terça-feira, 20 de junho de 2017

Depravação Total - Lucas Martins

terça-feira, 23 de maio de 2017

Paulo era contrário ou favorável ao ministério feminino?

Mulher cristã com véu, cerca de 200 d.C.

Craig S. Keener

A questão do papel da mulher no ministério é uma preocupação urgente para a igreja de hoje. Primeiro, ela é primordial por causa de nossa necessidade dos dons de todos os membros que Deus chamou para servir à igreja. A preocupação, contudo, estendeu-se para além da própria igreja. Cada vez mais, pensadores seculares dizem que o cristianismo é contrário às mulheres e que é, portanto, irrelevante para o mundo moderno.

As Assembleias de Deus e outras denominações nascidas nos reavivamentos de santidade e pentecostal afirmaram as mulheres no ministério muito antes de o papel das mulheres se tornar uma agenda secular ou liberal.[1] Da mesma forma, na expansão missionária histórica do século XIX, dois terços de todos os missionários eram mulheres. O movimento de mulheres do século XIX que lutou pelo direito de voto das mulheres originalmente cresceu a partir do mesmo movimento de revitalização liderado por Charles Finney e outros que defendiam a abolição da escravidão. Em contraste, aqueles que confundiam a cultura da Bíblia com a mensagem da Bíblia foram obrigados tanto a aceitar a escravidão como a rejeitar o ministério das mulheres.[2]

Para os cristãos que creem na Bíblia, porém, o mero precedente da história da igreja não pode resolver uma questão. Nós devemos estabelecer o nosso argumento a partir da Escritura. Como o debate atual se concentra especialmente em torno do ensino de Paulo, examinaremos seus escritos depois de termos resumido brevemente outros ensinamentos bíblicos sobre o assunto.

O MINISTÉRIO DAS MULHERES NA BÍBLIA

Como Paulo aceitou tanto a Bíblia Hebraica quanto os ensinamentos de Jesus como Palavra de Deus, devemos examinar brevemente o ministério das mulheres nessas fontes. O antigo mundo do Oriente Próximo, do qual Israel fazia parte, era um mundo de homens. Uma vez que Deus falou a Israel em uma cultura particular, no entanto, não sugere que a própria cultura era sagrada. A cultura incluía poligamia, divórcio, escravidão e uma variedade de outras práticas que agora reconhecemos como profanas.

Apesar da proeminência dos homens na antiga sociedade israelita, Deus ainda às vezes chamava mulheres para serem líderes. Quando Josias precisava ouvir a palavra do Senhor, enviou o sacerdote Hilquias e outros a uma pessoa que era, sem dúvida, uma das figuras proféticas mais proeminentes de seu dia: Hulda (2 Reis 22.12-20). Débora não era apenas uma profetisa, mas uma juíza (Juízes 4.4). Ela ocupava o lugar de maior autoridade em Israel no seu tempo. Ela também é um dos poucos juízes de quem a Bíblia não relata falhas (Juízes 4 e 5).

Embora as mulheres judaicas do primeiro século raramente estudassem com os mestres da Lei da mesma maneira como os discípulos do sexo masculino o faziam,[3] Jesus permitiu que as mulheres se juntassem às suas fileiras (Marcos 15.40-41; Lucas 8.1-3) – algo que a cultura poderia ter considerado escandaloso.[4] Como se isso não fosse escandaloso o suficiente, ele permitiu que uma mulher que desejava ouvir o seu ensinamento “sentasse a seus pés” (Lucas 10.39) – tomando uma postura normalmente reservada aos discípulos. Outros mestres judeus não permitiam que as mulheres fossem suas discípulas. De fato, os discípulos eram frequentemente mestres em treinamento.[5] Enviar mulheres para as missões (e.g., Marcos 6.7-13) poderia ter-se mostrado muito escandaloso, em termos práticos. No entanto, os Evangelhos relatam unanimemente que Deus escolheu mulheres como as primeiras testemunhas da ressurreição, apesar de os homens judeus do primeiro século descartarem o testemunho de mulheres.[6]

Joel explicitamente enfatizou que, quando Deus derramasse o seu Espírito, tanto mulheres quanto homens profetizariam (Joel 2.28-29). O Pentecostes significou que todo o povo de Deus estaria qualificado para receber os dons do seu Espírito (Atos 2.17-18), assim como a salvação significaria que o homem ou a mulher teriam o mesmo relacionamento com Deus (Gálatas 3.28). Os outros derramamentos do Espírito frequentemente causavam o mesmo efeito.
  
PASSAGENS ONDE PAULO AFIRMOU O MINISTÉRIO FEMININO

Paulo frequentemente afirmava o ministério das mulheres apesar dos preconceitos de gênero de sua cultura. Com algumas exceções (algumas mulheres filósofas), a educação avançada era um domínio masculino. Como a maioria das pessoas da antiguidade mediterrânea era funcionalmente analfabeta, aqueles que podiam ler e falar bem geralmente assumiam papeis de ensino e, salvo raras exceções, eram homens.[7] Nos primeiros séculos de nossa era, a maioria dos homens judeus (como Fílon, Josefo e muitos rabinos posteriores) refletiam o preconceito de grande parte da cultura greco-romana mais ampla.[8]

Os papeis das mulheres variavam de uma região para outra, mas os escritos de Paulo claramente o classificam entre os escritores mais progressistas, e não entre os mais chauvinistas de seu tempo. Muitos dos colaboradores de Paulo no evangelho eram mulheres.

Paulo elogiou o ministério de uma mulher que levou sua carta aos cristãos romanos (Romanos 16.1-2). Febe era uma serva da igreja em Cencreia. “Servo” pode se referir a um diácono, um termo que às vezes designava uma responsabilidade administrativa na igreja primeva. Em suas epístolas, porém, Paulo frequentemente aplicou o termo a qualquer ministro da Palavra de Deus, inclusive a si mesmo (1 Coríntios 3.5; 2 Coríntios 3.6, 6.4; Efésios 3.7, 6.21). Ele também chamou Febe de “socorredora” ou “ajudante” de muitos (Romanos 16.2), e este termo a designa tecnicamente como patrona ou patrocinadora da igreja, provavelmente a proprietária da casa em que a igreja de Cencreia estava se encontrando. Isto lhe conferiu uma posição de honra na igreja.[9]

Febe não era a única mulher influente na igreja. Enquanto Paulo cumprimentou cerca de duas vezes mais homens do que mulheres em Romanos 16, ele elogiou os ministérios de cerca de duas vezes mais mulheres que homens naquela lista (alguns usam a predominância de ministros masculinos na Bíblia contra as mulheres no ministério, mas esse mesmo argumento poderia funcionar contra o ministério dos homens, nesta passagem). Esses elogios podem indicar sua sensibilidade às indubitáveis oposições enfrentadas pelas mulheres, dado o preconceito contrário ao ministério feminino existente na cultura de Paulo.

Se Paulo seguiu o costume antigo quando elogiou Priscila, ele pode tê-la mencionado antes de seu marido Áquila por causa de seu status mais elevado (Romanos 16.3-4). Em outros lugares, aprendemos que ela e seu marido ensinaram as Escrituras a outro ministro, Apolo (Atos 18.26). Paulo também listou dois companheiros apóstolos, Andrônico e Júnia (Romanos 16.7). Embora Júnia seja claramente um nome feminino, os escritores que se opõem à possibilidade de que Paulo poderia ter se referido a um apóstolo feminino[10] sugerem que Júnia é uma contração para o “Junianus” masculino. Esta contração, no entanto, nunca ocorre, e mais recentemente tem-se mostrado ser gramaticalmente impossível para um nome latino como Júnia. Esta sugestão não se baseia no próprio texto, mas inteiramente no pressuposto de que uma mulher não poderia ser apóstola.

Em outros lugares, Paulo se referiu ao ministério de duas mulheres em Filipos, que, como muitos de seus companheiros ministros, haviam cooperado pela causa do evangelho lá (Filipenses 4.2-3). Como as mulheres geralmente alcançavam papeis religiosos mais proeminentes na Macedônia do que na maior parte do mundo romano,[11] as mulheres desta região citadas por Paulo podem ter-se movido mais facilmente aos lugares de proeminência na igreja (cf., Atos 16.14-15).

Embora Paulo tenha colocado os profetas logo depois dos apóstolos (1 Coríntios 12.28), ele reconheceu o ministério das profetisas (1 Coríntios 11.5), seguindo a Bíblia Hebraica (Êxodo 15.20; Juízes 4.4; 2 Reis 22.13-14) e a prática cristã primeva (Atos 2.17-18; 21.9). Assim, aqueles que se queixam de que Paulo não mencionou especificamente pastoras nominalmente não perceberam. Paulo raramente mencionava pastores por nome. Ele mais frequentemente mencionava seus companheiros de viagem no ministério, que eram naturalmente homens. Os títulos mais usados ​​por Paulo para esses cooperadores eram “servo” e “cooperador” – ambos os quais ele também aplicava às mulheres (Romanos 16.1-3). Por causa da cultura da época, era natural que poucas mulheres pudessem exercer a independência social necessária para alcançar cargos de ministério. No entanto, Paulo fez elogios a mulheres apóstolas e profetisas, os ofícios de maior autoridade na igreja.

Embora passagens como essas estabeleçam Paulo entre os escritores mais progressistas de sua época, a controvérsia primária hoje se estende em torno de outras passagens nas quais Paulo parecia opor-se às mulheres no ministério. Antes de voltar para lá, devemos examinar uma passagem onde Paulo claramente abordou uma situação cultural local.

PAULO SOBRE COBRIR A CABEÇA

Embora Paulo muitas vezes tenha defendido a reciprocidade dos papeis de gênero,[12] ele também trabalhava dentro dos limites de sua cultura, o que se fazia necessário por causa do evangelho. Comecemos com seu ensinamento sobre a cobertura das cabeças, porque, embora não esteja diretamente relacionado ao ministério feminino, isso nos ajudará a entender suas passagens sobre as mulheres no ministério. A maioria dos cristãos hoje concorda que as mulheres não precisam cobrir suas cabeças na igreja, mas muitos não reconhecem que Paulo usou o mesmo tipo de argumento tanto em relação às mulheres cobrindo a cabeça quanto em relação às mulheres se absterem de discurso congregacional. Em ambos os casos, Paulo usou alguns princípios gerais, mas abordou uma situação cultural específica.

Quando Paulo exortou as mulheres nas igrejas de Corinto a cobrir suas cabeças (o único lugar onde a Bíblia ensina sobre isso), ele seguiu um costume proeminente em muitas culturas orientais de seu tempo.[13] Embora mulheres e homens cobrissem suas cabeças por várias razões,[14] mulheres casadas especificamente cobriam suas cabeças para evitar que outros homens, com exceção de seus maridos, desejassem cobiçar os cabelos.[15] Uma mulher casada que saía com a cabeça descoberta era considerada promíscua e devia ser divorciada como adúltera.[16] Por causa do que as coberturas de cabeça simbolizavam naquela cultura, Paulo pediu às mulheres mais liberais que cobrissem a cabeça, a fim de não escandalizarem os outros. Entre seus argumentos para a cobertura de cabeça está o fato de que Deus criou Adão primeiro; na cultura particular que ele abordou, este argumento faria sentido como um argumento para defender o uso de coberturas para a cabeça das mulheres.[17]
  
PASSAGENS ONDE PAULO PODE
TER RESTRINGIDO O MINISTÉRIO FEMININO

Uma vez que Paulo, em alguns casos, defendeu o ministério das mulheres, não podemos ler suas restrições às mulheres no ministério como se fossem proibições universais. Pelo contrário, como no caso das coberturas de cabeça em Corinto, Paulo abordou uma situação cultural específica. Isso não quer dizer que Paulo aqui ou em qualquer outro lugar tenha escrito algo que não era para todos os tempos. Isso quer dizer que ele não escreveu para todas as circunstâncias e que devemos levar em conta as circunstâncias às quais ele se dirigiu, para entender como ele teria aplicado seus princípios em situações muito diferentes. Na prática, ninguém hoje aplica todos os textos a todas as circunstâncias, não importando quão bem eles possam defender alguns textos como se aplicando a todas as circunstâncias. Por exemplo, a maioria de nós não enviou ofertas para a igreja em Jerusalém neste domingo (1 Coríntios 16.1-3). Se nossas igrejas não apoiarem as viúvas, podemos protestar que a maioria das viúvas hoje não lavaram os pés dos santos (1 Timóteo 5.10). Da mesma forma, poucos leitores hoje defenderiam que devemos ir a Trôade para pegar o manto de Paulo, porque reconhecemos que Paulo dirigiu estas palavras especificamente a Timóteo (2 Timóteo 4.13).

QUE AS MULHERES FIQUEM EM SILÊNCIO

Duas passagens nos escritos de Paulo, a princípio, parecem contradizer os progressistas. Tenha em mente que estas são as duas únicas passagens na Bíblia que poderiam remotamente ser interpretadas como contradizendo o endosso de Paulo ao ministério feminino.

Primeiro, Paulo instruiu as mulheres a ficar em silêncio e a guardar suas perguntas para seus maridos em casa (1 Coríntios 14.34-36). No entanto, Paulo não poderia ordenar este silêncio em todas as circunstâncias, porque na mesma carta ele reconhecera que as mulheres podiam orar e profetizar na igreja (1 Coríntios 11.5), e a profecia era considerada mais elevada do que o ensino (12.28).

Conhecer a cultura grega antiga nos ajuda a entender melhor a passagem. Nem todas as explicações que os estudiosos propuseram provaram ser satisfatórias. Alguns sustentam que um escriba posterior acidentalmente inseriu essas linhas nos escritos de Paulo, mas a maior evidência para essa interpretação parece esbelta.[18] Alguns sugerem que Paulo citou aqui uma posição de Corinto (1 Coríntios 14.34-35), que ele então refutou (versículo 36); infelizmente, o versículo 36 não é lido naturalmente como uma refutação. Outros pensam que as igrejas, semelhante às sinagogas, eram segregadas por gênero, de alguma forma tornando a conversa das mulheres perturbadora. Esta visão vacila em dois pontos: primeiro, a segregação de gênero nas sinagogas pode ter começado séculos depois de Paulo; e, segundo, os cristãos de Corinto se encontravam em casas, cuja arquitetura tornaria impossível essa segregação. Alguns também sugerem que Paulo dirigiu-se a mulheres que estavam abusando dos dons do Espírito ou a um problema sobre julgar profecias. Mas, enquanto o contexto aborda estas questões, escritores antigos comumente usam digressões, e o tema da ordem na igreja é suficiente para dar unidade ao contexto.

Outra explicação parece mais provável. Paulo, em outro lugar, afirmou o papel das mulheres na oração e profecia (11.5), então ele não poderia estar proibindo todos os tipos de discurso aqui (de fato, nenhuma igreja que permita que as mulheres cantem realmente interpreta este versículo como significando o silêncio feminino em todos os casos). Uma vez que Paulo se dirigiu somente a um tipo específico de discurso, devemos notar que o único tipo de discurso abordado diretamente por ele em 14.34-36 eram esposas fazendo perguntas.[19] Em contextos de palestras gregas e judaicas antigas, estudantes avançados ou pessoas educadas frequentemente interrompiam oradores públicos com perguntas razoáveis. No entanto, a cultura privou a maioria das mulheres de educação. As mulheres judaicas podiam ouvir nas sinagogas, mas, ao contrário dos meninos, não eram ensinadas a recitar a Lei enquanto cresciam. A cultura antiga também considerava grosseiro que pessoas sem instrução atrasassem palestras com perguntas que denunciavam apenas sua falta de treinamento.[20] Assim, Paulo forneceu uma solução de longo alcance: os maridos devem ter um interesse pessoal no aprendizado de suas esposas e alcançá-las em particular. A maioria dos maridos antigos duvidava do potencial intelectual de suas esposas, mas Paulo estava entre os mais progressistas dos antigos escritores sobre o assunto.[21] Longe de reprimi-las segundo os padrões antigos, Paulo as estava libertando.[22]

Este texto não pode proibir que as mulheres anunciem a palavra do Senhor (1 Coríntios 11.4-5), e nada no contexto aqui sugere que Paulo especificamente proibiu as mulheres de ensinar a Bíblia. A única passagem em toda a Bíblia que se pode citar diretamente contra as mulheres ensinando a Bíblia é 1 Timóteo 2.11-15.

EM SILÊNCIO E EM SUBMISSÃO

Em 1 Timóteo 2.11-15, Paulo proibiu as mulheres de ensinar ou exercer autoridade sobre os homens. A maioria dos defensores das mulheres no ministério pensa que esta última expressão significa “usurpar a autoridade,”[23] algo que Paulo não desejaria que os homens fizessem mais do que as mulheres, mas o assunto é controverso.[24] Independentemente disso, aqui Paulo também está proibindo as mulheres de “ensinar,” algo que aparentemente ele permitia em outros lugares (Romanos 16, Filipenses 4.2-3). Assim, ele provavelmente abordou a situação específica nesta comunidade. Como Paulo e seus leitores conheciam a situação e podiam entendê-la, a situação que suscitou a resposta de Paulo foi assim assumida em seu significado pretendido.

Presumidamente, não é coincidência que a única passagem na Bíblia que proíbe as mulheres ensinando as Escrituras aparece no conjunto de cartas onde explicitamente sabemos que os falsos mestres estavam alvejando e trabalhando através das mulheres. As cartas de Paulo a Timóteo em Éfeso fornecem um vislumbre da situação: falsos mestres (1 Timóteo 1.6, 7, 19, 20, 6.3-5; 2 Timóteo 2.17) estavam enganando as mulheres (2 Timóteo 3.6-7). Essas mulheres eram provavelmente (e especialmente) algumas viúvas que possuíam casas que os falsos mestres poderiam usar para suas reuniões. (veja 1 Timóteo 5.13. Um dos termos gregos aqui indica “propagação sem sentido.)[25] As mulheres eram mais suscetíveis ao falso ensino apenas porque estavam privadas de uma boa educação. Esse comportamento foi restringido por uma sociedade hostil que censurava os cristãos por já estar convencida de que eles haviam subvertido os papéis tradicionais das mulheres e dos escravos,[26] então Paulo forneceu uma solução de curto alcance: “não ensinar” (sob as circunstâncias presentes), e uma solução de longo alcance: “que aprendam” (1 Timóteo 2.11).

Hoje lemos “aprendam em silêncio,” e pensamos que a ênfase está no “silêncio.” O fato de essas mulheres aprenderem “silenciosamente e submissamente” pode refletir seu testemunho na sociedade (características normalmente esperadas das mulheres). Mas a cultura antiga esperava que todos os alunos principiantes (ao contrário dos alunos avançados) aprendessem silenciosamente; era por isso que as mulheres não deviam fazer perguntas (como mencionado acima). A mesma palavra para “silêncio” aqui é aplicada a todos os cristãos no contexto (2.2). Paulo dirigiu especificamente este assunto às mulheres pela mesma razão que ele se dirigiu à admoestação para parar de disputar aos homens (2.8): eles eram os grupos envolvidos nas igrejas de Éfeso. Novamente, parece que o plano de longo prazo de Paulo era liberar, e não subordinar, o ministério das mulheres. A questão não é o gênero, mas a aprendizagem da Palavra de Deus.

O que faz com que muitos estudiosos questionem isso é o seguinte argumento de Paulo, onde ele baseia sua tese nos papeis de Adão e Eva (1 Timóteo 2.13-14). O argumento de Paulo, a partir da ordem de criação, no entanto, foi um dos argumentos que ele usou antes para afirmar que as mulheres deveriam usar coberturas para a cabeça (1 Coríntios 11.7-9). Em outras palavras, Paulo algumas vezes cita as Escrituras para fazer um caso ad hoc para circunstâncias particulares que ele não aplicaria a todas as circunstâncias. Embora Paulo muitas vezes faça argumentos universais originados no Antigo Testamento, ele às vezes (como no caso das coberturas da cabeça) faz um argumento local por analogia. Seu argumento da decepção de Eva é ainda mais provável para caber nesta categoria. Se o engano de Eva proíbe todas as mulheres de ensinar, Paulo diria que todas as mulheres, como Eva, são mais facilmente enganadas do que todos os homens (uma pergunta: então, por que ele permitiria que as mulheres ensinassem outras mulheres, pois elas as enganariam ainda mais?). Se, no entanto, a decepção não se aplica a todas as mulheres, nem à sua proibição de ensinar. Paulo provavelmente usou Eva para ilustrar a situação das mulheres iletradas que ele dirigiu em Éfeso; mas em outro lugar ele usou Eva para qualquer um que é enganado, não apenas as mulheres (2 Coríntios 11.3).[27]

Como não acreditamos que Paulo se contradisse, sua aprovação do ministério das mulheres em outros textos bíblicos confirma que 1 Timóteo 2.9-15 não pode proibir o ministério das mulheres em todas as situações. Em vez disso, ele abordou uma situação particular.

Alguns protestam que as mulheres não deveriam ter autoridade sobre os homens, porque os homens são o cabeça das mulheres. Embora haja muitos debates sobre o significado do termo grego “cabeça” (por exemplo, alguns o traduzem “fonte” em vez de “autoridade sobre”), Paulo falou apenas do marido como chefe de sua esposa, não do gênero masculino como chefe do gênero feminino.[28] Além disso, nós, pentecostais e carismáticos, afirmamos que a autoridade do ministro é inerente ao chamado e ao ministério da Palavra do ministro, e não à pessoa do ministro. Neste caso, o gênero deve ser irrelevante como um pré-requisito para o ministério – para nós, assim como foi para Paulo.

CONCLUSÃO

Hoje devemos reconhecer aqueles a quem Deus chamou, homens ou mulheres, e encorajá-los a aprender fielmente a Palavra de Deus. Precisamos reconhecer que homens e mulheres são trabalhadores em potencial para os abundantes campos de colheita.





Craig S. Keener, Ph.D., é professor de Novo Testamento no Eastern Seminary, Wynnewood, Pensilvânia. Ele é o autor de 10 livros, incluindo Paul Women & Wives e 2 livros que ganharam os mais altos prêmios de estudos bíblicos em Christianity Today em 1995 e 1999: o IVP Bible Background Commentary: New Testament (InterVarsity) e um Comentário do Evangelho de Mateus (Eerdmans).







REFERÊNCIAS E NOTAS DE RODAPÉ




[1] Victor Synan, The Holiness-Pentecostal Movement in the United States (Grand Rapids: Eerdmans, 1971), 188,89.
[2] Veja S. Grenz e D. Muir Kjesbo, Women in the Church (Downers Grove: InterVarsity, 1995), 42-62; N. Hardesty, Women Called To Witness (Nashville: Abingdon, 1984); G. Usry e C. Keener, Black Man’s Religion (Downers Grove: InterVarsity, 1996), 90-94, 98-109.
[3] Ibid.
[4] Veja G. Stanton, The Gospels and Jesus (Oxford: Oxford, 1989), 202; J. Stambaugh e D. Balch, The New Testament in Its Social Environment (Philadelphia: Westminster, 1986), 104; W. Liefeld, “The Wandering Preacher as a Social Figure in the Roman Empire” (Ph.D. dissertation, Columbia University, 1967), 240. Críticos frequentemente difamam movimentos apoiados por mulheres. Veja E.P. Sanders, The Historical Figure of Jesus (New York: Penguin, 1993), 109.
[5] “Sentar-se diante” dos pés de um mestre era tomar a postura de um discípulo (At 22.3; m. Ab. 1:4; ARN 6, 38 A; ARN 11, §28 B; b. Pes. 3b; p. Sanh. 10:1, §8). Sobre mulher no ministério de Jesus, veja especialmente: B. Witherington III, Women in the Ministry of Jesus, SNTSM 51 (Cambridge: Cambridge University, 1984).
[6] Os contemporâneos de Jesus geralmente tinham pouca estima pelo testemunho de mulheres (Jos. Ant. 4.219; m. Yeb. 15:1, 8-10; Ket. 1:6-9; tos. Yeb. 14:10; Sifra VDDeho. pq. 7:45.1.1; cf., Lucas 24.11). No direito romano, veja igualmente J. Gardner, Women in Roman Law and Society (Bloomington: Indiana University, 1986), 165.
[7] Embora as inscrições demonstrem que as mulheres ocuparam um papel proeminente em algumas sinagogas (veja B. Brooten, Women Leaders in the Ancient Synagogue: Inscriptional Evidence and Background Issues [Chico, Calif.: Scholars, 1982]), elas também revelam que essa prática era a exceção e não a norma.
[8] E.g., Philo Prob. 117; veja também Safrai, “Education,” JPFC 955; R. Baer, Philo’s Use of the Categories Male and Female, AZLGHJ 3 (Leiden: Brill, 1970).
[9] Veja também Keener, Women, 237-40.
[10] Como em nenhum outro lugar Paulo apela a elogios do outros apóstolos, “apóstolos notáveis” continua a ser a maneira mais natural de interpretar esta frase (veja, e.g., A. Spencer, Beyond the Curse: Women Called to Ministry [Peabody, Mass.: Hendrickson, 1989], 102).
[11] Veja V. Abrahamsen, “The Rock Reliefs and the Cult of Diana at Philippi” (Th.D. dissertation, Harvard Divinity School, 1986).
[12] Veja, e.g., comentários em C. Keener, “Man and Woman,” pp. 583-92 em Dictionary of Paul and His Letters (Downers Grove: InterVarsity, 1993), 584-85.
[13] Os judeus estavam entre as culturas que exigiam que as mulheres casadas cobrissem o cabelo (e.g., m. B.K. 8:6; ARN 3, 17A; Sifre Num. 11.2.2; 3 Macc 4:6). Em outros lugares do oriente, cf., e.g., R. MacMullen, “Women in Public in the Roman Empire,” Historia 29 (1980): 209-10.
[14] Às vezes, os homens (Plut. RQ 14, Mor. 267A, Char. Chaer. 3.3.14) e mulheres (Plut. RQ 26, Mor. 270D, Char. Chaer. 1.11.2, 8.1.7, ARN 1A) cobriam as cabeças em sinal de luto ou de vergonha (ARN 9, §25B). As mulheres romanas normalmente cobriam suas cabeças para adoração (e.g., Varro 5.29.130, Plut. R. 10, Mor. 266C), em contraste com as mulheres gregas que descobriam suas cabeças (SIG 3d ed., 3.999). Mas, em contraste com o costume de Paulo abordado, nenhuma dessas práticas específicas diferencia os homens das mulheres.
[15] O cabelo era o objeto primário do desejo masculino (Apul. Metam. 2.8,9; Char. Chaer. 1.13.11; 1.14.1; ARN 14, §35B; Sifre Num. 11.2.1; p. Sanh. 6:4, §1). Foi por isso que muitos povos exigiam que mulheres casadas cobrissem seus cabelos, mas permitiam que meninas solteiras o descobrissem (e.g., Charillus 2 em Plut. Sayings of Spartans, Mor. 232C; Philo Spec. Leg. 3.56).
[16] E.g., m. Ket. 7:6; b. Sot. 9a; R. Meir em Num. Rab. 9:12. Sobre esse costume em sociedades islâmicas tradicionais de hoje, veja C. Delaney, “Seeds of Honor, Fields of Shame,” pp. 35-48 em Honor and Shame and the Unity of the Mediterranean, ed. D. Gilmore, AAA 22 (Washington, D.C.: American Anthropological Association, 1987), 42, 67; cf., D. Eickelman, The Middle East: An Anthropological Approach, 2d ed. (Englewood Cliffs, N.J.: Prentice Hall, 1989), 165.
[17] Sobre os variados argumentos de Paulo aqui, veja o estudo completo em Keener, Women, 31-46; ou mais brevemente em “Man and Woman,” 585-86. Para um pano de fundo semelhante a 1 Timóteo 2.9,10, veja D. Scholer, “Women’s Adornment: Some Historical and Hermeneutical Observations on the New Testament Passages,” Daughters of Sarah 6 (1980), 3-6; Keener, Women, 103-7.
[18] G. Fee, The First Epistle to the Corinthians, NICNT (Grand Rapids: Eerdmans, 1987), 699-705. Gordon Fee pode estar certo de que toda a tradição ocidental desloca esta passagem, mas isso pode acontecer facilmente com uma digressão (bastante comum na escrita antiga), e mesmo nesses textos a passagem pode ser movida sem se perder.
[19] E.g., K. Giles, Created Woman: A Fresh Study of the Biblical Teaching (Canberra: Acorn, 1985), 56.
[20] Veja, e.g., Plut. On Lectures 4,11,13,18, Mor. 39CD, 43BC, 45D, 48AB; cf. tos. Sanh. 7:10.
[21] Uma das alternativas mais progressivas foi Plut., Advice to Bride and Groom, 48, Mor. 145BC, que, no entanto, acabou acusando as mulheres de loucura se deixadas a si mesmas  (48, Mor. 145DE).
[22] Para uma documentação mais detalhada, veja Keener, Women, 70-100; semelhantemente, B. Witherington, III, Women in the Earliest Churches, SNTSM 59 (Cambridge: Cambridge University, 1988), 90-104.
[23] Discussão adicional em Keener, Women, pp. 108,9.
[24] Para argumentos recentes e notáveis ​​a favor da “autoridade do exercício,” veja os artigos de Baldwin, Köstenberger, e Schreiner em Women in the Church: A Fresh Analysis of 1 Timothy 2:9-15 (Grand Rapids: Baker, 1995).
[25] A expressão grega para as atividades das mulheres aqui provavelmente se refere a espalhar falsos ensinamentos, segundo G. Fee, 1 and 2 Timothy, Titus, NIBC (Peabody, Mass.: Hendrickson, 1988), 122.
[26] Dada a percepção da sociedade romana sobre os cristãos como um culto subversivo, falsos ensinamentos que minassem as estratégias de Paulo para o testemunho público da igreja (veja Keener, Women, 139-56) não poderiam ser permitidos (cf., 1 Timóteo 3.2,7,10, 5.7,10,14, 6.1; Tito 1.6, 2.1-5,8,10; A. Padgett, “The Pauline Rationale for Submission: Biblical Feminism and the hina Clauses of Titus 2:1—10,” EQ 59 (1987) 52; D. Verner, The Household of God: The Social World of the Pastoral Epistles, SBLDS, 71 [Chico, Calif.: Scholars, 1983]).
[27] 1Tm 2.15 também pode qualificar os versículos que o antecedem; veja Keener, Women, 118-20.
[28] Catherine Clark Kroeger e outros acreditam que implica “fonte”, Wayne Grudem e outros que implica “autoridade sobre.” Com Gordon Fee, eu suspeito que a literatura antiga permite ambas as visões, mas que Paulo usou uma imagem relevante em seu dia (veja mais em Keener, Women, 32-36, 168).


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terça-feira, 21 de março de 2017

Presidente do seminário: calvinistas se mandem daqui!


Bob Allen

O presidente do Seminário Batista do Sul disse em 29 de novembro que os batistas que adotam a teologia e a prática calvinista  devem considerar juntar-se a outra denominação. 

"Eu sei que há um bom número de vocês que pensam que são calvinistas, mas entendam que há uma denominação que representa essa visão," disse Paige Patterson, presidente do Seminário Teológico Batista do Sudoeste, no encerramento do culto de terça-feira. "Ela se chama presbiteriana." 

"Tenho grande respeito por eles," disse Patterson. "Muitos deles, a vasta maioria deles, são irmãos em Cristo, e eu honro sua posição, mas se eu me mantivesse nessa posição eu me tornaria um presbiteriano. Eu não continuaria sendo um batista, porque a posição batista vem desde a época dos anabatistas, realmente desde o tempo do Novo Testamento, é muito diferente." 

Patterson, co-engenheiro do assim chamado ressurgimento conservador na Convenção Batista do Sul nas últimas duas décadas do século 20, comentou imediatamente após o orador da capela Rick Patrick terminar o sermão da manhã. 

Patrick, diretor executivo do Connect316  um grupo formado no verão de 2013 para contrabalançar um número de novas organizações promotoras da perspectiva neo-calvinista  defendeu que o debate na Convenção Batista do Sul sobre o calvinismo não é apenas sobre uma questão pontual de como as pessoas são salvas. 

"Porque as Institutas de Calvino abordam um amplo espectro de categorias teológicas, estamos realmente debatendo muito mais do que apenas a questão pontual da salvação," disse Patrick, pastor sênior da Primeira Igreja Batista em Sylacauga. "Se não tivermos cuidado uma miríade de crenças e práticas relacionadas irão entrar em nosso campo, escondidas dentro do Cavalo de Tróia do calvinismo." 

Patrick disse que o neo calvinismo e a posição "tradicionalista" defendida no passado por ex-líderes da CBS, como Herschel Hobbs e Adrian Rogers, são "duas teologias sistemáticas concorrentes" com desacordos tão básicos quanto se o Pai celestial é um Deus de amor. 

"Se Deus escolheu, ativamente ou passivamente, antes da fundação do mundo colocar os réprobos incondicionalmente numa categoria da qual eles jamais podem escapar, então isso é, como Calvino admitiu, um decreto terrível," disse Patrick. "Eu nunca esquecerei a primeira vez que um calvinista me olhou diretamente nos olhos e disse que Deus não ama todo mundo. Fiquei sem palavras e, francamente, isso não acontece muito." 

Aqui está o problema de Patrick: 

"Alguns neo-calvinistas, até mesmo pastores, fumam muito abertamente cachimbos e charutos, assim como bebem cerveja, vinho," disse Patrick. "Eles talvez até mesmo fermentem em casa a própria cerveja, tentando usá-la como uma extensão para se identificar com outros fumantes e bebedores." 

"O pecado não é uma forma de evangelismo", comentou Patrick.


Fonte: Jesus Creed

domingo, 5 de março de 2017

O Inadequado Precedente Histórico para "Uma vez salvo, sempre salvo"

Aparição de Cristo a Maria Madalena - Alexander Ivanov, 1835.

O Inadequado Precedente Histórico para
"Uma vez salvo, sempre salvo"

Steve Witzki

John Jefferson Davis escreveu um artigo intitulado: “A Perseverança dos Santos: Uma História da Doutrina” [Journal of Evangelical Theological Society 34: 2 (Junho de 1991)]. Três coisas tornam este artigo de grande valor. Primeiro, ele foi escrito por um renomado e altamente respeitado teólogo calvinista. Segundo, ele abrange as pessoas chave e os grupos religiosos sobre o tema. Terceiro, ele demonstra que o “uma vez salvo, sempre salvo” ou segurança eterna incondicional não era uma doutrina que foi ensinada pela igreja antiga e, nem de forma alguma, por qualquer teólogo renomado antes de João Calvino. Essa doutrina é, de fato, completamente estranha na história do cristianismo.

Embora a primeira discussão extensa sobre a doutrina da perseverança dos santos se encontre no Tratado sobre o Dom da Perseverança de Agostinho, escrito em torno de 429 d.C., Agostinho acreditava que era possível experimentar a graça justificadora de Deus e ainda não perseverar até o fim. Agostinho acreditava que os eleitos de Deus certamente perseverariam até o fim, mas ele negou que uma pessoa pudesse saber que estava entre os eleitos e também advertiu que era possível ser justificado, mas não estar entre os eleitos. Não até Calvino conectar tudo: eleição incondicional, regeneração permanente e a certeza da perseverança final.

James Akin, um teólogo católico, disse em um debate com o teólogo calvinista James White que ninguém antes de Calvino ensinou que a predestinação à graça acarreta automaticamente a predestinação à glória.

Você pode verificar isso por si mesmo. Eu fiz isso. Pesquisei em vários livros e liguei para meia dúzia de seminários calvinistas, conversando com seus teólogos sistemáticos e professores de história da igreja, e ninguém pode nomear uma pessoa antes de Calvino, que ensinou essa tese. Todos disseram que Calvino foi o primeiro. Cheguei a ligar para John Jefferson Davis, um erudito que publicou um artigo no Journal of the Evangelical Theological Society sobre a história desta doutrina, um homem que é ele mesmo um calvinista, mas que pesquisou a história desta doutrina completamente, e ele disse que Calvino foi o primeiro a ensiná-la.

Isto coloca um problema até mesmo aos que afirmam tirar os seus ensinamentos exclusivamente da Escritura, ou seja, “Como poderia uma doutrina tão importante – se for verdadeira – permanecer completamente desconhecida pelos primeiros 1500 anos da história da Igreja e, se Jesus  tivesse voltado em algum momento, entre estes três quartos de toda a história da Igreja?”

Outras importantes doutrinas têm sido conhecidas por toda a história cristã. Os cristãos sempre souberam, mesmo quando os hereges a negavam, que Jesus Cristo era Deus. Os cristãos sempre souberam, mesmo quando os hereges a negavam, que Jesus Cristo é plenamente homem e plenamente Deus. E os cristãos sempre souberam, mesmo quando os hereges a negavam, que eram salvos puramente pela graça de Deus.

Então, quando se descobre que os cristãos nunca souberam que os verdadeiros cristãos jamais podem apostatar e, então, de repente, 1500 anos depois, alguém começa a reivindicá-la, é preciso se perguntar quem está transmitindo o verdadeiro ensinamento dos apóstolos e quem está ensinando a heresia. “Todos os Verdadeiros Cristãos Estão Predestinados a Perseverar?”

As observações de Akin são precisas e problemáticas para os estudiosos calvinistas. Além disso, o calvinista não se sai melhor quando se olha ainda mais profundamente para o que os primeiros cristãos acreditavam a respeito deste assunto. Em 1998, Hendrickson Publishers publicou A Dictionary of Early Christian Beliefs: A Reference Guide to More than 700 Topics Discussed by the Early Church Fathers. Sob o tópico da “Salvação”, encontramos a pergunta: “Os que estão salvos jamais podem se perder?” Depois de várias passagens bíblicas serem citadas [2 Cr 15.2; Ez 33.12; Mt 10.22; Lc 9.62; 2Tm 2.12; Hb 10.26; 2Pe 2.20-21], cinco páginas de citações são dadas a partir dos escritos dos primeiros líderes cristãos. Estas citações dão a evidência de que a igreja primitiva não acreditava em “uma vez salvo, sempre salvo.” Eles ensinaram que era possível para um crente genuíno rejeitar a Deus e acabar eternamente separado de Deus no inferno [pp. 586-591].

David Bercot, editor deste dicionário, também escreveu um livro provocativo chamado, Will the Real Heretics Please Stand Up?  É preciso que a igreja evangélica de hoje, tanto em seu estilo de vida quanto ensino, olhe para isto à luz do ensino cristão primitivo. Esse é um livro interessante que vem de alguém que leu todas as obras dos Pais Pré-Nicenos mais de uma vez. Ele escreve,

Visto que os primeiros cristãos acreditavam que nossa fé e obediência contínuas são necessárias para salvação, naturalmente segue que eles acreditavam que uma pessoa “salva” poderia ainda acabar se perdendo. Por exemplo, Irineu, o pupilo de Policarpo, escreveu: “Cristo não morrerá novamente em favor daqueles que agora cometem pecado porque a morte não mais terá domínio sobre Ele... Portanto, não devemos estar inchados... Mas devemos ter cuidado para que, de alguma forma, depois de [termos vindo ao] conhecimento de Cristo, se fizermos coisas desagradáveis ​​a Deus, não obtermos mais perdão dos pecados, mas sim sermos excluídos de Seu reino” (Hb 6.4-6) [p. 65].

O que a Igreja Cristã acreditou historicamente a respeito da segurança do crente não é o teste final para determinar a nossa posição sobre esta questão hoje, mas a falta de precedentes históricos deve servir como um aviso. Antes de João Calvino, o ensino da segurança eterna incondicional não era uma doutrina que foi ensinada pela igreja universal através dos séculos. Portanto, enquanto as Escrituras são o teste final para a verdade sobre esta questão, “uma vez salvo, sempre salvo”, os professores precisam reconhecer que sua doutrina é historicamente uma anomalia. Além disso, a marca do ensino “uma vez salvo, salvo sempre” que diz às pessoas que elas podem parar de acreditar e ainda estar no seu caminho para o céu (mas com menos recompensas) não se encontra em nenhum lugar no cristianismo histórico antes do século XX.




Fonte: The Arminian

Postado originalmente em: Paleo-Ortodoxo

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