domingo, 27 de fevereiro de 2011

Tendências da Hermenêutica Pentecostal

Esta é uma parte da série de palestras sobre Hermenêutica Pentecostal dada no Seminário de Teologia das Assembleias de Deus, Springfield, Missouri.

Por Roger Stronstad

Em 01 de janeiro de 1901, o movimento pentecostal nasceu. O mundo foi um berçário para o novo século; a cidadezinha do meio-oeste chamada Topeka, no Kansas, foi o berçário para o nascimento de um novo movimento. O século 20 nasceu para a celebração pública; o movimento pentecostal nasceu nas experiências individuais de um membro de uma pequena reunião de oração privada na Escola Bíblica Betel. Embora o movimento pentecostal tenha se iniciado em humilde anonimato, hoje, com pouco mais de uma década antes de chegar ao seu centenário, ele cresceu e se tornou em uma grande força para a cristandade.

A Tradição do Pentecostalismo Clássico: Uma hermenêutica "Pragmática"


Charles F. Parham: Origens da Hermenêutica "Pragmática"

Assim como Martinho Lutero é a fonte do luteranismo, João Calvino da teologia reformada, e João Wesley da Igreja Metodista, assim Charles F. Parham é a fonte do pentecostalismo. Parham não foi o primeiro a falar em línguas. Em certo sentido, a honra vai para a senhorita Agnes N. 0zman.[1] Em outro sentido, o nascimento do movimento pentecostal é o clímax do crescente volume de experiências entre os vários avivamentos e movimentos de Fé Apostólica.[2] O que fez Charles F. Parham a pai do pentecostalismo e de Topeka, Kansas, o foco do pentecostalismo, e Ozman Agnes, a primeira pentecostal, não foi a singularidade desta experiência, mas a nova compreensão bíblica/hermenêutica dessa experiência.

Charles F. Parham legou ao movimento pentecostal a sua hermenêutica definitiva e, consequentemente, a sua teologia e apologética definitiva. Sua contribuição surgiu do problema da interpretação do segundo capítulo de Atos e da sua convicção de que a experiência cristã do século 20 "deveria corresponder exatamente com a Bíblia, [porém], nenhuma santificação nem unção existente ... correspondia com o capítulo 2 de Atos dos Apóstolos."[3] Assim ele relata: "Eu ponho os alunos para estudar diligentemente sobre qual é a evidência bíblica do batismo no Espírito Santo para que possamos ir diante do mundo com algo que seja irrefutável, pois corresponde absolutamente com a Palavra . "[4] Ele conta os resultados da sua busca com as seguintes palavras: "Deixando a escola por três dias nesta tarefa, fui para a cidade do Kansas para três dias de cultos. Voltei para a escola na manhã anterior ao culto da Vigília Noturna do ano de 1900."

"Por volta das 10:00 horas da manhã, tocou a campainha chamando todos os alunos à capela para obter o relatório deles sobre o assunto. Para meu espanto, todos tinham a mesma história, que, apesar de várias coisas estarem ocorrendo quando caiu a benção pentecostal, a prova irrefutável em cada ocasião era que eles falaram em outras línguas ".[5]

No relato de Parham encontramos a distinção essencial do movimento pentecostal, ou seja, (1) a convicção de que a experiência contemporânea deve ser idêntica ao cristianismo apostólico, (2) a separação entre batismo no Espírito Santo e santificação (os movimentos de santidade já haviam separado isso da conversão/iniciação), e (3) que o falar em línguas era a evidência irrefutável ou prova do batismo no Espírito Santo.

A descoberta de que o falar em línguas era a prova bíblica irrefutável do batismo no Espírito Santo, foi confirmada no dia seguinte, a experiência de uma aluna da Escola Bíblica Betel, Agnes Ozman. Ela testificou que: "O espírito de oração estava sobre nós durante a noite. Era quase sete horas do dia primeiro de Janeiro, quando veio em meu coração pedir ao irmão Parham para colocar as suas mãos sobre mim, para que eu pudesse receber o dom do Espírito Santo. Quando as suas mãos foram impostas sobre a minha cabeça, então o Espírito Santo desceu sobre mim e comecei a falar em outras línguas, glorificando a Deus. Falei em várias línguas, era claramente manifesto quando um novo dialeto estava sendo falado."[6]

Agnes Ozman foi a primeira, mas não a última pessoa a falar em línguas na Escola Bíblica. Em 03 de Janeiro de 1901, outros alunos, e até mesmo o próprio Parham, falaram em línguas. Quando questionado sobre a sua experiência, a senhorita Ozman "apontou-lhes as referências bíblicas, mostrando que [ela] tinha recebido o batismo de acordo com Atos 2:4 e 19:1-6."[7]

Assim, na semana que encerreou a temporada de Natal de 1900 e do Ano Novo de 1901, as línguas foram identificadas como a evidência bíblica do batismo no Espírito e foram confirmadas pela experiência contemporânea (século 20). Essa identificação das línguas bíblicas e a experiência carismática contemporânea ocorreu por causa de uma hermenêutica pragmática. Essa hermenêutica pragmática passou para o recente movimento pentecostal como uma "tradição oral". Essa tradição foi posteriormente "recebida" pelo conselho das igrejas e codificada em declarações doutrinais.

Como resultado dessa codificação da hermenêutica e teologia de Parham, a hermenêutica pentecostal permaneceu em um vácuo analítico por boa parte da sua breve história. Na verdade, a hermenêutica pentecostal tem sido mais exposta do que investigada e analisada. Contudo, essa hermenêutica pragmática tornou-se o baluarte da apologética pentecostal e o pilar do pentecostalismo clássico, que, embora possa ser articulada com maior clareza, elegância e sofisticação, manteve-se inviolada até recentemente.


Carl Brumback: Um Exemplo de Hermenêutica Pentecostal Clássica "Pragmática"

Assim como o fogo é impulsionado pelo vento através da pradaria seca, assim, nas décadas seguintes aos decisivos eventos na Escola Bíblica Betel, os ventos do Espírito varreram as chamas do pentecostes sobre os corações espiritualmente secos. O recente avivamento pentecostal avançou e cresceu, tornando-se rapidamente mais internacional do que a tábua das nações do primeiro pentecostes cristão (Atos 2:9-11). O avivamento espalhou-se rapidamente a partir do Kansas e Missouri, até o Texas e Califórnia.[8] E dali para os confins da terra. Contrariamente às expectativas e desejos da maioria do incipiente movimento, ele coligou-se em várias estruturas denominacionais. Depois de 50 anos ele foi cautelosamente admitido na principal corrente do evangelicalismo.[9] Através desse caleidoscópio de variedades que caracteriza o pentecostalismo localmente, nacionalmente e até mesmo internacionalmente, um aspecto permaneceu constante - a hermenêutica pragmática que olhou para o pentecostes como o padrão para a experiência contemporânea.

Escrevendo sobre o meio caminho andado entre o início do movimento pentecostal até o presente, um expositor declarou: "Cremos que a experiência dos cento e vinte em Atos 2:04 - 'E todos foram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem' é o padrão bíblico para os crentes de toda era da igreja."[10]

Essa afirmação foi escrita por Carl Brumback, a quem escolhi como um exemplo de hermenêutica pentecostal.[11] Essa afirmação da hermenêutica pentecostal, no entanto, poderia ter sido escrita em qualquer década da história do movimento, ou por qualquer pessoa pertencente ao movimento.

Isto porque a hermenêutica pentecostal é tradicional e, portanto, essencialmente intemporal e anônima.

Em seu livro, "What Meaneth This?: A Pentecostal Answer to a Pentecostal Question", Brumback não se cansa de afirmar esse Pentecostes como o padrão de orientação hermenêutica. Por exemplo, "O batismo ou enchimento com o Espírito Santo, conforme registrado em Atos", escreve ele, "deve ser o padrão para os crentes de hoje"; além disso, "nos dias apostólicos falar em línguas acompanhava constantemente o batismo com o Espírito Santo, e assim deve ser nestes dias"; ainda mais, "falar em línguas formou o padrão para cada batismo ou revestimento carismático semelhante " ; e finalmente, "as línguas de Pentecostes ... definiram o padrão para o futuro batismo no Espírito Santo."[12]

Para os pentecostais, então, as línguas são normativas para sua experiência, assim como elas foram normativas na experiência da Igreja Apostólica registrada em Atos. Apesar de normativa, as línguas não são o propósito do batismo. Para os pentecostais, em geral, e Brumback em especial: "Jesus estabeleceu o propósito do batismo ou o enchimento com o Espírito Santo em Lucas 24:49 - 'permanecei, pois, na cidade, até que do alto sejais revestidos de poder.' Novamente em Atos 1:8 Ele disse: 'mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo.' " [13]

Admitindo que existem visões opostas sobre o significado dessas promessas, Brumback insiste "que o principal (para não dizermos o único) propósito do batismo, no e desde o Pentecostes, era e é o revestimento dos crentes com 'o poder do alto.' " [14] Esse dom de poder, certamente, é para possibilitar ou capacitar o testemunho ou o serviço dos crentes.

Essa breve pesquisa sobre o Pentecostes por Brumback como um padrão hermenêutico é um exemplo de hermenêutica pentecostal no ponto médio da história do movimento e uma reafirmação da hermenêutica pragmática dos alunos de Parham mais de uma geração anterior. Tal como aconteceu com os alunos de Parham, aqui há a mesma convicção de que a experiência do cristianismo apostólico e contemporâneo deva ser idêntica, que o batismo é para o serviço e não para salvação ou santificação, e que as línguas são a evidência irrefutável do batismo com o Espírito Santo.

Uma peculiaridade marcante da discussão de Brumback para quem o leu a 40 anos atrás é que esse Pentecostes/pragmático como um padrão hermenêutico é simplesmente assumido por ser auto-evidente e auto-autenticado. Em nenhum lugar ele analisa ou explica essa hermenêutica, ele simplesmente a afirma. Em nenhum lugar ele demonstra qualquer auto-consciência que, em um livro de apologética pentecostal, ele precisa discutir, defender e justificar a sua base hermenêutica para o desenvolvimento de "uma resposta pentecostal contemporânea a essa pergunta pentecostal antiga."

Até 1970 os pentecostais clássicos permaneceram confiantes, se não sempre em silêncio, insensíveis às críticas do seu Pentecostes pragmático como um padrão hermenêutico. Enquanto eles continuam confiantes, o pentecostalismo clássico já não está insensível ao debate hermenêutico. Em 1970 e 80 os pentecostais começaram a tratar das questões hermenêuticas e a articular novas abordagens hermenêuticas, ao mesmo tempo, validando tanto a sua experiência quanto a sua tradição. Vários fatores de variada importância tem produzido essa nova atitude.

Primeiro, o próprio movimento amadureceu; ele já não é um jovem movimento que luta para dar forma a sua identidade e para sobreviver em um mundo hostil.

Segundo, atualmente o pentecostalismo é mais amplamente aceito e está totalmente integrado na principal corrente do evangelicalismo. Como resultado disso, ele está menos defensivo do que em gerações anteriores.

Terceiro, os neo-pentecostais ou movimento carismático mostrou aos pentecostais clássicos uma variedade de hermenêuticas alternativas, adoração e estilos de vida.

Finalmente, a liderança pentecostal, pelo menos em suas instituições de ensino, tem agora formação em seminários e universidades. Como resultado disso, essa liderança tem formação em metodologia crítica e especialização no diálogo acadêmico. Consequentemente, o movimento pentecostal clássico trouxe a sua hermenêutica pragmática para o mercado intelectual, para comprar e vender. O mercado está repleto de grandes perigos para o comerciante descuidado, mas também promete ganhos espirituais para o comerciante sábio.

Quando se discute a hermenêutica pragmática dos pentecostais clássicos se está discutindo a exposição de uma tradição, por isso, pode-se escolher praticamente qualquer exemplar de qualquer época, como um representante do movimento. Quando se discute o debate atual, no entanto, já não se está discutindo uma tradição, por isso, é preciso olhar para alguns indivíduos e a sua contribuição particular para o debate. As obras de três estudiosos pentecostais em 1970 e 80 exige atenção: Dr. Gordon D. Fee, professor de Novo Testamento no Regent College em Vancouver, British Columbia; Dr. Erwin M. Howard, professor de Antigo Testamento na Universidade Oral Roberts em Tulsa, Oklahoma; e Dr. William W. Menzies, professor de Estudos Bíblicos, Evangel College em Springfield, Missouri. Em contraste com a hermenêutica pragmática adotada por pentecostais clássicos, esses estudiosos defendem respectivamente uma hermenêutica de gênero, pneumática e holística.


Gordon D. Fee: Uma Hermenêutica do "Gênero"

Dr. Gordon Fee moveu-se para preencher o vácuo da análise do pentecostalismo clássico, talvez, com mais vigor do que qualquer outro estudioso contemporâneo. Sua análise da hermenêutica pentecostal e as suas propostas para os novos rumos na hermenêutica são encontradas em vários artigos, incluindo o seguinte: "Hermeneutics and Historical Precedent—a Major Problem in Pentecostal Hermeneutics",[15] "Acts—The Problem of Historical Precedent",[16] e "Baptism in the Holy Spirit: The Issue of Separability and Subsequence."[17] Como um filho do movimento pentecostal e um erudito de renome internacional, as credenciais de Fee são impecáveis. Sua principal contribuição para o debate hermenêutico é defender um "gênero" hermenêutico como uma alternativa para a hermenêutica pragmática dos pentecostais clássicos.

Como princípio geral Fee defende: "Deve ser um axioma de hermenêutica bíblica em que o intérprete leva em conta o gênero literário da passagem que está interpretando, junto com a questão do texto, gramática, filosofia e história." [18] Então, em Atos, sobre o qual está baseado a teologia pentecostal: "... não é uma epístola, nem um tratado teológico. Mesmo que se ignore o seu valor histórico, não pode-se, e de fato não se deve, ignorar o fato de que [Atos] é moldado em forma de narrativa histórica. " [19] A importância da plena noção de que Atos é moldado em forma de narrativa histórica "é que, na hermenêutica da história bíblica, a principal tarefa do intérprete é descobrir a intenção do autor (eu acrescentaria, do Espírito Santo) no registro histórico." [20] Três princípios surgem a partir dessa visão no que diz respeito à hermenêutica da narrativa histórica:


a. A Palavra de Deus em Atos, que pode ser considerada como normativa para os cristãos, está relacionada principalmente com qualquer narrativa com a intenção de ensinar.

b. Que é incidental à principal intenção da narrativa poder realmente refletir a teologia do autor, ou como ele entendia as coisas, mas não poder ter o mesmo valor didático que a narrativa com intenção de ensinar tem.

c. O precedente histórico, para ter valor normativo, deve estar relacionado com a intenção. Ou seja, se puder ser demonstrado que o propósito de uma narrativa é estabelecer precedentes, tal precedente deve ser considerado como normativo. [21]


Tendo discutido o uso da hermenêutica da narrativa histórica em geral, Fee, em seguida, dá três princípios específicos para a utilização de um precedente histórico:


1. O uso do precedente histórico como uma analogia pelo qual se estabelece uma norma nunca é válido em si mesmo.

2. Apesar de não ter sido o proósito principal do autor, as narrativas históricas têm sido ilustrativas e, por vezes, "padrão" de valor.

3. Em matéria de experiência cristã, e mais ainda na prática cristã, os precedentes bíblicos podem ser considerados como padrões repetitivos - mesmo caso eles não estejam sendo considerados como normativos. [22]


Com base nas suas orientações para o uso do precedente histórico, Fee, em seguida, discute as distinções pentecostais - batismo no Espírito distinto e subsequente à conversão, e falar em línguas como evidência física inicial. Seguindo James D. G. Dunn, Fee afirma: "Para Lucas (e Paulo) o dom do Espírito Santo não é uma espécie de complemento para a experiência cristã, nem é um tipo de segunda maior parte da experiência cristã. Ele é sim o elemento principal no evento (ou processo) da conversão cristã ". [23] E ainda: "A questão de saber se as línguas são a evidência física inicial de qualidade de vida carismática no Espírito é um ponto discutível." [24] De fato, "insistir para que elas sejam o único sinal válido parece colocar muito peso sobre os precedentes históricos de três (talvez quatro) ocorrências em Atos." {25]

"O que, então," Fee pergunta: "pode o pentecostal dizer sobre sua experiência, tendo em vista os princípios hermenêuticos sugeridos neste artigo?" [26] À sua pergunta, ele dá uma resposta quíntupla, concluindo:

"Visto que falar em línguas era uma expressão repetida dessa dinâmica, ou carismática, dimensão da vinda do Espírito, o cristão contemporâneo pode esperar isso, também, como parte de sua experiência no Espírito. Se os pentecostais não podem dizer que se deve falar em línguas, eles podem certamente dizer, por que não falar em línguas? Eles tem repetido o precedente bíblico, que tinha valor probatório na casa de Cornélio (Atos 10:45, 46), e - apesar do muito que tem sido escrito ao contrário - elas tem valor, para a edificação do indivíduo crente (1 Coríntios 14:2-5) e, com a interpretação, para a edificação da igreja (1 Coríntios 14:5, 26-28). [27]

Artigos posteriores de Fee cobrem, repetem, esclarecem e acrescentam novas ênfases para sua discussão. Contudo, eles não modificam substancialmente o gênero hermenêutico que ele expôs em seu primeiro artigo. Como alguém que abordou o tema dentro do movimento clássico sua discussão exige respeito e uma análise cuidadosa. Há muito que podemos concordar. Por exemplo, ele está correto na observação de que "a hermenêutica não é simplesmente uma coisa pentecostal." [28] Correctamente ele insiste que Atos deve ser interpretado como narrativa histórica, e não como um tratado teológico. [29] Ele também é correto em precaver os pentecostais a não elevar um elemento incidental na narrativa a uma posição de importância teológica fundamental. Finalmente, ele afirma corretamente que a intenção do autor determina o valor normativo da narrativa. [30]

Fee é mais produtivo quando ele discute hermenêutica pentecostal como um estudioso do Novo Testamento, ou seja, quando ele está defendendo um gênero hermenêutico. Sua hermenêutica apresenta-se mais problemática quando ele, muitas vezes, está se dirigindo e seguindo a caricatura - como as críticas da hermenêutica pentecostal que são defendidas nas duas monografias de referência, "A Theology of the Holy Spirit" por Frederick Dale Bruner e "Baptism in the Holy Spirit" por James D. G. Dunn. Em violação da sua própria advertência sobre elevar as coisas incidentais para uma posição de importância, ele faz isso sobre os assuntos da separabilidade e subsequência, por exemplo. [31] Para os pentecostais, a coisa mais importante é o batismo do Espírito Santo como o poder para o serviço. Para Lucas-Atos é a unção/batismo - ministério no Espírito Santo - por Jesus (Lucas) e para os discípulos (Atos). Essa é a intenção da narrativa histórica de Lucas para a sua geração de leitores, e para essa geração também - não sabe se o batismo é distinto da, e subsequente, à conversão.


Howard M. Ervin: Uma Hermenêutica "Pneumática"

Como observamos, Gordon D. Fee defende um gênero hermenêutico para os pentecostais. Em seu ensaio, "Hermeneutics: A Pentecostal Option," [32] Howard M. Ervin propõe uma abordagem diferente para a hermenêutica pentecostal, chamada, hermenêutica "pneumática". Fee é um filho natural do movimento pentecostal. Ervin não é um filho natural, mas é, por assim dizer, um estrangeiro residente no movimento. Ele foi pastor por 17 anos na Igreja Batista Emanuel, Atlantic Highlands, New Jersey, que participou de um encontro internacional da Associação de Homens de Negócio do Evangelho Pleno em Miami, Flórida. Em uma reunião de oração em que David DuPlessis e Dennis Bennett oraram por ele, ele recebeu o seu pentecostes pessoal, falou em línguas como o Espírito lhe concedia que falasse. [33] As preocupações de Fee são previsivelmente as de um filho natural, isto é, precedente histórico, separabilidade e subseqüência. Em contraste, as preocupações de Ervin são as de um filho naturalizado, ou seja, a epistemologia da Palavra e experiência.

Ervin lança sua discussão, "Hermeneutics: A Pentecostal Option", com a observação: "Fundamental ao estudo da hermenêutica, como a qualquer disciplina acadêmica, é a questão da epistemologia." [34] Para o homem ocidental duas formas de conhecimento são axiomáticas: a experiência sensorial e a razão. Não só para a ortodoxia, mas também para o pietismo e neo-ortodoxia, o resultado é uma dicotomia perene entre fé e razão. Ele resume as consequências deste problema epistemológico com estas palavras: "A consequência para a hermenêutica tem sido em alguns setores um racionalismo destrutivo (neo-ortodoxia), em outros, uma intransigência dogmática (ortodoxia), e ainda em outros, um misticismo não-racional (pietismo). " [35]

Diante desse impasse epistemológico, "O que é necessário", escreve ele, "é uma epistemologia firmemente enraizada na fé bíblica com uma fenomenologia que atenda aos critérios de experiência sensorial empiricamente verificável (cura, milagres, etc.) e não viole a coerência das categorias racional" [36] Para Ervin, uma epistemologia pneumática não só atende a esses critérios, mas também oferece uma resolução de (a) a dicotomia entre fé e razão, que o existencialismo procura preencher, embora ao custo do pneumático; (b) o antídoto para um racionalismo destrutivo que, muitas vezes, acompanha uma exegese histórico-crítica; e (c) uma responsabilidade racional para o misticismo de uma piedade baseada na sola fide. [37]

A base para uma hermenêutica pneumática reside na natureza da Escritura como a absoluta, definitiva e transcendente Palavra de Deus. Esta palavra "é fundamentalmente uma realidade ontológica (a encarnação)." [38] A pré-condição para a compreensão de que a Palavra "é a ontológica recreação do homem pelo Espírito Santo (o novo nascimento)." [39] Porém, enquanto o novo nascimento preenche a distância entre o criador e a criatura ele não a apaga. Assim: "essa distância torna a palavra ambígua até que o Espírito Santo, que 'sonda ... até mesmo as coisas mais profundezas de Deus' (1 Coríntios 2.10, NVI), interpreta-a para o ouvinte." [40] Portanto: "Ela é uma palavra para a qual, de fato, não há hermenêutica a menos ou até que o divino hermeneuta (o Espírito Santo) medeie um entendimento. " [41]

O movimento pentecostal, observa Ervin, tem contribuído para essa hermenêutica pneumática. Ele escreve: "A contribuição para a hermenêutica da atual renovação carismática, ou pentecostal, da Igreja é a sua insistência na experiência imediata do Espírito Santo. Há contato direto com a realidade não-material que liga-se a uma epistemologia pentecostal, portanto, a sua herrneneutica. " [42]

Além disso: "A experiência pentecostal com o Espírito Santo dá conhecimento existencial dos milagres na visão bíblica de mundo. Esses eventos não são mais mitológicos (a visão da neo-ortodoxia), mas objetivamente reais. A experiência contemporânea da cura divina, profecia, milagres, línguas e exorcismo são uma evidência empírica do impacto de uma esfera de realidade não-material sobre a nossa existência no espaço-tempo, com a qual se pode e não há contato imediato. O conhecimento e a interação com a presença desse continuum espiritual é axiomática em uma epistemologia pentecostal que afeta decisivamente a sua hermenêutica. " [43]

Embora o seu ensaio seja intitulado, "Hermeneutics: A Pentecostal Option", Ervin contribui pouco ao tema da hermenêutica pentecostal. Além de alguns parágrafos no final do seu ensaio, ele escreve principalmente sobre epistemologia e não sobre hermenêutica. É lamentável que ele não tenha explorado a sua hermenêutica pneumática em maior profundidade, para a dimensão pneumática, ou vertical, é uma dimensão essencial na hermenêutica pentecostal. Afinal, é o Espírito, que é ao mesmo tempo atemporal e imanente, que prevê estabelece o continuum existencial e pressuposicional entre a palavra escrita no passado e essa mesma palavra no presente.


William W. Menzies: Uma Hermenêutica "Holística"

Dr. William W. Menzies é o terceiro estudioso pentecostal que está contribuindo significativamente para a discussão da hermenêutica pentecostal. O seu pensamento atual sobre o assunto está resumido no recente artigo, "The Methodology of Pentecostal Theology: An Essay in Hermeneutics." [44] Ao contrário de Gordon Fee, que enfoca o gênero da literatura bíblica, e Ervin, que enfoca a epistemologia, Menzies enfoca a teologia. Menezies entende que, "o problema corrente da teologia carismática" hoje, é a conexão entre os fenômenos tais como línguas e o batismo no Espírito. [45] Para Menzies, no centro desta batalha teológica de hoje está a questão básica da hermenêutica ou metodologia. [46] Considerando que Fee propõe uma hermenêutica de gênero e Ervin propõe uma hermenêutica pneumática, Menezies propõe uma hermenêutica holística para interpretar o fundamento bíblico da teologia pentecostal.

A hermenêutica holística de Menzies possui três níveis: (1) o nível indutivo, (2) o nível dedutivo, e (3) o nível de verificação. O nível indutivo é a exegese científica das Escrituras. Ele vê três tipos de acesso indutivo: (a) declarativa, ou seja, aqueles textos "cuja transparência torna o seu significado relativamente inequívoco", (b) implicacional, para algumas verdades importantes, como a doutrina da Trindade "é implícita nas Escrituras , ao invés de afirmações em declarações categóricas de um tipo evidente", e (c) descritivo, que é o verdadeiro campo de batalha.

Neste campo de batalha, "O livro de Atos é a questão quente em todo o debate." [47] Essa é a questão de Fee sobre o gênero e, como observa Menezies, é o verdadeiro cerne do debate. Se pode ser demonstrado que Lucas não tinha a intenção de ensinar teologia pelo que ele descreveu, portanto, "não há base genuína para uma teologia pentecostal em tudo." [48] Essa concepção leva Menzies a rejeitar as orientações de Fee sobre o precedente histórico e normatividade, e ele conclui, contra Fee, que os dados bíblicos implicam normatividade, ao invés de mera repetição. [49]

Na hermenêutica holística de Menzies o nível dedutivo complementa o nível indutivo. Se o nível indutivo é a exegese, então o nível dedutivo pertençe a teologia bíblica. Integra-se "passagens díspares e por vezes sem ligação em um todo significativo." [50] Ele prossegue sobre "o princípio da analogia da fé". [51]

Finalmente, a hermenêutica holística de Menzies inclui o nível de verificação. Este é o nível da experiência contemporânea. Menzies acredita que, "se uma verdade bíblica pode ser promulgada, então ela deve ser demonstrada em vida." [52] Em outras palavras, embora a experiência não estabeleça teologia, caso não verificada ou demonstrada a verdade teológica. Assim, no Dia de Pentecostes, "os apóstolos, guiados pelo Espírito, instruíram os discípulos sobre a conexão entre a revelação e a experiência. 'Isso é que ", Pedro anunciou (Atos 2:16)." [53]

A hermeneutica holística de Menzies em três níveis - indutivo, dedutivo, e verificação - tem muito a ser elogiada. Por exemplo, ela integra o analítico, o sintético, e os processos existenciais. Além disso, integra o exegético, o teológico, e as dimensões aplicacionais da interpretação bíblica. Aplicando esta hermenêutica holística para o Livro dos Atos, Menzies acha que pode reafirmar os quatro aspectos da hermenêutica e teologia pentecostal; a saber: (1) Pentecostes como padrão, (2) a normatividade teológica desse padrão, (3)subsequência e (4) o sinal das línguas.

Na conclusão desta pesquisa sobre as tendências da hermenêutica pentecostal, e como o movimento pentecostal abordou-a na ultima década, e finalmente, o seu centenário, nos lembramos que a hermenêutica pragmática dos nossos pais fundadores tem servido o movimento bem em sua pregação e ensino direcionados para aqueles que estavam dentro do movimento. Ela não é mais adequada para a apologética dirigida àqueles de fora do pentecostalismo clássico, sejam eles carismáticos ou não-carismáticos. Por essa razão, as longas décadas da era do vácuo analítico da hermenêutica pragmática do pentecostalismo clássico está para sempre e irreversivelmente encerrado.

Fee, Ervin e Menzies chamaram a atenção para importantes componentes de uma hermenêutica pentecostal em geral. Assim, como nos lembra Fee, o gênero distinto de Lucas-Atos como narrativa histórica deve ser levado em conta na equação hermenêutica. Além disso, como Ervin nos lembra, a experiência dos pneumáticos estabelece um continuum entre os pentecostais contemporâneos e o mundo bíblico antigo. Finalmente, como nos lembra Menzies, tanto a teologia quanto a hermenêutica são um complexo processo que combina adequadamente os níveis: indutivo, dedutivo e verificação. Fee, Ervin e Menzies provaram ser grandes estrategistas no desenvolvimento da nova hermenêutica pentecostal, mas cada um tem um enfoque parcial ou fragmentário. Embora Menzies chegue mais próximo, ainda aguardamos a formação de uma hermenêutica pentecostal plenamente desenvolvida.

Em junho de 1976 questão da revista "His" moveu uma revisão de um livro de Michael Green recentemente publicado, "I Believe in the Holy Spirit". A revisão conclui com a afirmação: "Mesmo não-carismáticos como Green, estão abertos e sensíveis à renovação, parecem incapazes de admitir que os pentecostais podem compreender Atos melhor do que eles." [54] Essa conclusão não é a reivindicação de alguns pentecostais dogmáticos. Também não é o exagero de algum simpatizante ignorante. Pelo contrário, ela é considerada a avaliação cuidadosa do respeitado teólogo batista e apologista, o Dr. Clark H. Pinnock.

Vários anos depois, ele reafirmou sua conclusão de que os pentecostais compreendem Atos melhor que os não-pentecostais. Ele escreve: "Não podemos considerar o pentecostalismo como um tipo de aberração nascido de excessos experimentais, mas um avivamento do século 20 da teologia do Novo Testamento e da religião. [O pentecostalismo] não só tem restaurado a alegria e o poder da igreja, mas também uma leitura clara da Bíblia." [55]

Aqui reside a grande anomalia do movimento pentecostal. Realmente, compreende-se Atos melhor do que não-carismáticos, e tem restaurado uma leitura clara da Bíblia para o cristianismo do século 20. Mas quase 90 anos após o Movimento ter iniciado, ele ainda não tem articulado totalmente a base de sua compreensão hermenêutica de Atos. Essa é a agenda da hermenêutica, que ainda enfrenta o pentecostalismo contemporâneo.

Roger Stronstad, é ministro ordenado da Assembleia Pentecostal do Canadá, é acadêmico decano da Western Pentecostal Bible College, Clayburn, British Columbia.


Notas

1. Mrs. Charles F. Parham, The Life of Charles F. Parham Founder of the Apostolic Faith Movement (Joplin, Mo.: Hunter Printing Company, 1930), 52,53,65–68.

2. J. Philip Newell, “Scottish Intimations of Modern Pentecostalism: A.J. Scott and the 1830 Clydeside Charismatics,” Pneuma, Vol. 4, No. 2 (1982): 1–18, Newell inicia o seu artigo com o seguinte relato: “Em 28 de Março de 1830, Mary Campbell, uma jovem devota escocesa de Clydeside, durante um ato de oração comunitária em sua própria casa, falou em ‘uma língua desconhecida.’ Mary e aqueles que ouviram isso, acreditaram ser o ressurgimento do dom apostólico de línguas.” Sobre a história da igreja Católica Apostólica do mesmo período veja Larry Christensen, “Pentecostalism’s Forgotten Forerunner,” em Aspects of Pentecostal-Charismatic Origins, editado por Vinson Synan (Plainfield, N.J.: Logos International, 15–37. Compare Harold Hunter, “Spirit-Baptism and the 1896 Revival in Cherokee County, North Carolina,” Pneuma, Vol. 5, No. 2 (1983): 1–17, Donald W. Dayton, “From ‘Christian Perfection’ to the ‘Baptism of the Holy Ghost,’ ” Melvin E. Dieter, “Wesleyan Holiness Aspects of Pentecostal Origins: As Mediated Through the 19th-Century Holiness Revival,” e William W. Menzies, “The Non-Wesleyan Origins of Pentecostal Movement,” em Synan, Aspects, 40–98.

3. Parham, Life, 52.

4. Ibid.

5. Ibid.

6. Ibid., 66.

7. Ibid.

8. Veja o capítulo 3, “The Revival Spreads to Los Angeles (1901–1906,” em William W. Menzies, Anointed to Serve (Springfield, Mo.: 1971), 41–59.

9. Veja o capítulo 9, “Cooperation: From Isolation to Evangelical Identification,” em Menzies Anointed, 177–227.

10. Carl Brumback, “What Meaneth This?” A Pentecostal Answer to a Pentecostal Question (Springfield, Mo.: Gospel Publishing House, 1947), 192.

11. Por exemplo, compare as duas exposições seguintes sobre teologia pentecostal da mesma editora de Brumback, “What meaneth This?”: Frank Lindblad, The Spirit Which Is From God (Springfield, Mo.: 1928), e L. Thomas Holdcroft, The Holy Spirit: A Pentecostal Interpretation (Springfield, Mo.: Gospel Publishing House, 1979).

12. Brumback, “What Meaneth This?”, 186,187,200.

13. Ibid., 197.

14. Ibid.

15. Gordon D. Fee, “Hermeneutics and historical Precedent — A Major Problem in Pentecostal Hermeneutics,” em Perspectives on the New Pentecostalism, editado por Russell P. Spittler (Grand Rapids, Mich.: Baker Book House, 1976), 118–132.

16. Gordon D. Fee, “Acts—The Problem of Historical Precedent,” em How to Read the Bible For All Its Worth: A Guide to Understanding the Bible, por Gordon D. Fee e Douglas Stuart (Grand Rapids, Mich.: Baker Book House, 1982), 87–102.

17. Gordon D. Fee, “Baptism in the Holy Spirit: The Issue of Separability and Subsequence”: Pneuma, Vol. 7, No. 2 (1985): 87–99.

18. Fee, “Hermeneutics,” 124.

19. Ibid., 125.

20. Ibid.

21. Ibid., 126.

22. Ibid., 128,129.

23. Ibid., 130.

24. Ibid.

25. Ibid., 131.

26. Ibid.

27. Ibid., 132.

28. Ibid., 121.

29. Ibid., 125.

30. Ibid.

31. Fee, “Baptism,” 87–99. Em “Suggested Areas for Further Research in Pentecostal Studies,” Pneuma, Vol. 5, No. 2 (1983) Russell P. Spittler comenta: “Subsequência … é uma não-questão. Os primeiros pentecostais não tinham a intenção de criar um novo ordo salutis, um algoritmo para a piedade. Ao contrário, eles estavam dizendo que é possível aos cristãos desanimados serem renovados” (p. 43).

32. Howard M. Ervin, “Hermeneutics: A Pentecostal Option,” Pneuma, Vol. 3, No. 2 (1981): 11–25. Reimprimido com pequenas alterações sob o mesmo título em Essays on Apostolic Themes: Studies in Honor of: Howard M. Ervin, editado por Paul Elbert (Peabody, Mass.: Hendrickson Publishers, 1985), 23–35.

33. Charles Farah, Jr. e Steve Durasoff, “Biographical and Bibliographical Sketch,” em Essays, editado por Elbert, xi.

34. Ervin, “Hermeneutics,” 11.

35. Ibid., 12.

36. Ibid.

37. Ibid.

38. Ibid., 17.

39. Ibid.

40. Ibid.

41. Ibid., compare pp. 18,22,23.

42. Ibid., 23.

43. Ibid.

44. William W. Menzies, “The Methodology of Pentecostal Theology: An Essay on Hermeneutics,” em Essays, editado por Elbert, 1–14.

45. Menzies, “Methodology,” 4.

46. Ibid.

47. Ibid., 5,6.

48. Ibid., 6.

49. Ibid., 8–10.

50. Ibid., 10.

51. Ibid., 11.

52. Ibid., 13.

53. Ibid. 54. Clark H. Pinnock, revisto por Michael Green, “I believe in the Holy Spirit” em His, junho, 1976: 21. 55. Clark H. Pinnock, “Foreward,” para The Charismatic Theology of St. Luke, por Roger Stronstad (Peabody, Mass.: Hendrickson Publishers, 1987), viii.


Fonte: Enrichment Journal

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terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

O "Arranha-céus" Neolítico de Jericó

Nos últimos 60 anos há alguns debates sobre a função da "construção mais antiga do mundo" em Jericó (ou seja, a torre do Neolítico em Jericó/Tell es Sultan). A torre do Neolítico é bem conhecida aos visitantes de Jericó, mas sua função estrutural tem confundido os arqueólogos. Amihai Mazar melhor resume as diferentes posições como esta,

"As muralhas e a torre de Jericó PPNA (pré-cerâmica neolítica A) é uma das descobertas mais surpreendentes de um período em que quase nenhuma arquitetura pública é conhecida em outros lugares. Elas foram explicados por Kenyon como um sistema de fortificação, isso levou-a a definir Jericó como a mais antiga comunidade urbana conhecida. Uma sugestão alternativa, oferecida por O. Bar-Yosef, é que as muralhas maciças eram destinadas a proteger o assentamento da pressão da lama e detritos erodidos do wadi ao oeste. A torre redonda permanece inexplicável por esta teoria, mas não poderia ter tido um propósito defensivo devido à sua localização no lado interno da muralha. Talvez tivesse alguma função ritual."*




Torre do neolítico com muro adjacente

Acrescente "intimidação servil" à lista de explicações em potencial. Arieh O'Sullivan difunde a teoria da Ran Barkai e Liran Roy na Linha Media .

O primeiro arranha-céus do mundo foi construído por antigos fazendeiros, que estavam sendo intimidados para erigir um marcador solar aos chefes da comunidade primeva, dizem os arqueólogos.

Muito antes de suas muralhas bíblicas vierem abaixo, os moradores de Jericó estavam abandonando a caça e a coleta para começar uma vida agrícola. Estabeleceram-se neste oásis ao lado do rio Jordão e construíram uma misteriosa torre de pedra com 8,5 metros (28 pés) de altura na periferia da cidade.

Quando foi descoberta por arqueólogos em 1952, ela foi datada em mais de 11 mil anos de idade, tornando-a o primeiro e mais antigo prédio público até então encontrado. Mas o seu propósito e a motivação para sua construção tem sido debatido desde então.

Agora, usando a tecnologia computadorizada, arqueólogos israelenses estão dizendo que ela foi construída para marcar o solstício de verão e também como um símbolo que iria motivar as pessoas a abandonar sua vida nômade e se estabelecerem.

A torre foi construída com um grande esforço construtor. As pessoas estavam trabalhando para um tempo muito longo e muito duro. Não era como as outras construções domésticas de Jericó", disse Ran Barkai do Departamento de Arqueologia da Universidade de Tel Aviv, que fez parte de uma equipe que analisou-a por computador.

Barkai e o seu colega arqueólogo Roy Liran usaram computadores para reconstruir o pôr do sol e descobriram que, quando a torre foi construída as montanhas ao redor lançavam uma sombra sobre ela como o pôr do sol no dia mais longo do ano. A sombra caia exatamente sobre a estrutura e, em seguida,espalhava-se cobrindo toda a aldeia.


HT: Lauer Joe

* Citação retirada de Mazar, Amihai. Archaeology of the Land of the Bible. New York: Doubleday, 1992.


Fonte: Bible Places Blog

domingo, 13 de fevereiro de 2011

O Ordo Salutis arminiano e calvinista: um breve estudo comparativo



Por Ben Henshaw

A ordo salutis é a "ordem da salvação". Ela enfoca o processo de salvação e a ordem lógica desse processo. A principal diferença entre a ordo arminiana e a calvinista recai sobre a fé e a regeneração. Estritamente falando, a fé não faz parte da salvação na ordo arminiana, uma vez que ela é a condição que se satisfaz antes do ato salvador de Deus. Tudo o que segue a fé é salvação na ordo arminiana, enquanto na ordo calvinista a fé é – de algum modo – o resultado da salvação. O que se segue é como eu vejo a ordo arminiana comparada com a ordo calvinista, juntamente com o porquê de eu achar teologicamente problemática a ordo calvinista.

Ordo salutis arminiana:

Graça preveniente



[União com Cristo]

Justificação

Regeneração

Santificação

Glorificação


Notas sobre a ordo arminiana:

Novamente, é importante notar que, estritamente falando, a graça preveniente e a fé não são parte da salvação, mas são necessárias para a salvação. A graça preveniente torna possível uma resposta de fé, sendo que, a fé é uma condição ordenada por Deus a ser satisfeita antes d’Ele salvar. A fé é sinérgica na medida em que ela é uma resposta genuína, que se torna possível pela graça capacitadora de Deus. Tudo o que se segue (os vários aspectos da salvação) é uma obra monergística de Deus. Embora a salvação resulte da fé, a fé não é a causa da salvação. Deus causa a salvação em resposta à fé segundo a sua promessa de salvar os crentes.

Há outros aspectos ou expressões da salvação que não estão explicitamente incluídos na ordo acima. Adoção, por exemplo, provavelmente deveria estar incluída entre a regeneração e a glorificação. A regeneração incluiria o início da adoção, enquanto a glorificação incluiria o seu ponto culminante. A eleição deveria estar amarrada à união com Cristo. Portanto, nos tornaríamos os eleitos de Deus em consequência da nossa união com Cristo (o Único eleito), enquanto viríamos a participar da Sua eleição através da união e identificação com Ele. A fé nos une a Cristo (Ef 1.13) e todas as bênçãos espirituais que residem em Cristo se tornam do crente mediante a união com Ele (Ef 1.3-12).

Temporalmente, essas bênçãos se tornariam nossas simultaneamente, mas logicamente é importante colocar a justificação antes da regeneração e tudo o que se segue, uma vez que é preciso primeiro receber o perdão do pecado e tê-lo removido antes do recebimento da nova vida e obtenção da santidade (santificação). Ninguém pode ter vida enquanto está sob a condenação do pecado e da ira de Deus, pois "o salário do pecado é a morte". E ninguém pode se fazer santo à parte da justificação. Assim, enquanto permanecermos unidos a Cristo, somos purificados pelo Seu sangue e nova vida e santidade provém imediatamente dessa purificação.

A predestinação se refere ao destino pré-determinado dos crentes através da união com Cristo. Os crentes são predestinados para a adoção definitiva e conformidade à imagem de Cristo (glorificação). A predestinação não se refere à predeterminação divina de certos pecadores se tornarem crentes e finalmente serem salvos.

Ordo salutis calvinista:

Eleição/Predestinação (incondicional)

Regeneração



Justificação

Santificação

Glorificação


Notas sobre a ordo salutis calvinista:

A ordo calvinista começa com uma seleção divina incondicional de certos indivíduos para a salvação. Esta seleção divina dos que serão salvos recai sob a eleição e a predestinação. Deus, então, regenera os indivíduos pré-selecionados em tempo (geralmente após ouvirem o evangelho). A regeneração causaria uma resposta de fé. A maioria dos calvinistas diria que a resposta de fé será automática e imediata.

Neste momento as pessoas são regeneradas por Deus e então creem. Os calvinistas tendem a falar da fé como um dom incondicional e irresistível de Deus e não como uma condição para receber a salvação. A fé faz parte do pacote da salvação, pois ela surge a partir de um aspecto primário da salvação-regeneração. Os calvinistas, muitas vezes, dizem que a fé é monergística, todavia é difícil ver como a fé possa ser monergística a menos que Deus creia para o indivíduo. Contudo, a maioria dos calvinistas nega que Deus creia para a pessoa, porém, mantém que a fé é uma obra monergística incondicional de Deus, juntamente com todos os outros aspectos da salvação.

O problema com a ordo calvinista tem a ver com a prioridade da regeneração (o novo nascimento). Logicamente, o novo nascimento (regeneração – o início da vida espiritual) precede a justificação na ordo calvinista da mesma forma que precede a fé (a Bíblia é clara que a justificação é pela fé). Então, logicamente falando, temos pessoas que estão recebendo nova vida antes da justificação. Uma vez que a justificação inclui o perdão e a satisfação da ira de Deus, a ordo calvinista resulta no recebimento de vida logicamente antes de ser perdoado e antes da ira de Deus ser satisfeita.

Mais um problema vem do difícil posicionamento da adoção na ordo calvinista. Será que deveríamos colocá-la no novo nascimento (regeneração)? Se colocarmos a adoção no novo nascimento, então também temos uma pessoa se tornando filho de Deus (o que eu acho que deve ser parte da regeneração) logicamente antes de ser perdoado e justificado.

E ainda outro problema vem do difícil posicionamento da santificação na ordo calvinista. Eu acho que a maioria dos calvinistas concordaria com o que tenho colocado aqui. Ainda assim, tenho ouvido (e lido) que muitos calvinistas afirmam que a regeneração é o começo da santificação. Se for esse o caso, então os calvinistas também precisam explicar como alguém pode ser santificado (feito santo) antes de ser justificado.

Também é difícil posicionar a união com Cristo na ordo calvinista. Quando nos tornamos unidos com Cristo? Não nos tornamos unidos a Cristo na regeneração, logicamente antes de uma resposta de fé? Isso levaria à conclusão de que se pode estar em união com Cristo logicamente antes de crer em Cristo. Se a união com Cristo na ordo for colocada após a regeneração e fé, então nos deparamos com o problema de pecadores receberem nova vida espiritual logicamente antes de serem ligados à fonte da vida - Cristo.

A ordo calvinista tem muito a prestar conta e parece ser irremediavelmente problemática. Ao colocar a regeneração antes da fé, a ordo salutis calvinista se envolve em inúmeros absurdos teológicos, enquanto a ordo arminiana evita-os todos.



Fonte: SEA

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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

A Bíblia Ensina sobre Segurança Eterna?


Podem os cristãos perderem sua salvação ao recusarem o senhorio de Cristo?


Introdução

Em um artigo anterior, eu discuti brevemente a posição doutrinária da perseverança dos santos, segurança eterna, ou, uma vez salvo, salvo para sempre. Aqui, porém, discutirei de forma mais completa.

A doutrina da segurança eterna ensina que uma vez que a pessoa experimenta a salvação, nada pode fazê-la perder esse status. Millard J. Erickson afirma: “A posição Calvinista é clara e decisiva neste assunto: ‘Eles, a quem Deus tem aceitado, que foram chamados, e santificados pelo Seu Espírito, não podem perder nem totalmente nem definitivamente o estado da graça, mas deve perseverar até o fim, e serem eternamente salvos’”. (WESTMINTER CONFESSION OF FAITH, 17.1).

Henry C. Thiessen adiante afirma: “De acordo com a afirmação de que eles ‘não podem perder nem totalmente nem definitivamente o estado da graça’. Isso não é equivalente a dizer que eles nunca poderão ter uma recaída, nunca pecarão, ou nunca deixarão de louvar a Aquele que os chamou das trevas para Sua maravilhosa luz. Apenas significa que eles nunca perderão totalmente o estado da graça e retornarão ao lugar de onde eles foram tirados.”

Assim como a expiação limitada, Agostinho popularizou no século V a.C. a doutrina da perseverança dos santos. A Igreja Católica Romana finalmente adotou seus ensinos sobre esse assunto como doutrina oficial. Foi a posição comumente aceita no tempo da Reforma Protestante. Líderes da Reforma, como João Calvino, também a aceitou e promoveu juntamente com uma série de outras doutrinas e práticas católico-romanas préreforma. Dessa maneira, a segurança eterna adentrou nos sistemas doutrinários de diversas denominações protestantes modernas de hoje.

A tradição arminiana-wesleyana de santidade e as Assembleias de Deus que cresceram fora disso têm historicamente rejeitado a crença da segurança eterna. O website oficial das AD afirma: “As Assembleias de Deus tomaram uma posição contrária ao ensinamento de que a soberania de Deus substituirá completamente o livre arbítrio do homem para que este O aceite e O sirva. Em virtude disto nós acreditamos que é possível que uma pessoa uma vez salva se afaste de Deus e esteja perdida novamente”.

Muito embora as Assembleias de Deus tenham tomado uma posição forte e inequívoca, as pessoas a quem ministramos podem não entender essa doutrina ou nossa posição em relação a este assunto.

As pessoas em nossas congregações geralmente trabalham com outras que acreditam em segurança eterna. Elas precisam saber como refutar as crenças de seus colegas de trabalho. Por isso, é importante que os pastores ensinem os argumentos usados pelos proponentes da perseperseverança dos santos/segurança eterna, as respostas apropriadas para suas afirmações e a base bíblica da nossa posição: crentes podem voluntariamente perder sua salvação se se afastarem do senhorio de Cristo.

Há, com certeza, crenças diversas com relação à segurança eterna dentro do Calvinismo. Por exemplo, uma visão extrema argumenta que Deus levará um crente para casa porque ele não endireita sua vida e tornou-se um estorvo para Ele. Outros que acreditam em segurança eterna, mas não acreditam que esta dê licença para pecar: “Por outro lado, porém, nosso entendimento da doutrina da perseverança não permite a indolência nem a negligência. É questionável se uma pessoa que racionaliza, ‘Agora que eu sou um cristão, posso viver como eu quiser’, foi realmente convertida e regenerada. A fé genuína surge, ao contrário, no fruto do Espírito.”

Textos usados para sustentar Seg.Eterna e suas próprias interpretações

Crentes podem voluntariamente perder sua salvação se se afastarem do senhorio de Cristo.

Aqueles que apoiam a visão da salvação de Segurança Eterna (SE) geralmente se referem a João 5,24 para sustentar sua posição, “Na verdade, na verdade vos digo que quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna e não entrará em condenação, mas passou da morte para a vida.” Proponentes acreditam que este versículo signifique que, uma vez que passou da morte para a vida, você eternamente terá vida. O contexto gramatical desse versículo, porém, esclarece que a palavra eterna não é um advérbio que modifica o verbo, como quando se diz eternamente terá vida. Ao contrário, é parte do substantivo composto. Assim, a vida é eterna, não a posse dela. Também, as palavras ouvindo e crendo estão no gerúndio, o que significa ação contínua.

Proponentes também argumentam que, uma vez que a pessoa e Deus se unem, esse laço nunca pode ser desfeito; apelam para João 6.37, “Tudo o que o Pai me dá virá a mim; e o que vem a mim de maneira nenhuma o lançarei fora.” Não podemos dizer, porém, que este texto exclua a possibilidade de que alguém possa escolher ir embora (compare com João 17.12).

João 10.27,28 também é usado para sustentar a doutrina da SE: “As minhas ovelhas ouvem a minha voz, e eu conheçoas, e elas me seguem; e dou-lhes a vida eterna, e nunca hão de perecer, e ninguém as arrebatará das minhas mãos.”

A estes versículos podemos também acrescentar Romanos 8.35,39: “Quem nos separará do amor de Cristo? ... Nem a altura, nem a profundidade, nem alguma outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor!”

Deve-se observar também que o tempo presente no grego denota ação contínua. Esse versículo é traduzido literalmente como “As minhas ovelhas continuam ouvindo a minha voz, e eu continuo conhecendo-as, e elas continuam me seguindo; e continuo dando-lhes a vida eterna.” Significa que o fato de não perecermos depende da nossa ação contínua de ouvir e de seguir a Jesus, tema que ecoa em toda a Bíblia. Ao contrário de sustentar a SE, este texto sustenta a possibilidade de um crente se afastar de Deus se rejeitar a continuar a obediência a Cristo.

Usando João 15.1-11, proponentes afirmam “Se os crentes se fizeram um em Cristo e Sua vida flui neles (Jo 15.1-11), nada pode anular essa conexão.” Mas o capítulo 15 inteiro mostra a possibilidade de essa conexão ser quebrada.

A palavra traduzida como permanecer em todo o capítulo 15 é meno, que significa ficar, continuar. Portanto, Jesus diz, “Toda vara em mim que não dá fruto, a tira...Se alguém não permanece [fica, continua] em mim, será lançado fora, como a vara, e secará; e os colhem e lançam no fogo, e ardem.” (Jo 15.2,6). A próxima seção começa com Jesus declarando, “Tenho-vos dito essas coisas para que vos não escandalizeis.” (Jo 16.1). Se afastar-se de Deus não fosse uma possibilidade nítida, Jesus não teria falado sobre o assunto.

Alguns adeptos da SE apontam para as palavras de Paulo em Filipenses 1.6 para apoio, “Tendo por certo isto mesmo: que aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará até ao Dia de Jesus Cristo.”

Lendo os versículos 1-11, porém, torna-se claro que o que Paulo estava seguro era o fato do desejo dos filipenses de forçarem a maturidade – a única segurança real do crente. Isto é sustentado pela advertência aos filipenses para “operar a vossa salvação com temor e tremor.” (2.12). Além disso, após notar que mesmo seu próprio destino eterno ainda não estava escrito nas pedras (3.12,13), e para ter certeza de sua vida eterna, Paulo se esforçou para uma maior maturidade e obediência (3.14). Ele exortou os filipenses a seguirem seu exemplo e evitarem seguir o exemplo daqueles cujo fim é a destruição (3.17-19).

As pessoas, às vezes, apelam para Hebreus 7.25, “Portanto, pode também salvar perfeitamente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles.” Defensores entendem que a palavra sempre se refira àqueles que se aproximam de Deus para salvação. O contexto imediato, porém, e a mensagem do livro de Hebreus requerem a frase para se referir a Jesus e a duração de tempo em que Ele, como Sumo Sacerdote, é capaz de prover a expiação a qual faz com que a salvação seja possível não para a segurança eterna do crente (compare também os vv. 3,17,21,25; 5.6; 6.20).

Mas o texto favorito daqueles que adotam a SE é 1 João 2.19, “Saíram de nós, mas não eram de nós; porque, se fossem de nós, ficariam conosco; mas isto é para que se manifestasse que não são todos de nós.” Adeptos usam essa passagem para afirmar que aqueles que pararam de seguir a Cristo nunca tinham experimentado a salvação. Existem várias coisas que devemos examinar neste versículo.

Primeiro, o texto não afirma explicitamente o que os proponentes de SE asseveram que afirme (que separação significa que a salvação deles não era real). João estava escrevendo depois de sua deserção e observando que o abandono era prova de que eles não pertenciam mais à comunidade dos remidos. João os estava comparando àqueles que tinham resistido aos falsos ensinamentos, continuado a adotar a verdade e persistido em permanecer em Cristo (v. 24).

Segundo, o contraste entre as respostas de ir embora e permanecer/ficar relembram os próprios ensinamentos de Jesus em João 15, onde Ele descreveu membros do corpo de Cristo que falham em permanecer, não continuam a produzir frutos, secam e são finalmente lançados fora.

Terceiro, ambos os AT/NT estão repletos de exemplos de pessoas e grupos que estavam, em algum ponto, claramente ao lado de Deus mas que depois repudiaram Seu senhorio (Gn 4.3-16 [comp. Jd v. 11]; Êx 32.32, 33; Nm 3.2-4; 4.15-20; 16.1-33; 22.8, 12,19,20,32-35; 24.1,2,13; 31.7,8; 1Sm 10.1-7,9-11; 13.8-15; 16.14,31; Jo 6.66 [comp. v. 67]; 1Co 5.1-13; 1Tm 1.19, 20; 2Tm 1.15; 2.17,18; 4.10; Tt 1.12- 16; Hb 12.15-17; 2Pe 2.1; Ap 2.6,15 [comp. At 6.5; HISTÓRIA ECLESIÁSTICA – Eusébio 3.29, 20]).


Argumentos que Advertem os Crentes sobre a Possibilidade da Apostasia

Devemos nos refamiliarizar com passagens que sustentem nossa doutrina.


Às vezes, os adeptos do Arminianismo não têm articulado claramente sua posição doutrinária. Temos usado a expressão perder sua salvação, como se esse ato pudesse ser acidental, não intencional e o resultado de um deslize momentâneo. Os detratores têm justamente atacado essa frase como uma reflexão imprecisa das Escrituras. Por isso, devemos nos refamiliarizar com passagens que sustentem nossa doutrina e então articularmos de uma maneira que reflita apropriadamente o ensinamento da Palavra de Deus.

Os ensinamentos arminianos-wesleyanos sobre santidade e Pentecostes sustentam que os crentes mantêm seu livre arbítrio mesmo após a salvação. As Escrituras ensinam que aqueles que confiam e obedecem a Jesus são ainda mais livres após a salvação do que antes (Jo 8.36; Gl 5.1,13), não menos. Nossa doutrina pode ser descrita pelas frases bíblicas “da graça tendes caído” (Gl 5.4), “apartar do Deus vivo” (Hb 3.12) e “recaíram.” (Hb 6.6).

Deus não invadirá ou violará o livre arbítrio que Ele propositalmente criou no homem.

J. Rodman Williams afirma: “Mas, por causa do fato de que a salvação de Deus opera através da fé – a fé viva – o abandono dessa fé pode levar à apostasia. Ao falhar em permanecer em Cristo, em continuar nEle e em Sua palavra, perseverar em meio a julgamentos mundanos e tentação, fazer com que a fé se firme e fortaleça – desse modo permitindo que a incredulidade entre – os crentes podem se afastar de Deus. Assim poderão tragicamente perder sua salvação."

A palavra apostasia é a transliteração da palavra grega apostasia do NT. Referências observam que essa palavra e sua forma verbal incluem essas nuanças: tomar uma posição, cometer deserção ou traição política, separar de, afastar-se de, induzir a revolta, retirar, desviar, desaparecer, cessar toda interação com, desertar, pôr de lado (como em divórcio). Nenhum desses itens sugere uma perda de pacto como resultado de uma brecha acidental ou temporária de padrões estabelecidos de santidade. Ao contrário, todos eles implicam a previsão, intenção e estado persistente de rebelião contra a autoridade de Jesus sobre a vida de alguém.

Livre Arbítrio

Deus criou o homem à Sua imagem e semelhança (Gn 1.26). Em parte, isto significa que da mesma forma que Deus pensa, planeja, raciocina e decide, o homem também o faz.


Embora a queda tenha parcialmente apagado a imagem de Deus estampada sobre a humanidade na criação, esses outros atributos certamente não o foram. Além disso, Deus não invadirá ou violará o livre arbítrio que Ele propositalmente criou no homem de aceitar ou não a Cristo.

No AT, Deus tratou com os israelitas quase que exclusivamente através de pactos condicionais. Deus continuou a adverti-los para que cumprissem suas obrigações no pacto ou o relacionamento com Ele poderia ser anulado (compare Êx 32.33; Lv 22.3; Nm 15.27-31; Dt 29.18-21; 1Re 9.6,7; 2Re 17.22, 23; 24.20; 1Cr 28.9; 2Cr 7.19-22; 15.2; 24.20; Sl 69.28; Is 1.2-4; 59.2; Jr 2.19; 5.3,6,7; 8.5,12; 15.1,6,7; 16.5; Ez 3.20; 18.12,13; 33.12). A graça estava disponível no AT (Êx 34.6, Nm 6.25; Jr 3.12), mas como no NT, a graça nunca foi uma desculpa para se continuar em pecado e nunca diminui as exigências de um pacto (compare Jo 1.16,17; Rm 6.1,2; 8.7-11; Lc 12.48; compare também Rm 1.31, “incrédulos” ou “pérfidos”).


Os Evangelhos

Jesus ordenou que os membros da comunidade da aliança que persistiam na falta de não se arrepender fossem colocados para fora da igreja e tratados como excluídos da aliança.


João, o Batista, audaciosamente proclamou, “E também já está posto o machado à raiz das árvores; toda árvore, pois, que não dá bom fruto é cortada e lançada ao fogo.” (Mt 3.10; Lc 3.9). De fato, Jesus começou Seu ministério reiterando esta mesma mensagem (Mt 7.19).

Jesus também ensinou que se não estivermos predispostos a perdoar, removemos a possibilidade de recebermos o perdão de Deus (Mt 6.15). No contexto histórico original de Jesus e no contexto canônico de Mateus, a nova comunidade em aliança – composta por crentes – Jesus disse que apenas aqueles que resistirem até o fim serão salvos (Mt 10.22; 24.13), e que se O negarmos diante dos homens, Ele nos negará diante do Seu Pai (Mt 10.33). Quando disse, “todo pecado e blasfêmia se perdoará aos homens, mas a blasfêmia contra o Espírito Santo não será perdoada aos homens.” (Mateus 12.31), Ele não fez distinção entre os salvos e os não salvos.

Na parábola do Semeador, a semente caía na terra e começava a produzir frutos, mas várias circunstâncias finalmente a destruíram (Mt 13.3-23). Em Mateus 18.15-17, Jesus ordenou que os membros da comunidade da aliança que persistiam em falta de não se arrepender fossem colocados para fora da igreja e tratados como excluídos da aliança. Jesus também advertiu que, nos últimos dias, falsos messias “enganarão muitos” (Mt 24.5) e, durante a perseguição, “muitos seriam escandalizados” (Mt 24.10). O versículo 24 recorda os ensinamentos de Jesus em que falsos messias e falsos profetas “desviariam, se possível, até os escolhidos.”

Defensores da SE acham que a frase “se possível” aponta para uma situação hipotética e mostra que não é possível que alguém perca a fé. Este argumento, porém, não considera o contexto maior (Mt 24.5,10) ou outros textos (1Ts 4.1,2) que claramente afirmam que alguns crentes nos últimos dias se desviariam da fé por diversas razões.

Lucas relatou que Jesus ensinava que “Ninguém que lança mão do arado e olha [continuamente] para trás é apto para o Reino de Deus” (Lc 9.62). O contexto esclarece o significado da metáfora. O mesmo pode ser dito acerca de Lucas 14.34,35, “Bom é o sal, mas se ele degenerar, com que se adubará? Nem presta para a terra, nem para o monturo; lança-os fora. Quem tem ouvidos, que ouça” (sobre os ensinamentos de Jesus, ver mais em Mt 7.16,17,21,24,26; 10.38; 18.23-35; Lc 9.23ss; 14.25-33).


Ensinamento Paulino

Paulo advertiu os coríntios que acreditar em uma versão errada das boas-novas poderia pôr em perigo sua salvação.


No campo missionário, após terem “feito muitos discípulos”, Paulo e Barnabé retornaram às igrejas que haviam levantado anteriormente, fortaleceram os discípulos e os encorajaram a continuarem na fé (At 14. 21,22). Poderia ter sido um desperdício de tempo e energia se apostasia não fosse uma opção. Mais tarde, Paulo advertiu os líderes da igreja em Éfeso que “...entrarão no meio de vós lobos cruéis, que não perdoarão o rebanho. E que, dentre de vós mesmos, se levantarão homens que falarão coisas perversas, para atraírem os discípulos após si.” (At 20.29,30.)

Nas cartas de Paulo, seu ensinamento não era diferente de suas pregações em Atos. Ele advertiu as igrejas em Roma, “Porque, se Deus não poupou os ramos naturais, [Israel], que te não poupe a ti também [cristãos em Roma]. Considera, pois, a bondade e a severidade de Deus: para com os que caíram, severidade; mas, para contigo, a benignidade de Deus, se permaneceres na sua benignidade; de outra maneira, também tu serás cortado.” (11.21,22). Ele também os desafiou, “Mas, se por causa da comida se contrista teu irmão, já não andas conforme o amor. Não destruas por causa da tua comida aquele por quem Cristo morreu.” (14.15; compare também 1Co 8.11, onde os mesmos termos aparecem).

Em 1 Coríntios 5. 1-13 (compare também 2Ts 3.6, 14). Paulo desafiou os coríntios a excomungarem as pessoas que vivessem em pecado (compare Mt 18.15-17). Ele repreendeu os libertinos na igreja de Corinto por deixarem com que sua liberdade causasse destruição do “irmão fraco, pelo qual Cristo morreu” (1Co 8.11). “Irmão” indica que todos envolvidos são membros de uma mesma comunidade de aliança. Acreditava que existia a possibilidade de que mesmo ele pudesse ser um náufrago na fé (1Co 9.27).

Paulo, mais adiante, advertiu os cristãos em Corinto de que este poderia ser o destino deles também e que poderiam acabar como os israelitas que morreram no deserto (1Co 10.1-13). “Aquele, pois, que cuida estar em pé, olhe que não caia.” (v. 12).

Paulo também advertiu os coríntios que acreditar em uma versão errada das boas-novas poderia pôr em perigo sua salvação: “Também vos notifico, irmãos, o evangelho que já vos tenho anunciado, o qual também recebestes e no qual também permaneceis; pelo qual também sois salvos, se o retiverdes tal como vo-lo tenho anunciado, se não é que crestes em vão.” (1Co 15.1,2).

Mais adiante, desafiou-os novamente, “Examinai-vos a vós mesmos se permaneceis na fé; provai-vos a vós mesmos. Ou não sabeis, quanto a vós mesmo, que Jesus Cristo está em vós? Se não é que já estais reprovados.” (2Co 13.5). Este desafio é similar àquele que fez à igreja dos colossenses: Jesus os apresentaria inculpáveis perante Deus, mas apenas se [eles] “permanecerdes fundados e firmes na fé.” (Cl 1.21-23).

Às igrejas de Gálatas Paulo exclamou: “Maravilho-me de que tão depressa passásseis daquele que vos chamou à graça de Cristo para outro evangelho.” (Gl 1.6). Em Gálatas 4.1-11, ele descreveu a progressão em que os cristãos gálatas passaram de escravos para filhos e então para escravos novamente. Na conclusão dessa seção, Paulo disse, “Eu temo por vocês, que talvez, eu tenha trabalhado com vocês em vão.”

Àqueles que haviam sido salvos pelo sangue de Jesus mas aceitado o Evangelho “plus” dos judaizantes que acrescentaram circuncisão ao Ordo Salutis (caminho da salvação), Paulo proclamou, “Separados estais [kataergo: rompido, esvaziado, anulado de, cancelado de, trazido ao fim, destruído, aniquilado] de Cristo, vós os que vos justificais pela lei; da graça tendes caído [ekpipto: cair de, confiscar, perder, causar o fim] .” (Gl 5.4).

À igreja dos filipenses, Paulo afirmou ter sofrido a perda de todas as coisas “para conhecê-lo, e a virtude da sua ressurreição, e a comunicação de suas aflições, sendo feito conforme a sua morte; para ver se, de alguma maneira, eu possa chegar à ressurreição dos mortos.” (Fp 3.10,11). Se a salvação de Paulo fosse decisiva e nada pudesse mudar seu status com Deus, ele não estaria ciente disso. Paulo levou a sério a ruína espiritual na vida de alguns de seus companheiros mais próximos porque, no mesmo contexto, ele falou à igreja de Filipos sobre as pessoas que haviam sido crentes muito conhecidas, mas que lamentava agora por “serem inimigos da cruz de Cristo.” (Fp 3.18).

Quando Paulo instruiu pastores, a mensagem foi a mesma: “Mas o Espírito expressamente diz que, nos últimos tempos, apostatarão alguns da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores e a doutrinas de demônios.” (1Tm 4.1; compare 2Tm 4.3,4).


As Epístolas Gerais e o Apocalipse

O Livro de Hebreus contém algumas das advertências mais claras contra a apostasia e também exortações urgentes para se permanecer firme até o fim.


A advertência do NT também é clara sobre o fato de o crente poder voluntariamente perder sua salvação. O Livro de Hebreus contém algumas das advertências mais claras contra a apostasia e também exortações urgentes para se permanecer firme até o fim – todas direcionadas a cristãos.

Por causa da revelação maior que veio com a encarnação de Cristo, o autor de Hebreus disse aos cristãos, “Portanto, convém-nos atentar, com mais diligência, para as coisas que já temos ouvido, para que, em tempo algum, nos desviemos delas” (2.1). Neste texto, o escritor incluiu a si próprio em uma advertência contra se deixar o caminho da salvação. No mesmo contexto, levantou uma questão retórica, “Como escaparemos nós [julgamento, compare v. 2), se descuidarmos de uma tão grande salvação?” (v. 3). Novamente, o autor se incluiu em seu público cristão.

Devemos notar que o verbo é descuidar, não rejeitar. Seus leitores eram cristãos descuidados, e não descrentes rejeitadores. Em 3.6, ele lançou o mesmo desafio feito por Jesus e Paulo: E nós somos Sua “própria casa... se tão somente conservarmos firme a confiança e a glória da esperança até o fim.” Ele reiterou além disso, “Porque nos tornamos participantes de Cristo, se retivermos firmemente o princípio da nossa confiança até o fim.” (v. 14). Advertiu aos crentes, “Vede, irmãos, que nunca haja em qualquer de vós um coração mau e infiel, para se apartar [apostaenai, apostasia] do Deus vivo.” (3.12, ênfase adicionada).

Os crentes precisam “temer, pois, que, porventura, deixada a promessa de entrar no seu repouso, pareça que algum de vós fique para trás” (4.1), porque até crentes podem “cair no mesmo exemplo de desobediência [que os da aliança de Israel demonstravam] (4.11).

Em 6.4-6, o autor declara: “Porque é impossível que os que uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se fizeram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus e as virtudes do século futuro e recaíram sejam outra vez renovados para arrependimento; pois assim, quanto a eles, de novo crucificam o Filho de Deus e o expõe ao vitupério.”

Reminiscente de Números 15.30,31, Hebreus afirma: “Porque, se pecarmos voluntariamente, depois de termos recebido o conhecimento da verdade, já não resta mais sacrifício pelos pecados, mas uma certa expectação horrível de juízo” (10.26,27, ênfase adicionada). E continua, “Quebrantando alguém a lei de Moisés, morre sem misericórdia, só pela palavra de duas ou três testemunhas. De quanto maior castigo cuidais vós será julgado merecedor aquele que pisar o Filho de Deus, e tiver por profano o sangue do testamento, com que foi santificado, e fizer agravo ao Espírito da graça?” (10.28,29, ênfase adicionada). A parte em negrito desses versículos fornece uma evidência incontestável de que o público é cristão. Esses crentes são advertidos a não “rejeitarem” (em oposição a “perder acidentalmente”) sua salvação (10.35).

O escritor de Hebreus deixou ao seu público cristão esta exortação: “Tendo cuidado de que ninguém se prive da graça de Deus, e de que nenhuma raiz de amargura [compare com Dt 29.18-21], brotando, vos perturbe, e por ela muitos se contaminem. E ninguém seja fornicador ou profano, como Esaú, que, por um manjar, vendeu seu direito de primogenitura. Porque bem sabeis que, querendo ele ainda depois herdar a bênção, foi rejeitado, porque não achou lugar de arrependimento, ainda que, com lágrima, o buscou.” (Hb 12.15-17).

Tiago nos diz: “se algum de entre vós se tem desviado da verdade, e alguém o converter, saiba que aquele que fizer converter do erro do seu caminho um pecador salvará da morte uma alma.” (Tg 5.19,20).

Pedro escreve: “E também houve entre o povo falsos profetas, como entre vós haverá também falsos doutores, que introduzirão encobertamente heresias de perdição e negarão o Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina perdição.” (2Pe 2.1). No mesmo contexto, continua: “Portanto se, depois de terem escapado das corrupções do mundo pelo conhecimento do Senhor e Salvador Jesus Cristo, forem outra vez envolvidos nelas e vencidos, tornou-se lhes o último estado pior que o primeiro. Porque melhor lhes fora não conhecerem o caminho da justiça do que, conhecendo-o, desviarem-se do santo mandamento que lhes fora dado. O cão voltou ao seu próprio vômito; a porca lavada, ao espojadouro de lama.” (2Pe 2.20-22, ênfase acrescentada para demonstrar o fato de que o autor está descrevendo pessoas que haviam sido contadas entre os redimidos).

João descreveu um pecado que é “para a morte” e não pode ser perdoado (1Jo 5.16).

O contexto na primeira metade do versículo, assim como o uso da mesma terminologia em outros lugares nessa carta (1Jo 3.13,14) deixa claro o fato de que se trata de morte espiritual e não física. Essa mensagem não é diferente da de Apocalipse. Lá, ele prometeu vida eterna apenas àqueles que vencerem e perseverarem fiéis até o fim (Ap 2.10,25, 26). Por outro lado, ele garantiu rejeição e perda da vida para aqueles que não o fizerem (Ap 2.5; 3.11,16). Até o final do livro (e, portanto, o NT), ele continuou a alertar sobre a possibilidade de se perder a salvação (Ap 22.19).


Conclusão

A única segurança do crente está atrelada à firme obediência à vontade do Mestre.


É evidente que a Bíblia alerta contra a possibilidade de perda do status com Deus. As Escrituras são claras no que diz respeito a que a única segurança do crente está atrelada à firme obediência à vontade do Mestre.

Essa realidade se encaixa perfeitamente na definição bíblica de salvação, que não é um evento único que sela um crente por toda a eternidade, mas um processo que tem estágio passado (Rm 10.9,10; 2Co 5.17), presente (Lc 9.23; 1Co 1.18; 2Co 2.15; 3.18; Fp 2.12; 3.8-16) e futuro (Rm 8.19-24; 1Co 15.24-28; 1Pe 1.3-7; Ap 12.10; 20.1-10; 21.1 – 22.14).

Os crentes detêm a opção de escolher uma vida de obediência e submissão à vontade de Deus ou de se desviar do relacionamento com Deus e sofrer a separação eterna de Deus como resultado.

Ao ensinar esta verdade às pessoas, você pode encorajá-las a uma vida divina e a responderem aqueles que creem na segurança eterna.


W.E. NUNNALLY, Ph.D.
Professor de Judaísmo Primitivo e Origens Cristãs na
Universidade Evangel
Springfield, Missouri (EUA)


Fonte: Recursos Espirituais

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Caçada a ladrões revela antiga igreja da Terra Santa


Vista da excavação. Foto: Israel Antiquities Authority

A perseguição a uma quadrilha de ladrões de túmulos levou à descoberta de uma antiga igreja nas proximidades de Jerusalém que talvez seja o local onde foi enterrado o profeta bíblico Zacarias, anunciaram as autoridades israelenses nesta quarta-feira.

A igreja, que fica no topo de uma colina, foi destruída por um terremoto há cerca de 1,3 mil anos e estava parcialmente enterrada até os detetives da Autoridade para Antiguidades de Israel - que perseguiam uma quadrilha de ladrões de objetos antigos - perceberem um umbral bastante trabalhado despontando da terra.

Os ladrões fugiram - eles foram pegos alguns meses mais tarde perto dali-, mas, depois de semanas de escavação, os arqueólogos desenterraram o que sobrou da igreja. Do tamanho de uma quadra de basquete, ela ainda continha os pilares de mármore que desabaram e um piso de mosaico de 10 m de comprimento praticamente intacto.

Debaixo do altar da igreja, há uma câmara de sepultamento que, segundo a Autoridade para Antiguidades, pode ter sido a tumba do profeta Zacarias, conhecido do livro de mesmo nome na Bíblia, escrito por volta de 520 a.C. A hipótese, baseada em fontes cristãs e num antigo diagrama conhecido como o Mapa de Madaba, ainda não foi provada e ainda está em estudo, afirmaram eles.

"Há anos não encontrávamos algo assim," disse Amir Ganor, diretor da unidade de Prevenção a Roubos de Antiguidades. Ganor é arqueólogo e porta uma arma. A equipe dele passa boa parte do tempo tentando pegar ladrões, passando as noites em uma emboscada ou preparando armadilhas para traficantes de antiguidades.

Os ladrões com frequência violam ou destroem os restos arqueológicos antes de serem pegos pela unidade de Ganor. Nesse caso, porém, ele disse que o grupo de palestinos da Cisjordânia que buscava moedas antigas revelou a localização da igreja perdida, cerca de 40 km ao sul de Jerusalém.

Shai Bartura, adjunto de Ganor, disse que a construção, utilizada entre os séculos V e VII d.C., foi uma descoberta singular por causa do tamanho da igreja e de seu bom estado. Assim como muitas estruturas da antiguidade, ela foi construída a partir de fundações ainda mais antigas datando do Império Romano e do período do segundo Templo Judaico. Ela inclui um complexo subterrâneo de cavernas e túneis usados pelos rebeldes judeus que lutaram contra os romanos na revolta de Bar Kokhba, de 132 d.C.


Fonte: Terra Notícias

Arqueologia: Órion, o Caçador - Mito grego nascido em Montanha da Síria

Por Sabbagh H.




Síria (Damasco) - Durante os anos sessenta uma estátua de um touro, dedicado ao deus grego Órion, foi descoberta no monte Younan perto da vila Bloudan, região próximo a Damasco.

As inscrições em grego declararam que a estátua era uma oferenda a Órion, feita por um antigo guerreiro chamado Tamanaius.

Órion é uma figura mítica, cuja origem está relacionada a várias histórias. Uma história conta que os deuses Zeus, Hermes e Poseidon vieram visitar um homem chamado Hyrieus que assou um boi inteiro para eles, e quando oferecerem-lhe um favor, este homem pediu que lhe nascessem filhos, e assim nasceu Órion.

Outras histórias contam que ele era filho do deus dos mares Poseidon, e que tinha uma incrível força, beleza e era excelente na caça de animais selvagens, daí o seu título de "Caçador".

Em uma história, Órion se apaixonou pela filha de um rei e seduziu-a, levando o rei à cegá-lo. Órion viajou ao distante oriente para que os raios do sol pudessem restaurar a sua visão. Mais tarde, ele acompanhou a deusa da caça Ártemis.

Achados arqueológicos em um templo romano encontrado em 2009 indicam que a lenda pode ter se originado em algum lugar ao redor das montanhas de Bloudan, particularmente o monte Younan, e mais tarde o mito teria alcançado a Grécia, sendo então, incorporado na mitologia grega.

O monte Younan está localizado a 6 km a nordeste de Bloudan e tem 2100 metros de altura. Três estruturas antigas em mau estado foram descobertas no cume ocidental do monte, perto das encostas norte e oeste.

Escavações a oeste das estruturas revelaram um pedestal que se acredita ter sido um altar sacrificial ou uma baliza usada para guardar o local. Acredita-se que estes remanescentes sejam parte de um templo que remonta à época romana.

Até agora, o trabalho na estrutura central focalizou-se em áreas que o rodeiam, pois os escombros da própria estrutura torna impossível a escavação até que se tenha feito uma aproximação gradual por todos os lados.

A estrutura oriental remonta à época bizantina, e provavelmente foi um mosteiro construído a partir de pedras retiradas das outras duas estruturas. Esta estrutura continha os achados mais importantes do sítio, incluindo moedas de bronze que remontam os séculos 4 e 5 d.C., pontas de flechas de ferro e bronze, lanças, além de pregos e outros artefatos de metal.

Parte do monte foi dada recentemente ao Patriarcado Ortodoxo Grego, que pretende reabilitar o sítio do monastério através da construção de uma nova igreja no local e uma série de instalações de serviços próximos do sítio arqueológico, tudo será construído para atender a natureza do local e permitir que as pessoas tenham acesso fácil ao local.
(SANA)


Fonte: Global Arab Network