sexta-feira, 8 de junho de 2012

O Dom de Línguas em 1 Coríntios 14.1-5


O Dom de Línguas em 1 Coríntios 14.1-5


Por Benny C. Aker

Os pentecostais têm duas posições fundamentais a respeito da natureza do dom de línguas baseadas em 1 Coríntios 14.1-5. Um grupo acredita que este dom se dirige a Deus e que envolve coisas tais como a oração e/ou louvor. Eles acreditam que quem interpreta as línguas deve expressar um louvor ou petição dirigida a Deus. As línguas neste caso nunca contém uma “mensagem” aos crentes. Além disso, consideram que o falar em línguas é um dom inferior. W. G. MacDonald, um proponente dessa posição, recentemente resumiu o seu ponto de vista:

“A glossolalia sempre se dirige a Deus, e só a Ele. Em sua forma de expressão, a glossolalia é falada ou cantada a Ele. Em suma, a glossolalia bíblica consiste de adoração ou oração. Consiste de louvor ou petição, agradecimento ou intercessão. Devido à glossolalia se dirigir unicamente a Deus, ela não pode ser uma expressão profética. Designada para a edificação individual, a glossolalia, quando devidamente interpretada, permanece no patamar mais baixo da escala apostólica de dons que beneficiam a congregação.”[1]

O outro grupo acredita que, assim como a profecia, o dom de línguas também pode ser uma mensagem dirigida a igreja quando acompanhada pela interpretação, e que este dom de línguas não é inferior a outros dons quando é manifestado corretamente.
Quero apresentar o artigo expondo este último ponto de vista de maneira indutiva, simplesmente permitindo que a Bíblia fale por si mesma. Primeiro, examinaremos o amplo contexto da relevante passagem em 1 Coríntios.

O Amplo Contexto do Dom de Línguas: 1 Coríntios 12-14


Sabe-se que em Corinto se fazia mau uso das línguas. Segundo estes entusiastas, a glossolalia era sinal de espiritualidade e da presença de Deus. Em tal contexto as línguas não precisavam de interpretação. Nos capítulos 12-14, Paulo provê correção a esta situação, e não apenas informação. A estrutura dos capítulos 12-14 nos leva a esta conclusão. Por exemplo, 12.1-3 introduz esta unidade sobre charismata ao tratar o assunto do discursor: “... ninguém que fala pelo Espírito de Deus diz...”[2] O resto do capítulo 12 contém instrução acerca da diversidade na unidade para expandir a perspectiva do leitor à respeito da operação de dons. O tema do discurso profético é tecido ao longo do capítulo 13, o qual provê a urgente instrução sobre a função do amor em tal contexto. No capítulo 14, Paulo volta a tratar especificamente da relação entre o falar em línguas, sua interpretação, e a profecia.

Certos termos acentuam esta estrutura e dão mais apoio a nosso argumento de que o dom de línguas era um problema. Em 12.1 está o problemático termo pneumatikon. Esta palavra grega, traduzida como “espirituais”, é uma adjetivo plural usado como substantivo. Isso significa que nenhum substantivo aparece no texto grego; em vez disso, esse adjetivo representa algum substantivo que deve ser provido pelo tradutor/leitor. Esse é o problema: qual substantivo deve ser provido e o que isso significa? No entanto, Paulo pretendia com isso introduzir e resumir todo o conteúdo desta secção.

Em 12.31, onde concluiu a sua exposição sobre a diversidade na unidade, o apóstolo usa o substantivo charismata (“dons”). Este substantivo está no caso acusativo, gênero neutro, e número plural. Ainda que o gênero do adjetivo “espirituais” no versículo 1 não se possa determinar (de modo que se entenda a quem o substantivo modifica), o mais provável é que o adjetivo pneumatikon no versículo 1 se refira ao substantivo charismata no versículo 31.

Havendo tratado o assunto do amor em relação com alguns dos charismata no capítulo 13, Paulo retorna ao tema da profecia em 14.1. Aqui novamente usa novamente o adjetivo “espirituais” (pneumatika) como substantivo, o mesmo adjetivo que está em 12.1. Mas neste caso, sabemos que o substantivo que ele representa é neutro e plural, pois essa é a forma do adjetivo grego. Esta forma (gênero e número) coincide com a de charismata, o substantivo de 12.31. Portanto, o pneumatikon de 12.1 e o pneumatika de 14.1 devem ser traduzidos como “dons espirituais”.

Com o retorno de Paulo em 14.1 ao tema iniciado em 12.1, e a nossa definição do significado destes adjetivos substantivados em 12.1 e 14.1, concluímos que o propósito principal dos capítulos 12-14 era corrigir o abuso dos dons espirituais, em especial a maneira como se praticava as línguas em Corinto. Esta observação é importante para minha tese.

O abuso das línguas como o ponto específico da secção pode também ser apoiado pela observação de que há muito mais material sobre o discurso inspirado, a saber, as línguas, a interpretação de línguas, e a profecia, do que qualquer outro tema. Por exemplo, o capítulo 14 (todo sobre línguas, interpretação, e profecia) tem mais material (mais de 79 linhas de texto em grego) que os capítulos 12 e 13 (77 linhas), e isto sem contar as referências às línguas, interpretação, e profecia que há nos capítulos 12 e 13.[3]
Além disso, é significante que as línguas e a interpretação de línguas (juntas em 8-10, 29,30) ou as línguas (por si só em 28) estejam no final das listas do capítulo 12. As línguas não se mencionam em ultimo lugar porque sejam mais insignificantes ou de menor importância, mas porque elas são o problema. Isto, então, nos leva a uma revisão dos parágrafos do capítulo 14, a qual é necessária para colocar 14.1-5 em seu devido contexto.

Perspectiva Geral do Capítulo 14


O primeiro parágrafo, 14.1-5, tem um importante propósito nesta secção (12.1-14.40) sobre os charismata como também o resto do capítulo 14. Como em uma tese, Paulo leva o leitor a perguntar sobre o devido uso das línguas num culto público. O persistente princípio de Paulo é a edificação do corpo, que vem através da compreensão. (Referências à necessidade de compreensão incluem 14.2,6-11,16,17,19,23,24.) Se ninguém compreende, ninguém pode ser edificado nem sentir convicção. Portanto, Paulo enfatiza a importância da interpretação quando alguém fala em línguas.

O que segue no capítulo 14 é resultado do ponto demonstrado neste primeiro parágrafo. O versículo 6 com seu “E, agora” e a pergunta retórica (“...se eu for ter convosco falando línguas estranhas, que vos aproveitaria...?”) dirige ao leitor o problema dos coríntios de somente falar em línguas. Nos versículos 7-11, o apóstolo ilustra este ponto a partir de outras situações: as pessoas precisam compreender para agir ou reagir corretamente. No versículo 13, o “pelo que” introduz um movimento adiante na exortação e conselho de Paulo sobre o que se deve fazer num culto público de adoração: se uma pessoa mostra qualquer manifestação no Espírito, isto é, em línguas, em oração, em bênçãos, etc., ela também deve interpretar para que todos sejam edificados. Esta exortação termina nos versículos 18-19, neles Paulo enfatiza o assunto das línguas e a interpretação numa reunião pública.

No próximo parágrafo, os versículos 20-22, Paulo torna visível o erro da tese dos coríntios. Para eles, o falar em línguas era um sinal da presença de Deus e da sua própria espiritualidade. Gordon Fee dá um bom ensinamento na sua interpretação: “Ainda que não se possa comprovar categoricamente, o fluxo do argumento do versículo 20, que inclui o forte ‘mas’ desta sentença, sugere que Paulo está dando a entender sua própria antítese com o ponto de vista dos coríntios em mente. Isto é, ‘em contraste com o que vocês pensam, esta palavra de Isaías indica que as línguas não são [sic] dadas como sinal aos crentes. Elas não são, como vocês as apresentam, a divina evidência de ser pneumatikos, nem da presença de Deus em sua reunião’.”[4]

Isto resolve o problema contido nestes versículos. Com esta interpretação se demonstra claramente a lógica de Paulo. A própria experiência dos coríntios a respeito das línguas contradizia o seu pensamento errôneo quanto à manifestação de línguas no culto. A partir do versículo 23 até 25, Paulo segue o seu argumento. Uma pessoa não convertida ou ignorante num culto público só responderá se ele/ela o entender.

Nos versículos 26-33, Paulo expande o princípio demonstrado claramente no versículo 26: “Faça-se tudo para edificação”. Paulo apresenta normas para “o falar em línguas”. Se alguém falar em língua estranha, deve também interpretar, seja por alguma outra pessoa ou por ela mesma. Se não houver intérprete, a pessoa deve se calar, ou seja, em situações em curso. Além disso, as profecias devem ser julgadas e limitadas. A limitação nas línguas, interpretação, e profecia seguem o princípio dado nesta secção de 1 Coríntios 12-14, e estimulavam diversas manifestações de charismata.

Um tema difícil, como a interpolação das mulheres no culto ocorre nos versículos 33-36. Não estou seguro de que a interpretação de Fee é aceitável a todos. Ele diz que essa porção é uma adição posterior e não o original de Paulo.[5] Admitidamente, a passagem é extremamente difícil e não característico de Paulo. O contexto sugere é que as mulheres de algum modo são as responsáveis pela confusão causada pelo abuso das línguas, de tal maneira que fora violado o princípio de edificação mediante a compreensão e ordem. (Os versículos 33 e 40 são um “parêntese” neste parágrafo referente à ordem/desordem.)
Logo, nos versículos 37 e 38, Paulo apela a sua autoridade e volta a expor sua tese nos versículos 39 e 40. “... procurai profetizar e não proibais o falar em línguas [dá a entender que as línguas são importantes]. Mas faça-se tudo decentemente e com ordem.”

Interpretação de 14.1-5


Com esta breve perspectiva do fluxo do argumento de Paulo, é hora de voltarmos a uma detalhada interpretação do parágrafo em questão.[6] Com a proposição “segui o amor” (introduzida sem uma palavra conectiva em grego), Paulo recapitula o tema do capítulo 13. “E” (de) com “procurai os dons espirituais” conecta o tema do argumento com 12.1 (“dons espirituais”) e passa do geral ao específico para levar o leitor diante do assunto específico: “Mas principalmente que profetizeis”. Com este passo, Paulo introduz o problema. O “mas principalmente” (mallon de) é um leve conectivo que indica o tópico específico dentro do tópico mais amplo de charismata e identifica a preferência por uma expressão espiritual em vez de falar em línguas sem interpretação. “Que [hina] profetizeis” expressa o propósito do verbo “procurai” da cláusula anterior.

O grego gar (“porque”) no versículo 2 introduz as próximas duas cláusulas e, portanto, proporciona dois estágios de explicação; ou seja, cada cláusula dá uma razão a declaração de Paulo: “... principalmente que profetizeis”. A primeira explica a razão pela qual a profecia deve ser preferida: “... o que fala em línguas [isto é, dá uma mensagem num idioma desconhecido pelo orador inspirado] não fala aos homens [anthropois; não androis = “varões”], senão a Deus”. A segunda cláusula explica por que se prefere a profecia ao dom de línguas: “pois ninguém o entende, e [de] pelo Espírito fala mistérios [ou seja, em línguas fala algo misterioso ou desconhecido à mente humana].” O “e” antes de “fala mistérios” levemente contrasta e explica o “fala mistérios” com o “ninguém o entende” (akouo – literalmente, “ouve”). Deus é o único que o entende.

O versículo 3 começa com um conectivo de contraste: “mas” (de). A sentença: “Mas o que profetiza fala aos homens [anthropois] para edificação, exortação e consolação” contrasta as atividades de “o que fala em línguas” (descritas nas duas cláusulas anteriores no versículo 2) com “o que profetiza”.

No grego o versículo 4 começa sem um conectivo de contraste; este caso é “assindético”. Esse fenômeno oferece um forte contraste com o que as línguas fazem no indivíduo e o que a profecia faz na igreja. “Mas” (de) contrasta a edificação individual com a edificação do corpo: “O que fala em línguas a si mesmo se edifica, mas o que profetiza, edifica a igreja”.

As cláusulas contrastantes do versículo 4 oferecem no versículo 5 a recapitulação do problema e os pontos do argumento de Paulo até este momento: “Ora [de], eu quero que todos vós faleis em línguas, mas muito mais que profetizeis”.[7] Paulo não queria que parassem as línguas – ele até estimulou a igreja a usar corretamente este dom (5a). A razão pela qual Paulo preferia a profecia é dada na próxima parte do versículo (5b): “porque [de] o que profetiza é maior do que quem fala em línguas, a não ser que as interprete para que a igreja receba edificação”. O “porque” conecta a cláusula anterior (5a) com o “maior...” e a cláusula expectativa apresenta o propósito de Paulo: si alguém fala em línguas, ele/ela deve interpretar. Quanto isto acontece, as pessoas entendem e são edificadas. Isto tem o mesmo resultado que a profecia.

Permita-me assinalar outros pontos. A palavra usada para expressar o resultado que se espera das línguas + interpretação e profecia no versículo 5 é oikodomen (edificar). A mesma palavra (14.12,17,26) e palavras relacionadas (14.19,31) ocorrem nos contextos de profecia, línguas, e interpretação de línguas, e expressam a mesma preocupação como o entendimento.

Além disso, a cláusula exceptiva em 14.5b enfatiza o ponto de que as línguas mais a interpretação equivalem a profecia. O termo grego para “a não ser que” (ektos ei me) no versículo 5 é, particularmente no Novo Testamento, uma expressão paulina. Esse termo aparece oito vezes no Novo Testamento, seis delas nas epístolas paulinas. Ektos é usado como advérbio e também como preposição imprópria. Juntamente com as palavras, ei me, aparece só em 1 Coríntios 14.4 e 15.2. Essa expressão sublinha o que estamos tratando de enfatizar. “A não ser que” age aqui como um “se” em uma frase condicional. Esta paráfrase talvez lhe sirva a ver isso mais claramente: “Se uma pessoa não interpreta uma mensagem inspirada dada em outro idioma, essa mensagem não tem um impacto edificante sobre a congregação como no caso de uma profecia. Mas se alguém der uma mensagem em línguas e a interpretar, então a mensagem em línguas e a interpretação produzem o mesmo impacto que uma profecia.”

É útil apresentar esta sentença em forma de diagrama, fazendo notar a relação das várias cláusulas e, especialmente, mostrando a cláusula exceptiva. A ordem e os espaços de cada parte indicam a ordem em que elas ocorrem no texto grego e a relação sintática entre cada uma:

Por que
[é] maior
o que profetiza
do que
quem fala em línguas,
a não ser que
[o que fala em línguas][8] as interprete
para que a igreja receba edificação.

Precisamos comentar esse diagrama. Primeiro, as duas cláusulas (1, o que profetiza e 2, o que fala em línguas) expressam uma comparação pertinente ao valor, isto é, edificação e benefícios, e não status, ou seja, um dom inferior. Note que isso é uma comparação, não um contraste. Um contraste coloca uma cláusula contra a outra, quando uma é totalmente diferente da outra. De modo que quando uma condição se aplica a ambas as cláusulas (i.e., a compressão), ambas participam na similaridade. É verdade que a manifestação linguística das línguas, a interpretação, e a profecia são diferentes, mas o caráter fundamental ou a natureza das três é o mesmo: uma mensagem inspirada que tem o propósito de edificar, etc.

Segundo, a cláusula que começa com “para que” expressa o propósito do verbo “interprete”. O sujeito desse verbo é o que tenho incluído nos colchetes e se entende claramente. A cláusula pode ser lida desta maneira: “O que fala em línguas [deve] interpretar a fim de que a igreja receba edificação”.
Então, afirmo que Paulo se refere que as línguas, interpretação e profecia são mensagens inspiradas, que operam similarmente, e têm (devem ter) resultados semelhantes. Em um culto público os três têm como edificar, exortar, e/ou consolar. Contudo, note que nos versículos 26-33 Paulo também limita a operação desses dons inspirados para estimular outras manifestações produtivas.

A Direção das Línguas


Segue em pé a pergunta: a quem se dirigem as línguas, a Deus ou aos homens? Várias áreas devem ser exploradas para responder isso adequadamente. Primeiro, qual o significado dos vários verbos em 1 Coríntios 14.1-5, especialmente nos versículos 1-3. Esses verbos são “fala” (lalei, e outros nos versículos 2 e 3) e “entende” (akouei no versículo 2). O que significa dizer que quando alguém fala em línguas, fala a Deus? Sob o ponto de vista que considera negativamente o dom de línguas, falar a Deus assume um significado unidirecional; portanto, o falar em línguas se dirige a Deus, e a profecia aos homens. O uso em grego do caso dativo nos substantivos (“a Deus”, “aos homens”) que servem como objeto do verbo “falar” nos versículos acima mencionados, sugere essa interpretação. Todavia, o significado lexicológico no contexto não o apoia. O contexto vivo (o significado do verbo e dos assuntos relacionados em uso atual) sempre predomina, e dá direção à gramática abstrata (como, por exemplo, a terminação dos substantivos em grego). Portanto, sugiro que “não fala aos homens, senão a Deus” (14.2) se refere à compreensão em vez de direção. Na realidade, no versículo 2, a frase “pelo Espírito fala mistérios” diz exatamente isso. A razão é que Deus em sua onisciência conhece/entende, mas o homem não. De modo que “falar” significa “falar num idioma inteligível/compreensível”, e somente Deus compreende todas as formas de comunicação. A ênfase de “falar” recai sobre aquele que pode compreender a mensagem ou o conteúdo. Ninguém realmente deve falar, a menos que os demais entendam, essa é a dinâmica social na sociedade do mediterrâneo. Essa dinâmica cultural coincide com o segundo verbo no versículo 2: “ninguém o entende”. Não é que não se ouve, isto é, as ondas sonoras reverberando contra os tímpanos. “Ouvir” (akouei) realmente significa “entender”, este é o significado usual dessa palavra grega. Algo não se ouve a menos que alguém compreenda e aja positivamente sobre isso. Por exemplo, consulte a palavra “ouvem” na parábola do semeador em Mateus 13, especialmente o versículo 16: “Mas bem-aventurados... vossos ouvidos, porque ouvem”. Por isso, mantenho que “fala a Deus” não tem significado direcional; mas sim, tem a ver com a compreensão.

Algo se deve dizer sobre o significado sociológico das línguas e a falta de compreensão que resulta quando o falar em línguas não é interpretado. Se uma pessoa fizesse algo que apenas diz respeito a um indivíduo – como ser pessoalmente edificado e não se preocupar de interpretar as línguas e assim edificar o grupo – seria isto muito vergonhoso em uma sociedade orientada pelo parentesco. Essa orientação social tinha a ver com Paulo e com os coríntios.

Considerar as línguas como algo unidirecional é típico da moderna sociedade ocidental, e desconhecida à mentalidade do primeiro século no mundo mediterrâneo. Esse ponto de vista ignora tanto a dimensão social como a tendência para uma categorização muito estrita (endurecimento das categorias). Por exemplo, ao ler os profetas do Antigo Testamento e os Salmos, se encontra múltiplas perspectivas de discursos proféticos, tanto da parte do que fala como daqueles a quem são dirigidas.

Em segundo aspecto, exploramos as implicações da palavra grega usada em Atos 2 com referência a inspiração profética. Esse verbo, apophtheggesthai (“falassem”), ocorre duas vezes: nos versículos 4 (“conforme o Espírito lhes concedia que falassem”) e 14 (Pedro... levantou a voz e disse-lhes”).[9] Nesses dois lugares, o verbo descreve as línguas como experiência inicial e como profecia. Tanto na tradução grega do Antigo Testamento como em textos não canônicos, indiscutivelmente essa palavras se usa para uma mensagem divinamente inspirada. É verdade que lemos em Atos que as pessoas ouviram os apóstolos glorificando a Deus em línguas (veja o versículo 11). Mas é verdade também que o sermão inspirado de Pedro explica, ou seja, interpreta as línguas. Em certo sentido temos línguas mais interpretação/explicação da profecia que resultou na edificação da igreja (isto é, 3.000 almas foram acrescentadas à igreja, versículo 14). Isso não significa que esse fenômeno se identifica como o dom de línguas e interpretação; senão o que o Espírito fez nessa ocasião. As línguas em Atos 2 funcionaram como um encontro de poder, que chamou a atenção dos não crentes. O sermão inspirado de Pedro explicou as implicações das línguas e atraiu a muitos dos ouvintes a Cristo. As línguas foram o testemunho do amanhecer da era escatológica. O que quero dizer é que as línguas, bem como a evidência inicial, são da mesma categoria que a profecia em que ambas as mensagens são inspiradas.
Isso é o que Lucas quis que compreendêssemos, e Paulo em 1 Coríntios não as viu de maneira diferente.

Conclusão


Parte do problema dessas duas interpretações do dom de línguas, como em outros aspectos, tem a ver com o uso das palavras. Penso que todos somos um pouco descuidados em nosso uso das palavras com que nos referimos a essas manifestações.

Por exemplo, a palavra “oráculo”. Devido ao seu uso nas Escrituras, é melhor pensar num oráculo como parte do mundo mais amplo da profecia.[10] O termo “mensagem em línguas”, também pode ser usado ambiguamente. Por exemplo, quando há línguas e interpretação no louvor (ou oração), não seria melhor chamar isso de louvor e não como mensagem?

O mesmo ocorre com a operação de profecia. Na realidade, Paulo, ao falar de dons em Romanos 12.6 (profecia) e 8 (exortação) poderia estar usando termos mais precisos. Talvez quisesse falar de aspectos distintos ou poderia estar falando da mesma manifestação a partir de perspectivas distintas. Em 1 Coríntios 14.3 a exortação é o resultado da profecia.

Além disso, penso que a Bíblia ensina que as línguas são importantes e que são palavras inspiradas. Por “inspiradas” não ponho estas manifestações no mesmo nível que as Escrituras. O que quero dizer é que o Espírito Santo dá poder, de certa maneira, para proclamar bênçãos a sua igreja, etc. As línguas, entretanto, necessitam ser interpretadas em um culto público. Há diversidade de línguas: evidência inicial, uso privado das línguas para edificação pessoal, e o uso público do dom de línguas. Todo cristão deve ter ou manifestar os dois primeiros. O último é um dom especial do Espírito, que nem todos precisam ter, ainda que esteja disponível a todos. Esse artigo tratou desse último dom. No entanto, é desejável que “não ignoremos” todos as facetas do discurso inspirado (evidência inicial/batismo com o Espírito Santo, línguas, interpretação, e profecia) dado pelo Espírito para edificação pessoal, para a edificação do corpo de Cristo, e para glorificar o Senhor.


Benny C. Aker, Ph.D., é ex-professor de Novo Testamento e exegese do Assemblies of God Theological Seminary.





[1] William Graham MacDonald, “Biblical Glossolalia—Thesis 7” [Tesis 7: Glosolalia bíblica] Paraclete 28:2 (Primavera 1994): 1

[2] As citações bíblicas foram tomadas de Almeida Revista e Corrigida (RC).

[3] Também há referências explícitas às línguas pelo menos 19 vezes nos capítulos 12-14 e o falar em línguas é o único dom incluído nas sete listas de dons espirituais (12.8-10,28,29-30; 13.1-3,8; 14.6; 14.26)

[4] Gordon D. Fee, The First Epistle to the Corinthians. NICNT (Grand Rapids: Eerdmans Publishing, 1987), 681,682.

[5] Ibid., 699–708

[6] Tenho usado o texto grego nesta discussão com a minha tradução*. Esta não necessariamente coincidirá com a NVI, mas é importante porque o texto grego revela mais claramente a lógica de Paulo. O método usado neste documento emprega esta lógica. Isto contrasta com a interpretação atomística que alguns usam, incluindo MacDonald.

[7] “Especialmente que profetizeis” ou “mais prefiro que profetizeis” (mallon de hina propheteuete) em 14.5 é idêntica a frase grega em 14.1b.

[8] 14.13 é a correlação direta a esta asseveração e flui desta declaração no versículo 5: “Pelo que, o que fala língua estranha, ore para que a possa interpretar.” Eu também tomei a liberdade de remover toda a pontuação do texto grego neste diagrama, porque ela erroneamente sugestiona. Editores modernos tem colocado a pontuação no texto grego, a qual não é inspirada.

[9] Claro, aparece em formas diferentes nos dois lugares.

[10] Consulte, por exemplo, as breves exposições de George A. Buttrick, ed., The Interpreter’s Dictionary of the Bible (Nashville: Abingdon Press, 1962), s.v. “Oracle,” por I. Mendelsohn; y R. Laird Harris, ed., Theological Wordbook of the Old Testament (Chicago: Moody Press, 1980), s.v. “dbd,” por Leonard J. Coppes.

[11] http://enrichmentjournal.ag.org/top/Holy_Spirit/200701.cfm


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quarta-feira, 9 de maio de 2012

Teólogos explicam porque a galinha atravessou a estrada


Greg Boyd: É uma possibilidade que a galinha tenha atravessado a estrada.

Rick Warren: A galinha tinha propósitos.

Mark Driscoll: A galinha atravessou por causa da liderança do galo.

Rachel Held Evans: Estamos falando de galinhas aqui, não porcos.

Pelágio: Porque a galinha foi capaz de fazer.

John Piper: Deus decretou o evento para maximizar a sua glória.

Irineu: A glória de Deus é a galinha plenamente viva.

C.S. Lewis: Se uma galinha descobre em si mesma desejos os quais nada neste lado possam satisfazer, a explicação mais provável é que ela foi criada para o outro lado.

Billy Graham: A galinha se entregou toda.

Pluralista: A galinha tomou uma das muitas estradas igualmente válidas.

Universalista: Todas as galinhas atravessaram a estrada.

Aniquilacionista: A galinha foi atingida por um carro e deixou de existir.

Fred Phelps: Deus odeia galinhas.

Martinho Lutero: A galinha estava deixando Roma.

Tim LaHaye: A galinha não queria ser deixada para trás.

Harold Camping: Não conte suas galinhas, até que tenham chocado.

James White: Eu rejeito a exegese centrada na galinha.

John Wesley: O coração do galinha foi estranhamente aquecido.

Tomé: Eu não acredito que a galinha atravessou a menos que eu veja com meus próprios olhos.

Filipe: A galinha foi teleportada para o outro lado.

Rob Bell: A galinha. Atravessou a estrada. Para ter. Óculos legais.

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Os leitores do blog original postaram algumas respostas adicionais:

Joel Osteen: A galinha atravessou a estrada para maximizar a sua realização pessoal, para que ela pudesse ser tudo o que Deus a criou para ser.

Creflo Dollar: Deus disse a galinha que se ela cacarejasse, "Essa terra do outro lado da estrada é minha!" Ela poderia reivindicá-la. Ela atravessou a estrada para tomar posse.

Roger Olson: A galinha não reconhece claras fronteiras evangélicas.

Pedro: Que galinha? Que estrada? Nunca conheci uma galinha! (o galo canta)

Ezequiel: Deus ressuscitou os ossos de galinha e depois ela atravessou a estrada.

Paulo: A galinha foi dormir e caiu para fora da janela apenas para ser capaz de atravessar a estrada.

TD Jakes: A manifestação do galinha atravessar a estrada foi pela suas bênçãos.

Jim Wallis: A pobre galinha estava fugindo dos fundamentalistas.

Gary Demar: A galinha estava fugindo da destruição de Jerusalém em 70 d.C. É isso aí.

Emergente: Para esta galinha, não é o seu destino que é importante. É a viagem em si.

Cristão pacifista: Este é claramente um ato de agressão do galinheiro que é condenado no Sermão do Monte.

N.T. Wright: Esse ato da galinha, que seria impensável em galinheiros britânicos, fede a individualismo norte-americano que é destrutivo para a comunidade.

Al Mohler: Quando uma galinha começa a pensar teologicamente, ela não tem outra alternativa senão vir para o lado calvinista.

Bill Gaither: A galinha, obviamente, viu algo de belo, algo de bom, do outro lado da estrada.

Freud: Este exercício é, obviamente, movido pela inveja da galinha.


Fonte: Society of Evangelical Arminians

terça-feira, 10 de abril de 2012

Sermão 1

Sermão 1


Salvação pela fé[1]

Efésios 2.8

Pois vocês são salvos pela graça, por meio da fé,


1. Todas as bênçãos que Deus tem dado ao ser humano vêm unicamente da sua graça, liberdade e favor. Vêm do seu favor imerecido, totalmente imerecido, visto que não temos direito algum a menor das suas misericórdias. Foi por pura e livre graça que Deus formou o homem do pó da terra e soprou em suas narinas o fôlego de vida,[2] e pôs sobre essa alma o selo da imagem divina, e colocou tudo debaixo dos seus pés.[3] É a mesma graça que mantém em nós até o dia de hoje a vida, a respiração, e todas as coisas. Porque nada que sejamos, ou tenhamos, ou façamos, nunca merecerá a menor dádiva divina. Porque também fizeste em nós todas as nossas obras.[4] Todas estas coisas não são senão outras tantas provas da gratuita misericórdia de Deus. E qualquer justiça ou retidão que o ser humano tenha isso também é dom de Deus.


2. Com o que, pois, poderá o pecador expiar o menor dos seus pecados? Com as suas próprias obras? Não. Por muitas e santas que estas fossem não são suas, mas de Deus. Por si mesmas, são iníquas e pecaminosas e, portanto, cada uma delas requer uma nova expiação. A má árvore não pode dar senão frutos podres. O coração humano está completamente corrompido e isto é uma coisa abominável; ele se encontra destituído da glória de Deus,[5] dessa gloriosa justiça que foi inicialmente impressa sobre a sua alma, segundo a imagem do seu grande Criador. Não tendo mais o que alegar nem justiça ou obras, a boca emudece diante de Deus.


3. Agora, se o pecador encontra favor diante de Deus, isto é graça sobre graça.[6] Todavia, se Deus se presta a derramar sobre nós novas bênçãos (sim, e a maior delas é a salvação) que temos a dizer senão “graças a Deus pelo seu dom inefável!”?[7] Nisto Deus mostra o seu amor para conosco, em que sendo ainda pecadores, Cristo morreu por nós.[8] Assim, pela graça vocês são salvos, por meio da fé.[9] A graça é a fonte, e fé é a condição da salvação.


Portanto, nos incumbe a fim de alcançar a graça de Deus, investigar cuidadosamente.


I. Mediante qual fé somos salvos.

II. Que tipo de salvação é resultante dessa fé.

III. Como responder a certas perguntas.


I. Mediante qual fé somos salvos

1. Em primeiro lugar, não é só a fé de um pagão. Deus requer que o pagão creia que ele existe e que recompensa aqueles que o buscam,[10] que se deve buscá-lo glorificando e louvando a Deus por todas as coisas[11] e mediante a prática cuidadosa da virtude moral, da justiça, da misericórdia e da verdade para todas as suas criaturas. Portanto, um grego ou um romano, um cita ou um indiano, não têm desculpas caso não creiam pelo menos nisto: o ser e os atributos de Deus, um estado futuro de recompensa e castigo, e o caráter obrigatório da virtude moral. Pois isto não é mais que a fé de um pagão.


2. Tampouco é, em segundo lugar, a fé de um demônio, ainda que tal fé vá mais longe que a do pagão. Porque o demônio crê, não só que há um Deus sábio e poderoso, que exerce graça no recompensar e justiça no castigar, mas também que Jesus é o Filho de Deus, o Cristo, o Salvador do mundo. Assim, o vemos declarando explicitamente: eu sei quem tu és, o Santo de Deus.[12] Tampouco podemos duvidar que esse infeliz espírito crê em todas as palavras que saíram da boca do Santo de Deus, ou que crê no que foi escrito pelos antigos santos, sobre dois dos quais se viu obrigado a dar glorioso testemunho ao dizer: Estes homens, que anunciam o caminho da salvação, são servos do Deus Altíssimo.[13] Tudo isto crê o grande inimigo de Deus e dos homens, e treme ao crer que Deus se manifestou em carne,[14] que colocará todos os seus inimigos debaixo de seus pés,[15] e que toda a Escritura é inspirada por Deus.[16] Até aqui chega a fé do diabo.


3. Em terceiro lugar, a fé pela qual somos salvos, no sentido da palavra que se explicará mais adiante, não é somente a que os apóstolos tiveram enquanto Cristo esteve na terra, apesar de crerem nele de tal modo a deixarem tudo e o seguir, e apesar de terem o poder de fazer milagres e de curarem toda enfermidade e toda doença.[17] Sim, apesar de terem poder e autoridade sobre todos os demônios[18] e, ainda mais do que isso, foram enviados por seu Senhor a pregar o evangelho de Deus. Mas ao retornar de todas estas grandes obras, seu Senhor mesmo lhes chama “geração incrédula”.[19] E lhes diz que não puderam expulsar um demônio por causa da sua incredulidade. Mais tarde, crendo que já tinham alguma fé, lhe pedem: “aumenta nossa fé”, e ele lhes diz claramente que desse tipo de fé nada tinham, nem mesmo uma semente de mostarda: “Então o Senhor disse: ‘se vocês tivessem fé como uma semente de mostarda, poderão dizer a este sicômoro: ‘Arranque-se, e plante-se no mar; e ele obedeceria’”.[20]


4. Qual é, então, a fé pela qual somos salvos? Em geral e primeiramente, podemos responder que é a fé em Cristo – fé cujos únicos objetos são Cristo e Deus por meio de Cristo. Nisto se distingue esta fé absoluta e suficiente da fé dos pagãos tanto antigos como modernos. E da fé de um demônio se distingue completamente por isto: que não se trata somente de um consentimento especulativo, racional, frio e sem vida, de uma série de ideias na cabeça, mas também de uma disposição do coração. Porque como diz a Escritura com o coração se crê para justiça. E se você confessar com a tua boca que Jesus é o Senhor; e crer em seu coração que Deus o levantou dos mortos, será salvo.[21]


5. E nisto se distingue da fé que os apóstolos tinham enquanto o nosso Senhor esteve sobre a terra: em que se reconhece a necessidade e os méritos da morte do Senhor, e o poder da sua ressureição. Reconhece a sua morte como o único meio suficiente para salvar o ser humano da morte eterna, e sua ressurreição como a restauração de todos nós à vida e imortalidade, visto que foi entregue por nossas transgressões e ressuscitado para nossa justificação.[22] Portanto, a fé cristã não é só consentimento a todo o Evangelho de Cristo, mas também uma confiança plena no sangue de Cristo, uma esperança firme nos méritos de sua vida, morte e ressureição, um descansar nele como nossa expiação e nossa vida, como aquele que foi dado por nós e vive em nós. É uma confiança segura que o ser humano tem em Deus, que mediante os méritos de Cristo os seus próprios pecados têm sido perdoados, e que ele é o único a lhe reconciliar ao favor divino. É, em consequência disso, um aproximar-se e agarrar-se a ele como nossa sabedoria, justificação, santificação e redenção[23] ou, em uma só palavra, como nossa salvação.


II. Que tipo de salvação é resultante dessa fé


1. Em primeiro lugar, a parte de tudo que possa implicar isso se trata de uma salvação presente. É algo que pode se alcançar, sim, que de fato se alcança sobre a terra, por parte daqueles que participam dessa fé. Porque assim disse o Apóstolo aos crentes de Éfeso, e através deles aos crentes de todas as eras, não “vocês serão salvos” (ainda que isso também seja verdade), mas “vocês são salvos por meio da fé.”


2. São salvos (para dizer em uma só palavra) do pecado. Tal é a salvação mediante a fé. Esta é a grande salvação anunciada pelo anjo antes que Deus trouxesse o seu Unigênito ao mundo: chamará seu nome Jesus, porque ele salvará o seu povo dos seus pecados.[24] E nem ali ou em nenhum outro lugar das Sagradas Escrituras aponta-se limite ou restrição alguma. Ele salvará todo seu povo dos seus pecados, ou como diz em outro lugar, a todos os que creem nele. Os salvará do pecado original e atual, passado e presente, da carne e do espírito. Mediante a fé que está nele, eles são salvos da culpa e do poder do pecado.


3. Primeiramente, são salvos da culpa de todo pecado passado. Porque todo o mundo está sob o juízo de Deus,[25] já que se Deus olhasse os pecados, quem, ó Senhor, poderá ficar em pé?,[26] e visto que, por meio da lei vem o conhecimento do pecado, mas não a libertação do seu poder, de tal modo que pelas obras da lei nenhum ser humano será justificado diante dele, agora a justiça de Deus por meio da fé em Jesus Cristo se tem manifestado a todos os que creem. Agora estão justificados gratuitamente por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus, a quem Deus pôs como propiciação por meio da fé em seu sangue, para manifestar sua justiça, por ter tolerado, em sua paciência, os pecados passados.[27] Cristo nos redimiu da maldição da lei, fazendo-se por nós maldição.[28] Ele fez isto anulando o escrito de decretos que havia contra nós, que nos era contrário, removendo-o do nosso meio, e encravando-o na cruz.[29] Agora, pois, nenhuma condenação há para os que creem em Cristo Jesus.[30]


4. Estando salvos da culpa, estão livres do temor. Não do temor filial de ofender, mas de todo temor servil; desse medo que atormenta, do medo do castigo, da ira de Deus, a quem já não consideram como um Senhor severo, mas como um Pai indulgente, porque não têm recebido espírito de escravidão para estar outra vez em temor, mas o espírito de adoção, pelo qual clamamos: Abba, Pai! O mesmo espírito dá testemunho ao seu espírito, de que são filhos de Deus.[31] Também estão salvos do temor, ainda que não da possibilidade de cair da graça de Deus e, por isso, de não alcançar as suas grandes e preciosas promessas. Estão selados com o Espírito Santo da promessa, que é o penhor da sua herança.[32] Por isso há paz para com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo... se gloriam na esperança da glória de Deus... e o amor de Deus tem sido derramado em seus corações pelo Espírito Santo que lhes foi dado.[33] Por isso estão seguros (ainda que não sempre, nem com a mesma segurança) de que nem a morte, nem a vida, nem anjos, nem principados, nem potestades, nem o presente, nem o porvir, nem altitude, nem profundeza, nem alguma outra coisa criada poderá os afastar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus Senhor nosso.[34]


5. Mais uma vez, mediante esta fé estão salvos do poder do pecado, assim como da sua culpa. Assim afirma o Apóstolo: E sabeis que ele apareceu para tirar nossos pecados, e não há pecado nele. Todo aquele que permanece nele, não peca. E diz ainda: Filhinhos, ninguém engane vocês... quem pratica o pecado é do diabo.[35] Todo aquele que crê... é nascido de Deus.[36] E todo aquele que é nascido de Deus, não pratica o pecado, porque a semente de Deus permanece nele; e não pode pecar, porque é nascido de Deus.[37] E sabemos que todo aquele que tem nascido de Deus, não pratica o pecado, pois aquele que foi gerado de Deus o guarda, e o maligno não o toca.[38]


6. Quem por fé nasceu de Deus, não peca.[39] 1) Não peca por pecado habitual, visto que todo pecado habitual é o pecado que reina, e o pecado já não reina em quem crê. 2) Tampouco peca voluntariamente, visto que enquanto permanecer na fé a sua vontade se opõe a todo pecado, que odeia como um veneno mortal. 3) Nem peca por desejo pecaminoso, visto que continuamente deseja a santa e perfeita vontade de Deus, e pela graça de Deus sufoca todo desejo pecaminoso desde o seu princípio. 4) Nem peca por fraqueza, em atos, palavras ou pensamento, porque a sua vontade não coincide com a sua fraqueza, e sem o consentimento da vontade não há pecado propriamente dito. Logo, todo aquele que é nascido de Deus, não pratica o pecado.[40] E mesmo que não possa dizer que não tem pecado, agora não pratica o pecado.


7. Tal é a salvação por meio da fé, que se dá no presente mundo: uma salvação do pecado e das suas consequências. Isto é o que significa a palavra “justificação”, que em seu sentido mais amplo inclui a libertação da culpa e do castigo mediante a expiação de Cristo aplicada à alma do pecador que crê nele, e inclui também a libertação do poder do pecado mediante Cristo formado no coração.[41] Assim, quem tem sido justificado ou salvo mediante a fé, verdadeiramente nasceu de novo. Nasceu de novo do Espírito,[42] para uma nova vida que está escondida com Cristo em Deus.[43] E como criança recém-nascida recebe o verdadeiro, o leite espiritual não adulterado, e por isso cresce,[44] no poder da força do Senhor,[45] de fé em fé,[46] graça sobre graça,[47] até chegar a um varão perfeito, a medida da estatura da plenitude de Cristo.[48]


III. A primeira objeção comum a tudo isso


1. Que pregar a salvação ou a justificação mediante a fé equivale a pregar contra a santidade e as boas obras. A isto se pode responder brevemente: seria assim o caso se pregássemos, como alguns fazem, uma fé que não tem nada haver com a santidade e as boas obras. Todavia, não falamos de tal fé, senão de uma fé que necessariamente leva a toda santidade e a toda boa obra.


2. Mas, possivelmente, pode valer a pena considerar isto com mais cuidado, especialmente porque não se trata de uma objeção nova, mas uma objeção tão antiga como nos tempos de São Paulo, quando já se dizia: “Logo pela fé invalidamos a lei?”[49] Respondemos, em primeiro lugar, que aqueles que não pregam a fé são os que realmente invalidam a lei, tanto diretamente como abertamente, com explicações e comentários que destroem o sentido do texto, ou indiretamente, ao não ensinar o único meio de cumpri-la. E, em segundo lugar, respondemos que nós confirmamos a lei mostrando todo o seu alcance e sentido espiritual, chamando todos a esse modo de viver, mediante o qual a justiça da lei se cumpre em nós.[50] Estas pessoas, confiando unicamente no sangue de Cristo, usam de todas as ordenanças que ele deu, fazem boas obras, das quais Deus preparou de antemão para que andássemos nelas,[51] gozam e manifestam um temperamento santo e celestial, o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus.[52]


3. Mas tal pregação da fé não conduz ao orgulho? Respondemos que acidentalmente isso pode acontecer. Por isso todo crente tem de ser advertido (nas palavras do grande Apóstolo): “Por sua incredulidade [os primeiros ramos] foram quebrados, mas você pela fé está em pé. Não se ensoberbeça, mas teme. Porque se Deus não perdoou os ramos naturais, a você tampouco perdoará. Olha, pois a bondade e severidade de Deus; a severidade certamente para com os que caíram, mas a bondade para contigo, se permanecer nessa bondade; pois de outra maneira você também será cortado.”[53] E ao permanecer nessa bondade, se lembrará das outras palavras de São Paulo, que preveem e respondem a esta mesma objeção: “Onde, pois, está a jactância? Está excluída. Por qual lei? Pela das obras? Não, mas pela da fé.”[54] Se alguém fosse justificado por suas obras, teria do que se gloriar. Mas não tem do que se gloriar quem não pratica, mas crê naquele que justifica o ímpio.[55] O mesmo indicam as palavras que se encontram antes e depois do nosso texto: “Mas Deus, que é rico em misericórdia,... ainda nós estando mortos em pecado, nos deu vida juntamente com Cristo (por graça sois salvos),... para mostrar... as abundantes riquezas da sua graça em sua bondade para conosco em Cristo Jesus. Pois pela graça vocês são salvos, por meio da fé; e isto não vem de vocês.”[56] De nós não vem nem a nossa fé e nem a nossa salvação, que é dom de Deus, dom gratuito e imerecido – dom que é tanto a fé que salva quanto a salvação que Deus em sua bondade une a essa fé. O que cremos é uma demonstração da sua graça; o que, crendo, sejamos salvos, é outro. Não por obras, para que ninguém se glorie.[57] Porque todas as nossas obras e toda a retidão que tivemos antes de crer, nada mereciam de Deus senão condenação – tão longe estávamos da fé que salva, por isso que, quando é dada, nunca é por obras. E tampouco se deve a salvação as obras que tenhamos feito quando cremos. Porque é Deus que faz todas as coisas em todos.[58] Logo, Deus recompensa o que ele mesmo fez, pois mostra as riquezas da sua misericórdia e não nos deixa gloriarmos.


4. Todavia, não há possibilidade de que falando dessa maneira sobre a misericórdia de Deus, que só por meio da fé há salvação e justificação, leve alguém a pecar? Tal coisa pode acontecer e sucederá. Muitos permanecerão no pecado, para que a graça abunde.[59] Porém, seu sangue cairá sobre suas próprias cabeças. A bondade de Deus deveria conduzi-los ao arrependimento, e certamente o fará para aqueles que são sinceros de coração. Estes, ao saber que há lugar para o arrependimento, clamarão a Deus para que ele apague também os seus pecados mediante a fé em Jesus. E se clamarem ardentemente e não desfalecerem, se o buscarem por todos os meios que Deus lhes deu, se não aceitarem consolo algum até que ele vir, ele virá, e não tardará.[60] Ele pode fazer muito em pouco tempo. Há muitos exemplos Atos dos Apóstolos em que Deus opera essa fé nos corações humanos com a rapidez de um relâmpago. Na mesma hora em que Paulo e Silas começaram a pregar, o carcereiro se arrependeu, creu e foi batizado. O mesmo sucedeu com os três mil que escutaram São Pedro no dia de Pentecostes, se arrependeram e creram na primeira vez que o escutaram. Bendito seja Deus, muitos no dia de hoje são prova viva de que Deus continua sendo poderoso para salvar.[61]


5. Porém, a partir de outra perspectiva se objeta exatamente o contrário: “Se é impossível se salvar por tudo o que se faça, isto levará a desesperança.” Certamente, levará a perder a esperança de se salvar por suas próprias obras, méritos ou retidão. Assim deve ser, porque é impossível confiar nos méritos de Cristo sem antes renunciar aos próprios. Quem procura estabelecer a sua própria justiça[62] não pode receber a justiça de Deus. A justiça que provém da fé não pode lhe ser dada enquanto confiar naquela que provém da lei.


6. Todavia, dizem alguns, que tal doutrina carece de consolação. Ao se atrever a sugerir tal coisa, o diabo falou assim como é, mentiroso e descarado. Ao contrário, esta é a doutrina consoladora por excelência, cheia de consolo a todos os pecadores que estão dispostos a se destruírem e a condenarem a si mesmos. Há um consolo excelso como o céu e mais forte que a morte em saber que aquele que nele crer não será confundido,[63] e que o mesmo que é Senhor de todos, é rico para com todos os que o invocam.[64] O que? Misericórdia para todos? Para Zaqueu abertamente ladrão? Para Maria Madalena uma prostituta? Imagino-me ouvir alguém dizer: “Então, até eu mesmo, tenho esperança de receber misericórdia!” E bem pode dizer você que está aflito, a quem ninguém oferece consolo. Deus não rejeitará a sua oração. Talvez muito em breve Ele dirá: “Confia, os teus pecados estão perdoados.”[65] Perdoados a tal ponto que já não dominará sobre você, e o Espírito mesmo dará testemunho a teu espírito de que você é filho de Deus.[66] Ó boas-novas! Novas de grande alegria, que são para todo o povo.[67] A todos os sedentos, venham as águas... Venham, comprem sem dinheiro e sem preço.[68] Quaisquer que sejam os seus pecados, ainda que sejam vermelhos como carmesim,[69] mesmo que sejam mais numerosos que os cabelos de tua cabeça,[70] converta-se ao Senhor, o qual terá misericórdia de você, e ao nosso Deus, o qual será rico em perdoar.[71]


7. Quando já não há objeção possível, se nos diz que a salvação pela fé não pode ser pregada como doutrina principal, ou que nem deve ser ensinada por completo. Mas, o que diz o Espírito Santo? Ninguém pode por outro fundamento além daquele que está posto, o qual é Jesus Cristo.[72] Logo, quem nele crer será salvo[73] é, e tem de ser o fundamento, e o princípio de toda a nossa pregação. “Bem, contudo, não a todos.” A quem não temos de pregá-la? A quem temos de isentar? Aos pobres? Estes tem um direito particular a que se lhes pregue o evangelho. Aos indoutos? Não, visto que desde o princípio Deus tem revelado estas coisas aos indoutos e ignorantes. As crianças? Deixem as crianças virem a mim, e não as impeçam.[74] Aos pecadores? Menos ainda. Jesus veio para chamar, não os justos, mas os pecadores ao arrependimento.[75] Então, se tivermos de excluir alguém terá de ser os ricos, os letrados, os de boa reputação e os moralmente elevados. É certo que tais pessoas frequentemente excluem a si mesmos para não ouvir. Mas, temos que falar as palavras de nosso Senhor. Pois, isto diz a nossa comissão: “Vão e preguem o evangelho a toda criatura.”[76] Se alguém se opõe a esta mensagem, ou a alguma parte dela, é para sua própria destruição, o mesmo será responsável pelo que faz. Mas, vive o Senhor, tudo o que ele me disser, isto falarei.[77]


8. Especialmente agora proclamaremos que por graça vocês são salvos, por meio da fé, porque isto nunca foi mais razoável. Somente tal pregação pode prevenir o crescimento do erro romanista entre nós. Atacar os erros desta igreja um a um não teria fim. Entretanto, a salvação pela fé chega à raiz do assunto e onde esta doutrina se estabelece todo o restante vem abaixo. Foi esta doutrina (que a nossa igreja corretamente chama “a rocha sólida e fundamento da religião cristã”) que primeiro tirou o papado destes reinos; e só ela pode mantê-lo fora. Só ela pode deter a imoralidade que invade a nação. Você pode esvaziar o mar gota a gota? Se puder, você conseguirá nos reformar dissuadindo-nos de vícios particulares. Mas ao chegar a justiça que é de Deus pela fé,[78] se deterão as ondas impetuosas. Só isso pode tapar as bocas daqueles cuja glória é sua vergonha,[79] e que negam o Senhor que os resgatou.[80] Podem falar da lei com tanta solenidade como quem a tem escrita por Deus em seu coração. Ao ouvi-los falar sobre o tema, parece que não estão longe do reino de Deus. Porém, caso os tire da lei e os leve ao evangelho, começando com a justiça que é pela fé, com Cristo, que é o fim da lei... para todo aquele que crê,[81] estes que até agora pareciam ser, se não completamente, ao menos quase cristãos, resultam ser filhos da perdição, tão distantes da salvação como distantes são as profundidades do inferno das alturas celestiais. Deus tenha misericórdia deles!


9. É por isso que o inimigo se enfurece tanto quando se anuncia ao mundo a salvação pela fé. Por isso moveu o céu e a terra para destruir a quem primeiro a pregou. Por isso, sabendo que só a fé pode destruir os fundamentos do seu reino, reuniu todas as suas forças, e empregou todas as suas artimanhas da mentira e calúnia para amedrontar aquele glorioso campeão do Senhor dos Exércitos, Martinho Lutero, com o propósito de que não a reavivaria. Isto não deve nos surpreender. Porque como disse esse varão de Deus, “Como se enfureceria o homem forte e armado a se ver preso e aniquilado por um menino, e este armado com uma frágil cana!” Se enfureceria especialmente porque sabia que esse pequeno menino o derrotaria e pisotearia. Amém, Senhor Jesus.[82] É assim que o teu poder se aperfeiçoa na fraqueza.[83] Vá então, pequeno que nele crê, e a sua destra te ensinará coisas terríveis.[84] Ainda que você seja frágil como uma criança recém-nascida, o homem forte não poderá prevalecer ante a ti. Você o vencerá, o dominará, o derrotará, o pisoteará debaixo de teus pés. Marchará sob a direção do grande Capitão da tua salvação[85], vencendo e para vencer[86], até que todos os seus inimigos sejam destruídos, e tragada seja a morte pela vitória.[87]


Agora graças sejam dadas a Deus, que nos dá a vitória por meio de nosso Senhor Jesus Cristo, que com o Pai e o Espírito Santo, seja a benção e glória, sabedoria, ação de graças, honra, poder e força,... pelos séculos dos séculos. Amém.[88]



[1] Pregado na Igreja de Santa Maria, Oxford, diante a universidade no dia 11 de junho de 1738. As edições mais antigas datam como 18 de junho. Porém, sabemos que nessa data Wesley se encontrava na Alemanha.

[2] Gn 2.7

[3] Sl 8.6

[4] Is 26.12

[5] Rm 3.23

[6] Jo 1.16. Em algumas edições deste sermão, Wesley incluía aqui a citação em grego. (χάριν ἀντὶ χάριτος)

[7] 2Co 9.15

[8] Rm 5.8

[9] Ef 2.8

[10] Hb 11.6

[11] Lc 2.20

[12] Lc 4.34

[13] At 16.17

[14] 1Tm 3.16

[15] 1Co 15.25

[16] 2Tm 3.16

[17] Mt 10.1

[18] Lc 9.1

[19] Lc 9.41; Mc 9.19

[20] Lc 17.5-6

[21] Rm 10.9-10

[22] Rm 4.25

[23] 1Co 1.30

[24] Mt 1.21

[25] Rm 3.19

[26] Sl 130.3. Wesley o cita seguindo a versão do Livro de Oração Comum.

[27] Rm 3.20-25

[28] Gl 3.13

[29] Cl 2.14

[30] Rm 8.1. Ao citar este texto, Wesley colocou o verbo “crer” no lugar de “estar”.

[31] Rm 8.15-16

[32] Ef 1.13

[33] Rm 5.1-5

[34] Rm 8.38-39

[35] 1Jo 3.5-8

[36] 1Jo 5.1

[37] 1Jo 3.9

[38] 1Jo 5.18

[39] Isto é, não comete pecado voluntário ou intencional. Veja sobre isto no sermão 13.

[40] 1Jo 3.9

[41] Gl 4.19

[42] Jo 3.3-5

[43] Cl 3.3

[44] 1Pe 2.2

[45] Ef 6.10

[46] Rm 1.17

[47] Jo 1.16

[48] Ef 4.13

[49] Rm 3.31

[50] Rm 8.4

[51] Ef 2.10

[52] Fp 2.5

[53] Rm 11.20-22

[54] Rm 3.27

[55] Rm 4.5

[56] Ef 2.4-5, 7-8

[57] Ef 2.9

[58] 1Co 12.6

[59] Rm 6.1

[60] Hb 10.37

[61] Is 63.1

[62] Rm 10.3

[63] Rm 9.33

[64] Rm 10.12

[65] Mt 9.2

[66] Rm 8.16

[67] Lc 2.10

[68] Is 55.1

[69] Is 1.18

[70] Sl 40.12

[71] Is 55.7

[72] 1Co 3.11

[73] Jn 3.16; Mc 16.16

[74] Mc 10.14

[75] Mc 2.17

[76] Mc 16.15

[77] 1Rs 22.14

[78] Fp 3.9

[79] Fp 3.19

[80] 2Pe 2.1

[81] Rm 10.4

[82] Ap 22.20

[83] 2Co 22.20

[84] 2Co 12.9

[85] Hb 2.10

[86] Ap 6.2

[87] 1Co 15.54

[88] Ap 7.12


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