sábado, 31 de dezembro de 2016

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quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Réplica ao texto: O Arcanjo Miguel não é o Senhor Jesus Cristo

Réplica ao texto: O Arcanjo Miguel não é o Senhor Jesus Cristo

Por Luís Henrique S. Silva

Este artigo pretende ser uma réplica ao artigo do pastor Zwínglio Rodrigues em relação ao entendimento adventista sobre o arcanjo Miguel e Cristo.[1] Em minha réplica não irei defender a posição adventista porque não creio que ela seja correta, porém irei mostrar que tal posição trata-se apenas de uma opção exegética sem agravo algum a cristologia ortodoxa. Não serei técnico nesta abordagem preferindo uma escrita mais coloquial a acadêmica.


Introdução

Zwínglio inicia o seu artigo associando a interpretação adventista a interpretação dos Testemunhas de Jeová (TJ) e “seitas populares” a respeito de Miguel ser uma manifestação de Jesus Cristo no AT. Embora Zwínglio faça a devida observação que a interpretação dos TJ possui um aspecto ariano e a adventista trinitariano[2] tal associação é na verdade um pseudo-argumento.  Grupos reputados como heréticos também possuem crenças compartilhadas por outros grupos ortodoxos do cristianismo. Por exemplo, a doutrina tão cara aos protestantes chamada “Sola Scriptura” é semelhantemente confessada por grupos socianianos.[3]  Todavia nenhum protestante ortodoxo irá descrer da “Sola Scriptura” devido a grupos heréticos também crerem nela. Devido a isto, entendo ser desnecessária tal associação e vejo que o seu objetivo é meramente difamatório a IASD e foge completamente ao escopo do assunto. Ter uma crença compartilhada por um grupo herético não é prova cabal de que esta crença seja heterodoxa.

O pr. Zwínglio afirma que a denominação segue o entendimento de Ellen G. White a respeito deste assunto e ressalta textos em que ela discorre a respeito deste entendimento. Ellen G. White relaciona a cristofania[4] do arcanjo Miguel com outras cristofanias do AT tal como o Anjo do Senhor e o príncipe do exército Senhor. Adiante Zwínglio declara que tal entendimento é falso, porém não justifica imediatamente a sua declaração e reafirma que o esforço do teólogo adventista Batchelor para provar este ensinamento não logrou êxito. Zwínglio se espanta por algumas figuras marcantes do cristianismo protestante majoritário também terem o mesmo entendimento quanto a cristofania de Miguel, a lista poderia ser ampliada, mas cabe ressaltar que basicamente as tradições teológicas protestantes majoritárias (luterana, calvinista e arminiana) possuem teólogos fundacionais que afirmaram esta cristofania. Assim sendo, tal entendimento não lhes é estranho e nem valeu a quem afirmasse este ensinamento o título de herege ou heterodoxo.

O entendimento judaico sobre Miguel

Parte da argumentação do pr. Zwínglio está em demonstrar o entendimento dos antigos judeus a respeito de Miguel, pressupondo assim que tal entendimento influenciou a teologia neo-testamentária. Numa abordagem histórico-crítica Zwínglio afirma que o conceito de arcanjos não pertence ao pensamento judaico pré-exílico, portanto, sendo um empréstimo cultural dos persas. Em seguida, ele faz a asseveração de que não é possível associar Miguel a Cristo à parte de outras cristofanias[5] envolvendo o Anjo do Senhor. Não há qualquer exposição de qual critério foi usado para fazer esta distinção entre entender o Anjo do Senhor como cristofania e Miguel não, visto que a mesma tradição judaica não é unânime em compreender o “anjo do Senhor” como o próprio Deus.[6] Assim sendo, se na literatura judaica não há unanimidade em relação ao Anjo do Senhor, o qual foi aceito por Zwínglio como uma cristofania, logo pelo mesmo princípio adotado em relação a Miguel o pr. Zwínglio não deveria afirmar tão prontamente que aceita o Anjo do Senhor como cristofania e Miguel não.

Outra observação que gostaria de ressaltar é que Zwínglio é seleto em relação as tradições judaicas a serem aceitas por ele no seu argumento. Não se tratando de textos canônicos (i.e. textos da Bíblia) nenhuma tradição judaica é normativa ou inspirada por Deus, portanto pré-selecionar somente o que concorda com sua visão não é academicamente honesto de sua parte. Livros pseudoepígrafos, apócrifos e rabínicos são tão ocultistas e não inspirados quanto a literatura cabalista. O critério usado por Zwínglio para rejeitar esta fonte foi apenas um “acho”. Contudo, Zwínglio admite que parte da tradição judaica viu em Miguel uma figura messiânica. Por mais que seja verdade que os judeus majoritariamente viram em Miguel um ser distinto de Deus, também devemos tomar a precaução de não tomar a interpretação judaica como a regra hermenêutica, visto que pode ser muito possível os judeus terem errado majoritariamente sobre um ensinamento bíblico. Sabe-se que os judeus do primeiro século tinham uma esperança apenas política a respeito do Messias e nem por isso nós cristãos tomamos esta esperança como regra hermenêutica para lermos Jesus.

Aspectos gramaticais

Parcialmente concordo com Zwínglio a respeito dos aspectos gramaticais levantados em seu artigo. Todavia, Zwínglio não trabalha com o gênero textual e com os recursos linguísticos possíveis a partir do gênero. Sabemos que rios não batem palmas e nem montes cantam, mas poeticamente eles fazem (Sl 98.8). O uso inescrupuloso da gramática pode nos levar a tomar decisões erradas. Por exemplo, no Evangelho de Mateus 27.54 o centurião que estava com Jesus, no momento de sua morte não se refere a Jesus como sendo “o” Filho de Deus. Falta neste texto o artigo definido grego “ho”, o qual identificaria Jesus como sendo o único Filho de Deus. Não quero perder tempo aqui polemizando este versículo de Mateus, mas o uso para demonstrar que apenas uma análise fria da gramática pode gerar tantos problemas quanto desconsiderá-la.

Então, embora seja verdade que Batchelor esteja errado na forma com que estrutura o seu argumento, não é objetivo de Batchelor afirmar que Miguel (visto por ele como uma cristofania) é inferior a Deus. Zwínglio vê certo perigo em afirmar que Miguel é “o maior mensageiro que é Deus”, tal perigo não pode ser descartado tanto quanto não devemos descartar o perigo de se entender errado títulos como “Filho de Deus”, “Primogênito de toda a criação” (Cl 1.15), “Príncipe” (Atos 5.31), etc. Também coloca Zwínglio em posição desconfortável diante da sua crença, a qual também compartilho, que o Anjo do Senhor é uma cristofania.[7]

Tomemos por exemplo o texto da anunciação do nascimento de Sansão, no qual o Anjo do Senhor recebe adoração de Manoá (Jz 13.17-23). Ali o termo Anjo do Senhor significa literalmente “mensageiro de YHWH”, ocorre sem artigo definido “ha”, todavia este mensageiro recebe adoração e é identificado pelo próprio Manoá como Deus v.21, a palavra Deus está no plural “Elohim” e sem artigo definido “ha”. Se não lêssemos o texto hebraico com o pressuposto monoteísta este mensageiro certamente seria entendido como um dos deuses do mundo antigo e não como uma cristofania. Não é todo texto que o anjo do Senhor é uma manifestação de Deus, na anunciação do nascimento de Cristo um anjo do Senhor aparece para os pastores da região (Lucas 2.9) a sua missão é ser apenas um mensageiro da boa-nova. A construção gramatical em grego anjo do Senhor (angelos kuriou) do Evangelho de Lucas é igual a tradução que a LXX fez de Juízes 13.21. Só sabemos se o anjo do Senhor é uma cristofania ou não a partir do contexto onde está o termo.

Certamente, Zwínglio e nem eu entendemos que o Anjo do Senhor é um deus com "d" minúsculo, menos ainda que o fato de Deus se manifestar em forma de anjo diminui a sua divindade ou que a coloca em risco. Assim sendo, não há agravo algum para a divindade de Deus se ele quis se manifestar em forma de arcanjo e não de anjo. Sequer deveríamos estar debatendo sobre esta questão cristológica, ponto no qual adventistas confessam igualmente a nós que Cristo é Deus-Homem.[8]

Prosseguindo, Zwínglio usa a compreensão judaica de Miguel para afirmar que o NT assim também o entende como ser criado e não como uma cristofania. Como coloquei anteriormente Zwínglio admite usar apenas parte da tradição judaica sobre este assunto e aqui na Epístola de Judas a coloca como regra hermenêutica. Há diversos pontos que podem ser abordados aqui, mas vou-me ater a compreensão de Judas a respeito da literatura pseudoepígrafa. Nada dentro da Epístola nos obriga a crer que Judas entendia este relato sobre o corpo de Moisés como verídico, o uso deste relato cumpre a função pastoral de alertar a sua comunidade sobre a difamação/blasfêmia das autoridades, dentre as quais está o próprio demônio. O rabino Judah Hakkodesh diz que onde Miguel aparece a glória da majestade de Deus sempre pode ser vista (Shemoth Rabba), Miguel também foi interpretado como uma figura messiânica por alguns rabinos, então o problema é definir qual a interpretação que Judas fez deste texto espúrio. Judas usa Miguel com um anjo que não blasfemou contra o Diabo ou o aborda cristologicamente usando Miguel como a figura messiânica que não difama o Diabo e vence a luta? Jesus na sua tentação no deserto não blasfemou contra o Diabo e usou a palavra de Deus para vencê-lo. Zwínglio tenta afirmar que no texto de João 12.31 Jesus condena o Diabo e que isto é seria equivalente ao “juízo infamatório” de Judas. Discordo completamente desta interpretação porque Deus não blasfema, calunia ou difama a ninguém no seu exercício de juiz do universo. Há uma diferença radical entre proferir juízo sobre algo ou alguém e proferir um juízo com a qualificação de “infamatório”.  A NTLH deixa muito claro esta questão ao traduzir assim: “Miguel não se atreveu a condenar o Diabo com insultos.” (Jd 1.9).

Não estou tão seguro quanto Zwínglio em sua crítica ao autor adventista sobre usar Zc 3.2 na defesa do seu posicionamento. Inclusive aqui temos a figura do “Anjo do Senhor” usando o nome de Deus para expulsar o Diabo, algumas traduções fazem opções diferentes para este versículo deixando a repreensão a cargo do SENHOR (ARA?), ou do anjo do Senhor (NVI), ou do Anjo do Senhor (NTLH), ou do Anjo de Iahweh (BJ). Certamente este é um texto que traz várias possibilidades dentre as quais a cristofania do Anjo do Senhor repreendendo Satanás pode ser lida. Teria em mente Judas usar o texto espúrio com o mesmo objetivo de Zc 3.2? Se o Anjo do Senhor sendo Jesus manifestado no AT pode usar o nome de Deus para repreender o Diabo qual o impedimento para que Judas usasse o trecho de um pseudoepígrafo da mesma forma? A crítica sobre a palavra grega “atreveu” depende de como classificamos o gênero literário do pseudoepígrafo (i.e. seria um relato histórico fiel, poesia, ficção...) junto dos recursos literários usados pelo seu autor. Não devemos nos esquecer que a Bíblia afirma uma série antropopatias a respeito de Deus, inclusive Deus se arrepende na Bíblia (Gn 6.6), algo tão humano quanto não ter coragem. Se é impensável lermos a Segunda Pessoa da Trindade não tendo coragem, também poderá ser impossível de lermos a Primeira ou a Terceira se arrependendo ou se entristecendo respectivamente.

A força do argumento a respeito das autoridades superiores estaria num arcanjo não blasfemar contra o Diabo ou no próprio Cristo não blasfema-lo? Presumindo que os escritores do NT são cristocêntricos, então o argumento de Judas usando Miguel como Cristo teria um impacto muito maior sobre a sua comunidade do que simplesmente um arcanjo não blasfemando contra o Diabo, que é também um ser angelical. Judas parece seguir uma sequência dos feitos de Cristo, o qual libertou o povo v.5, trancafiou os anjos rebeldes v.6, Miguel (Cristo?) não blasfemou contra o Diabo v.9, exercerá juízo sobre os ímpios v.15.

A respeito de Daniel

Zwínglio inicia afirmando que Miguel é o “primus inter pares” das hostes celestiais mais altas. Para isto, ele usa a palavra hebraica echad como prova para o seu argumento. Ou seja, Miguel seria um dos principais anjos-chefes (de certa forma esta interpretação abre espaço para afirmar que haja mais de um arcanjo, visto que Miguel seria um entre tantos). Contudo, echad não possui necessariamente o aspecto de número cardinal ou ordinal, a palavra também pode ser um adjetivo (e.g. só, único, singular...) ou artigo indefinido.[9] O uso como adjetivo parece ser o caso aqui para echad porque Miguel é um ser único e inigualável com a tarefa bem específica de proteger a nação de Israel.[10] Entender echad apenas como número pode gerar alguns problemas como na oração do Shemá (Dt 6.4-9), na qual YHWH é Um (i.e. único) e não um deus entre outros deuses.

A palavra hebraica rishon como destacado por Zwínglio possui tanto o significado de primeiro (e.g. “primeiro dia”, Êx 12.15), mas também o mais proeminente (e.g. “Eu, o SENHOR, o primeiro”, Is 41.4).[11] Ela não significa intrinsicamente que pode haver outros iguais ao sujeito ao qual ela qualifica, pois se assim for o texto de Isaías deixaria de ser uma exaltação a onipotência e eternidade do Deus único para a exaltação de um deus numa série de deuses. A LXX traduz 'achad hasharim harishonim por heis tōn archōn tōn prōtōn, as palavras archōn e prōtōn estão associadas a Cristo no NT, por exemplo, Jesus é o Soberano dos reis da terra (Ap 1.5) e o primeiro e o último (Ap 1.17). Se faz necessário observar que Miguel acumula títulos que soam redundantes e isto é uma característica que vemos também em Jesus, o qual é Senhor dos senhores e Reis dos reis (Ap 17.14). Ambas as situações onde estas redundâncias ocorrem estão num contexto de guerra. A palavra shar também está associada a uma cristofania, na qual o Príncipe do exército do SENHOR é adorado por Josué (Js 5.14-15). Resumindo, Miguel é o único dos príncipes dos primeiros, certamente ler uma cristofania aqui não é um exagero.

Na crítica de Zwínglio a respeito da posição de Matthew Henry favorável a identificar Miguel como uma cristofania, ele usa a palavra heresia a fim de qualificar a posição do comentarista. Devo aqui refrescar a memória do pr. Zwínglio sobre o significado de heresia, a saber, negação de um ou mais artigos de fé fundamentais em que o negador o faz por ignorância ou com conhecimento de causa.[12] Portanto, a linguagem de Zwínglio é imprópria para tratar a questão, visto que aceitar ou rejeitar um texto como cristofania ou teofania não significa rejeitar qualquer doutrina fundamental do cristianismo. Não há qualquer concílio ecumênico ou confissão de fé protestante que postule a obrigatoriedade de crer que Miguel não é uma cristofania do AT. Assim sendo, devemos tratar a questão como uma opção exegética, a qual pode estar correta ou não, em vez de usar termos como heresia ou ortodoxia neste debate.

Zwínglio diz que Jesus “jamais assumiu uma natureza angélica (Hb 2:16)”. Também aproveito para elucidar ao pr. Zwínglio que no conceito de cristofania ou de teofania a divindade não assume qualquer tipo de natureza angélica, a definição é exatamente aqui que a palavra diz, ou seja, a manifestação de Cristo ou de Deus em forma visível e não uma mirabolante encarnação angelical. No batismo de Jesus houve uma teofania (pneumofania?) do Espírito Santo, na qual o Espírito se manifestou em forma de pomba (Lc 3.22), seria ridículo crer que a Terceira Pessoa da Trindade assumiu alguma natureza animal a fim de se manifestar. Entender corretamente os conceitos teológicos nos ajuda a não tirar conclusões erradas e possibilita um debate cristalino com aqueles que pensam diferente de nós.

Resultados deste artigo

Adventistas fazem opções exegéticas favoráveis a Miguel como uma cristofania do AT, nesse sentido eles se afastam da maioria dos cristãos evangélicos. Todavia, teólogos fundacionais como Calvino e Wesley também fizeram as mesmas opções séculos antes da IASD ser fundada. Tal opção pela cristofania não afeta em nada a divindade de Cristo e quem assim pensa o faz por ignorância ou por más intenções, pois numa cristofania ou teofania não há redução da divindade a categoria na qual ela se manifesta. O Espírito Santo manifestado em forma de pomba no batismo de Jesus não se reduziu a classe animal. A teologia não é feita apenas de significados explícitos dos textos canônicos, mas também daquilo que está implícito. Não há texto algum que associe explicitamente Cristo a figura do Anjo do Senhor no AT, todavia o próprio Cristo disse estar presente no momento do sacrifício de Isaque (Jo 8.56-58) e ao lermos o capítulo 22 de Gênesis encontramos o Anjo do Senhor impedindo Abraão de consumar o sacrifício e provendo a vítima sacrifical substitutiva para Isaque. Não é necessário que algum versículo diga “Jesus e o Anjo do Senhor são a mesma pessoa” para entendermos elas são. Todavia, nem todas as ocorrências do termo “anjo do Senhor” significam que trata-se de uma cristofania, assunto já trabalhado acima. Mesmo eu discordando que Miguel seja uma cristofania consigo compreender porque adventistas e outros teólogos fundacionais viram neste arcanjo elementos suficientes para classifica-lo assim.

Ainda que Miguel não seja uma cristofania, afirma-lo como tal não rebaixa Jesus a categoria de arcanjo tal como afirmar que Jesus é o Anjo do Senhor não o rebaixa a categoria de anjo, a qual na angeologia representa uma posição hierárquica inferior a de arcanjo. Para aqueles que afirmam ser Miguel uma cristofania não há divinização de um arcanjo, visto que para eles o arcanjo não é arcanjo, mas sim Cristo. Nem há adoração a Miguel pelo mesmo motivo que aqueles que aceitam o Anjo do Senhor como Cristo não estão adorando um anjo. Também não procede a acusação de reavivamento do gnosticismo porque para adventistas não foi um anjo que morreu e ressuscitou ao terceiro dia, mas o Senhor Jesus Cristo, a Segunda Pessoa da Trindade. Não há paganismo algum no conceito de cristofania e teofania, conceitos oriundos da igreja antiga, embora possamos debater quais textos de fato se enquadram neste conceito. Menos lógico ainda seria reputar como heresia um erro na identificação de uma cristofania, visto que heresia ocorre somente em artigos de fundamentais de fé tal como a cristologia, a qual adventistas confessam Cristo como verdadeiro Deus-Homem.

Conclusão

É de muito bom senso estarmos atentos e cientes do significado que termos possuem e não irmos além daquilo que um grupo declara. Não podemos fazer das nossas escolhas exegéticas o padrão pelo qual rotulamos grupos como hereges ou ortodoxos, precisamos nos desprender do nosso denominacionalismo e fazer uma análise histórico-teológica a fim de determinar isto. É muito subjetivo tomar as minhas escolhas e impressões como fator determinante para classificar alguém ou algum grupo como herege ou ortodoxo.

A salvação não é um amontoado de doutrinas a serem confessadas, mas um relacionamento genuíno com Jesus Cristo através da fé. Devido a isso a salvação não é um bem que pode ser vendido ou comprado, ou presente no templo A, B ou C. A complexibilidade dessa relação entre o pecador e Cristo não me faz crer que todos os membros das igrejas evangélicas majoritárias estejam salvos apenas porque as suas denominações possuam credos e doutrinas considerados corretos ou aceitáveis. Prefiro abordar individualmente cada pessoa e perguntar: Quem é Cristo para você? Do que ele te salvou? Como você vive a partir disso? Tenho certeza que posso chamar muitos adventistas e muitos outros evangélicos de irmãos, pois ambos creem que Jesus é Deus bendito e salvador dos homens, especialmente dos fiéis.

 








[2] Zwínglio é ambíguo em sua frase sobre a IASD ser trinitariana, na declaração de fé da ISAD está claro que eles são trinitários, cf. https://www.adventist.org/pt/crencas/deus/trindade/
[4] Para compreensão do significado do termo cristofania veja, http://lucasbanzoli.no.comunidades.net/cristofania
[5] Zwínglio usou o termo teofania no seu artigo, porém eu usarei sempre cristofania a fim de distinguir aparições em forma humana/angélica de Deus daquelas em formas mais genéricas.
[6] “A expressão foi dada simplesmente ao poder de Deus para realizar através de um único anjo qualquer ação, por mais maravilhosa que fosse.” http://www.jewishencyclopedia.com/articles/1521-angelology
[7] Zwínglio prefere usar o termo teofania.
[8] “Sendo para sempre verdadeiramente Deus, Ele Se tornou também verdadeiramente homem, Jesus, o Cristo.” https://www.adventist.org/pt/crencas/deus/filho/
[9] DITEAT, 1:339.
[10] DITEAT, 2:70.
[11] VINI, 245.
[12] SCHÜRLER, Arnaldo. Dicionário Enciclopédico de Teologia. Canoas: Ed. ULBRA, 2002. p. 228.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Adventistas do Sétimo Dia e Arminianos, Cristianismo Evangélico


Por Roger E. Olson

Recentemente eu passei muito tempo com teólogos adventistas do sétimo dia e estudantes. A maioria dos estereótipos que eu tinha sobre eles foram afastadas. Esse processo realmente começou anos atrás, quando segui a jornada de Walter Martin a fim de parar de chamá-los de seita (para desgosto de muitos de seus seguidores). Concordei com ele, então há quase 40 anos. Nesse meio tempo eu comecei a conhecer alguns adventistas, entrevistei alguns dos seus pastores, visitei algumas das suas igrejas e agora, estando junto deles, estou cada vez mais certo que, apesar de algumas diferenças doutrinais do cristianismo "majoritário" (que pode ser um conceito equivocado em nossa era pós-moderna) eles são, em sua maior parte, pelo menos, cristãos evangélicos. E muitos, se não a maioria, se consideram arminianos.

Aqui está um estudo de caso de como ler SOBRE e realmente conhecer e conversar COM as pessoas que podem ter muitos modos diferentes de familiaridade com as crenças. Ao longo dos anos tenho me arriscado a ter encontros face-a-face com adeptos de muitas tradições cristãs diferentes. Ocasionalmente estes encontros serviram apenas para confirmar os meus piores medos. Normalmente, no entanto, eles lançaram luz sobre esses "outros" que eu não poderia encontrar a partir de mera leitura. Há diferença entre sentar em uma igreja ou capela e ouvir as pessoas orando e sentar em torno de uma mesa e ouvir diretamente as pessoas explicarem as suas crenças isso transcende o que a leitura sobre elas pode oferecer.

Não concordo com algumas crenças adventistas, mas estou descobrindo que há uma real diversidade entre eles a respeito de como interpretar algumas dessas crenças evangélicas. E eu estou descobrindo que algumas coisas das quais eu pensava que os adventistas acreditavam (através da leitura sobre eles) não é o que eles acreditam de todo. Então, é claro, há diferença entre o que o adventista não tutorado acredita e o que os estudiosos acreditam. Isso é verdade em cada tradição e denominação. Eu sou batista. Certamente espero que não-batistas não julguem a crença e a prática batista pelo que algum vizinho batista possivelmente ignorante diz sobre a crença batista!

Insto aos críticos de pessoas que afirmam ser cristãs para se assentar com eles, procurando em encontros face-a-face usar uma hermenêutica de caridade e não de desconfiança. Eu cresci pentecostal/full gospel e sabia com certeza, sem qualquer dúvida, que muitos dos nossos críticos evangélicos sabiam pouco ou nada sobre nós e ainda assim falavam como se fossem especialistas em nós. Lembro-me de ter lido um livro sobre "seitas", que incluía a minha tradição e fazia declarações sobre nós que eram totalmente falsas ou que tomaram alguma heresia de um canto da nossa tradição e todos nós fomos culpados por isso. (Por exemplo, eu sei que muitos batistas acham que todos os pentecostais negam a Trindade só porque alguns negam. O que eles não sabem e, geralmente, não se importam de descobrir é que a grande maioria dos pentecostais acreditam na Trindade e não consideram os não-trinitários pentecostais seus irmãos e irmãs em Cristo!)

Neste momento estou lendo um pequeno livro fascinante sobre a história e doutrina adventista intitulado Em Busca de Identidade pelo erudito adventista George R. Knight. Eu desafio todos a ir além dos livros sobre "cultos" e "seitas" e além dos estereótipos e se envolver em uma conversa real com pessoas que dizem que são cristãos e se definem dessa forma. Pode levar algum tempo. Mas se eles são seus vizinhos, amigos, parentes, colegas ou apenas  uma igreja construída na beira da estrada, compete-lhe, por uma questão de honestidade intelectual, se certificar de que você sabe o que tradição deles realmente é e acredita antes de saltar em algum movimento de críticas.