 e 13.47
(q) At 6.7 e 17.11; 1Pe 1.22; Rm 6.17

8. E mesmo se, verdadeiramente, houver a máxima disparidade de graça(a), certamente conforme a libérrima dispensação da vontade divina, ainda assim o Espírito Santo concederia essa graça a todos(b) – tanto em geral quanto em particular – a quem a Palavra de fé é regularmente pregada, ou pelo menos Ele está disposto a concedê-la sobre a fé ingerada deles, para gradualmente propagar a Sua suficiente conversão salvífica.
Portanto, a graça suficiente para a fé e conversão não só sucede aos que realmente creem e se convertem, mas também aos que não creem e não se convertem(c). E os que Deus chama para a fé e salvação, Ele os chama seriamente(d), isto é, não só para uma demonstração externa, ou meramente em palavras ditas (a saber, quando os seus sérios preceitos e promessas são geralmente declarados aos chamados), mas também com uma intenção sincera e não fingida de salvá-los, e vontade de convertê-los.
Deste modo, Deus nunca quis decretar qualquer reprovação absoluta precedente, ou cegueira imerecida, ou endurecimento, aos mesmos que jamais as desejariam.
(a) Rm 12.6ss; 1Pe 4.10
(b) Mt 11.21; Tt 3.4ss; 1Pe 1.23 e 2.9; 1Co 4.15; Tg 1.18, 2Co 3.6; Hb 4.12
(c) Is 65:2; Ez 18.21,Pv 1.24ss; Mt 23.37; Lucas 8.12
(d) Tt 2.11; 2Tm 1.9; 2Co 5.20 e 6.1ss; Is 5.2ss; Sl 81.13; Jo 5.34 e 10.10


Bibliografia:
The Arminian Confession of 1621, tradutor e editor Mark Ellis (Eugene: Pickwick Publications, 2005), 105-110pp.
Confessio, sive Declaratio, Sententiae Pastorum, qui in Foederato Belgio Remonstrantes vocantur, Super praecipuis articulis Religionis Christianae. (Herder-Wiici: Apud Theodorum Danielis, 1622), 55-58pp.




[1] Pode-se também traduzir por chamada (N. do T.)


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