segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Análise do artigo – Ordenação Feminina: O Que o Novo Testamento Tem a Dizer? Augustus Nicodemus Lopes



Análise do artigo – Ordenação Feminina: O Que o Novo Testamento Tem a Dizer? Augustus Nicodemus Lopes
Por Luís Henrique S. Silva
Primeiramente, gostaria de esclarecer a minha posição teológica à respeito do assunto sobre a ordenação feminina. Creio que o Novo Testamento não impede a ordenação feminina ao ministério e, embora, seja eu pouco graduado academicamente para criticar a posição do Rev. Nicodemus assim o farei.
O artigo escrito pelo Rev. Nicodemus em certo sentido é reducionista, pois aborda a questão da ordenação feminina apenas em relação às igrejas evangélicas. Visto que na história da igreja as tradições protestantes mais antigas não passarem de 500 anos de idade torna-se uma imprudência teológica uma não leitura da exegese ortodoxa, ou oriental, sobre o assunto. Será que as tradições mais antigas do cristianismo impedem a ordenação feminina? Como estas tradições leem o Novo Testamento? A ordenação feminina seria uma infiltração do feminismo no cristianismo? Talvez o desconhecimento ocidental da teologia oriental, bem como do judaísmo do Segundo Templo, ajude a criar pseudo-ortodoxias neotestamentárias disfarçadas de sola scriptura.
Romanos 16.7
Não quero de ignorar os problemas textuais do nome Júnias, mas parece que neste ponto a interpretação sobre o gênero do nome é mais de ordem teológica do que gramática-histórica.  Como aponta Metzger[1], as mais de 250 vezes que o nome latino Júnias ocorre em inscrições gregas e latinas em Roma, elas pertencem ao gênero feminino. De fato, isto deve ter fortemente influenciado a acentuação dos manuscritos do Novo Testamento que acentuaram o nome como feminino. O Rev. Nicodemus parece desconhecer este problema arqueológico!
Nesta iconografia ortodoxa pode-se ver representados da esquerda para a direita: Santo Andrônico, Santo Atanásio e Santa Júnias.
O mais intrigante é que a igreja cristã concebeu Júnias como mulher sem nenhum questionamento por mais de um milênio. O primeiro a questionar o gênero do nome Júnias foi o exegeta medieval Aegidius Romanus (1247-1316)[2]. Novamente o Rev. Nicodemus ignora que historicamente Júnias foi considerada uma mulher pela igreja ocidental e oriental durante mais de mil anos, se há alguma novidade é interpretar este nome como masculino. Não há como entender o Novo Testamento quando também não ouvimos o que a igreja que preservou o seu texto tem a dizer sobre ele. Isto não significa que devemos dar mais autoridade a tradição do que a Escritura, mas simplesmente que não devemos ignorar o testemunho histórico da igreja. Não há dúvidas quanto ao fato de Júnias ser mulher e esposa de Andrônico, no desespero de querer fazer o texto sagrado ambíguo a honestidade acadêmica não foi respeitada. Na tradição ortodoxa o casal apostólico foi martirizado e as suas relíquias foram levadas até Constantinopla no sec. V.[3]
Sobre a apostolicidade de Júnias, primeiramente, devemos entender o que significa apóstolo. Se apóstolo significar somente o grupo dos 12 discípulos de Jesus Cristo, então haverá problemas em interpretar algumas passagens como:
“Ouvindo, porém, isto os apóstolos Barnabé e Paulo, rasgaram as suas vestes e saltaram para o meio da multidão, clamando” At 14:14
Paulo, e Silvano, e Timóteo, à igreja dos tessalonicenses, em Deus, o Pai, e no Senhor Jesus Cristo: graça e paz tenhais de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo. [...] E não buscamos glória dos homens, nem de vós, nem de outros, ainda que podíamos, como apóstolos de Cristo, ser-vos pesados;” 1Ts 1:1 e 2:6 
“E eu, irmãos, apliquei essas coisas, por semelhança, a mim e a Apolo, por amor de vós, para que, em nós, aprendais a não ir além do que está escrito, não vos ensoberbecendo a favor de um contra outro. [...] Porque tenho para mim que Deus a nós, apóstolos, nos pôs por últimos, como condenados à morte; pois somos feitos espetáculo ao mundo, aos anjos e aos homens.” 1Co 4:6,9
“e apareceu a Pedro e depois aos doze apóstolos. Depois apareceu, de uma só vez, a mais de quinhentos seguidores, dos quais a maior parte ainda vive, mas alguns já morreram. Em seguida apareceu a Tiago e, mais tarde, a todos os apóstolos.” 1Co 15:5-7 NTLH
Portanto, o uso da palavra apóstolo no Novo Testamento não se limita ao grupo dos 12 discípulos de Jesus. Historicamente a palavra tem sido entendida como um sinônimo de missionário, ou seja, pessoas portadoras da mensagem neotestamentária. O documento chamado Didache, provavelmente escrito após a morte dos apóstolos – talvez João pudesse estar vivo, orienta os cristãos a distinguirem entre um verdadeiro e um falso apóstolo (Cap. XI). As igrejas católica, ortodoxa e protestante também usam o termo apóstolo para designar missionários notórios, tais como: Cirilo e Metódio – apóstolos dos eslavos, Francisco Xavier – apóstolo da Índia, Anastácio – apóstolo da Hungria, Hudson Taylor – apóstolo da China, Bonifácio – apóstolo dos germanos, Irineu – apóstolo da Gália, José de Anchieta – apóstolo do Brasil, etc. Considerando que apóstolo é citado como sendo dom e o seu uso no Novo Testamento não se restringe aos 12, é impossível de negar que o casal Júnias e Andrônico eram missionários (apóstolos) antes de Paulo.
Daniel Wallace questiona a tradução de ἐπίσημοι ἐν τοῖς ἀποστόλοις, geralmente traduzida como: “...notáveis entre os apóstolos...”. A sua sugestão seria traduzir por: “bem conhecidos dos apóstolos”.[4] Evidentemente, isto tornaria a questão do gênero do nome irrelevante bem como toda a questão da ordenação[5]. Pesquisando no software BibleWorks 8, as partículas juntas ἐν τοῖς ocorrem 859 vezes no Antigo (LXX) e Novo Testamento (NA27). Numa rápida revisão com a tradução de Almeida pude perceber que estas partículas nunca foram traduzidas por dos nas 11 ocorrências delas na Carta aos Romanos. Por que a ocorrência de 16.7 seria uma exceção à regra?
Para não me alongar mais no assunto gostaria de colocar em cheque se a ordenação feminina é realmente uma infiltração do feminismo no cristianismo. Chamo a atenção para a tradição ortodoxa que na sua compreensão de ordem estabelece três ordens maiores, diácono, padre e bispo e duas menores, leitor e subdiácono; sendo que:
Diferente do ocorreu no ocidente onde as diaconisas parecem ter sido apenas leigas (ou se quer dizer que tenha sido apenas isso) no oriente as mulheres diaconisas realmente recebiam a primeira ordem maior exatamente da mesma maneira que os homens. A Igreja Ortodoxa nunca aboliu a ordenação de diaconisas, porém lá pelo século sexto ou sétimo isso caiu em profundo desuso e sumiu completamente lá pelo século nono.[6] (grifo meu)
Refletindo sobre esta declaração fica claro que para uma tradição tão antiga como a ortodoxa a mulher tem, ou já teve, um lugar na igreja além de sentar e ouvir o sermão. Para uma parcela significativa do cristianismo histórico a questão sobre a ordenação feminina não é um tabu ou mero feminismo, mas sim uma tradição apostólica que infelizmente “caiu em desuso”. Como se demonstrou existe um precedente histórico em favor do ministério feminino anterior às ideias feministas ocidentais. O protestantismo por não consultar tradições mais antigas acaba por mutilar a Bíblia com o falso pretexto da sola scriptura. Para um cristão ortodoxo a irmã Febe (Rm 16.1) foi uma diaconisa perfeitamente ordenada. Entretanto, as traduções protestantes preferem traduzir διάκονον por serva ao invés de diaconisa.
Uma distinção reducionista
O Rev. Nicodemus polariza a questão da ordenação feminina entre uma linha igualitarista e outra diferencialista. Incrivelmente em sua exposição da linha diferencialista ele deixa em branco a justificação das proposições dela, ou seja, sem a correta justificação pode-se considerar mera especulação teológica esta linha. Vejamos alguns problemas:
1) Antes da queda Deus estabeleceu papéis distintos: é inegável que há papéis distintos entre homens e mulheres, especialmente na área anatômica. Todavia, se constitui mera especulação teológica creditar certa distinção sócio-cultural antes da queda porque simplesmente não há texto bíblico que confirme isto. O que a linha diferencialista quer fazer é uma leitura calvinista supralapsariana da função da mulher a fim de justificar a sua teologia. Contudo, o que vemos escrito na Bíblia é que Deus criou homem e mulher à sua imagem e semelhança (Gn 1.27). Portanto, afirmar uma hierarquia ontológica do ser humano – antes da queda – seria também afirmar uma visão subordinacionista do Deus que o criou à sua imagem e semelhança. O que realmente podemos afirmar é que Deus criou outro ser humano igual (Gn 2.18,20) a Adão, isto é, nada inferior e também não um simples complemento a ele, antes um socorro (עֵזֶר) adequado a sua necessidade. Assim sendo, devemos creditar a distinção sócio-cultural de liderança masculina ao decreto de Deus posterior a queda conforme Gn 3.16b “...o teu desejo será para o teu marido, e ele te governará.” Antes da queda não há citação alguma da liderança masculina sobre a mulher porque este decreto só ocorreu após a queda. Também a maldição imposta a mulher não diz nada sobre a impossibilidade de exercer algum ofício religioso. A natureza da maldição está intimamente ligada à relação conjugal da mulher com o homem.  Adiante será abordado o texto de 1 Tm 2.9-15.
2) Israel e as mulheres: não seria justo elucidar a visão do Novo Testamento em relação às mulheres e não estudar o seu papel no Antigo Testamento. Caso a linha diferencialista fosse verdade então a ordenação feminina não deveria ocorrer no Antigo Testamento, pois o Deus é o mesmo do Novo. Contudo, o Antigo Testamento está repleto de exemplos onde mulheres ocuparam lugar de destaque na religião veterotestamentária. Culturalmente falando, sacerdotisas não eram uma novidade no Antigo Oriente Próximo. Tomemos alguns versículos a fim ilustrar o ministério feminino já no Antigo Testamento:
“Então, Miriã, a profetisa, a irmã de Arão, tomou o tamboril na sua mão, e todas as mulheres saíram atrás dela com tamboris e com danças.” Ex 15:20
“Débora, profetisa, mulher de Lapidote, julgava a Israel naquele tempo.” Jz 4:4
“Então, Hilquias e os enviados pelo rei foram ter com a profetisa Hulda, mulher de Salum, o guarda-roupa, filho de Tocate, filho de Harás, e lhe falaram a esse respeito. Ela habitava na Cidade Baixa, em Jerusalém.” 2 Cr 34:22
 “Fui ter com a profetisa; ela concebeu e deu à luz um filho. Então, me disse o SENHOR: Põe-lhe o nome de Rápido-Despojo-Presa-Segura.” Isaias 8:3
“Havia uma profetisa, chamada Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser, avançada em dias, que vivera com seu marido sete anos desde que se casara e que era viúva de oitenta e quatro anos. Esta não deixava o templo, mas adorava noite e dia em jejuns e orações.” Lc 2:36-37
Podemos concluir que as mulheres desde o início da nação israelita ocuparam lugares de destaque na religião e na sociedade. A profecia de Joel 2.28-38 declara que a recepção do Espírito Santo seria acompanhada por profecias, sendo que estas seriam pronunciadas por homens e mulheres. A profecia sempre foi vista como um ofício sagrado em Israel, não como algo esporádico ou passageiro (Pv 29.18), e nos textos citados acima as mulheres claramente exerceram este ministério. A pergunta que fica é por que o Rev. Nicodemus não quis discutir este precedente histórico veterotestamentário em relação ao Novo Testamento. Pode-se encontrar algumas referências de mulheres no Novo Testamento que exerciam o ofício de profeta (At 21.9; 1Co 11.5). A profecia é tanto um dom quanto um ministério eclesiástico (Ef 4.11) estabelecido por Deus e que tem prioridade sobre outros ministérios como o de pastores e mestres (1Co 12.28).
As mulheres, a Igreja e restrições?
Não concordo com a interpretação feita sobre as possíveis restrições ao ministério feminino. Os exegetas que afirmam esta interpretação caem no abismo de afirmarem também uma verdadeira discrepância textual. Veja o quadro abaixo:
Não pode ensinar
Pode ensinar
“A mulher aprenda em silêncio, com toda a submissão. E não permito que a mulher ensine, nem exerça autoridade de homem; esteja, porém, em silêncio.” 1Tm 2:11-12
“Ele, pois, começou a falar ousadamente na sinagoga. Ouvindo-o, porém, Priscila e Áqüila, tomaram-no consigo e, com mais exatidão, lhe expuseram o caminho de Deus.” Ats 18:26
Não pode falar
Pode orar e profetizar
“conservem-se as mulheres caladas nas igrejas, porque não lhes é permitido falar; mas estejam submissas como também a lei o determina. Se, porém, querem aprender alguma coisa, interroguem, em casa, a seu próprio marido; porque para a mulher é vergonhoso falar na igreja.” 1Co 14:34-35
“Toda mulher, porém, que ora ou profetiza com a cabeça sem véu desonra a sua própria cabeça, porque é como se a tivesse rapada.” 1Co 11:5
“Tinha este quatro filhas donzelas, que profetizavam.” At 21:9

Em que sentido as restrições contextuais de Paulo podem ou não serem empregadas universalmente? (não vou discutir aqui as questões gramaticais de imperativos e presentes). Caso a interpretação do Rev. Nicodemus estiver certa então o Novo Testamento está errado. Como Paulo pode proibir as mulheres de falarem na igreja e ao mesmo tempo afirmar que elas podem orar e profetizar? É óbvio que Paulo está tratando de assuntos bem diferentes. O erro de Nicodemus é colocar a maldição imposta a mulher em Gn 3.16 na esfera da religião. O texto de Gênesis não é usado por Paulo para afirmar que a mulher não deve ser pastora ou presbítera por causa de uma punição dada à ela antes mesmo dela existir. O argumento de Paulo em 1Co 14.34-35 não é uma refutação aos irmãos que estavam consagrando pastoras! Antes ele é um ensinamento de ordem no culto que termina com uma orientação para os irmãos procurarem profetizar com zelo (1Co 14.39). Quem seriam estes irmãos? Seriam só os homens? Fica claro que as mulheres também devem procurar profetizar com zelo.
Devemos entender o texto de Paulo em 1Co 11.8-9 e 1Tm 2:11-12 à partir daquilo que o próprio texto de Gênesis nos diz ao invés de especulações sobre algo que Deus nunca disse. Gênesis afirma que a mulher provém do homem e que ela é um ser igual a ele. Adão tem o privilégio de ser criado primeiro e de, portanto, liderar a primeira família humana conforme o plano de Deus. Entretanto, o pecado atrapalha as coisas e Deus derrama uma maldição sobre ambos, a maldição da mulher é ser governada pelo seu marido (יִמְשָׁל־בָּֽךְ). A questão que Paulo está abordando não se refere a ministério feminino porque o texto de Gênesis não fala sobre este assunto. Tudo indica que certos problemas conjugais estavam bagunçando o culto a Deus, Paulo intervém e manda as mulheres obedecerem os seus maridos para ordem ser restaurada. As mulheres devem acatar este mandamento porque elas estão sujeitas aos seus maridos pela lei enquanto viverem (Rm 7.2).
Conclusão
Como brevemente demonstrado o artigo do Rev. Nicodemus esbarra num dos maiores problemas exegéticos de todos os tempos. O pressuposto. Infelizmente nenhum ser humano consegue ler algum tipo de texto sem pressupostos, alguns textos inclusive necessitam de pressupostos corretos para serem devidamente entendidos. O pressuposto dogmaticamente estabelecido de que mulheres em condição alguma podem ser ordenadas pastoras, levou o Rev. Nicodemus a desconsiderar todo o legado israelita feminino profético. O mesmo pressuposto impediu o Rev. Nicodemus de apresentar imparcialmente dados históricos significativos sobre esta questão. Além do mais, não citar um dos maiores estudiosos do Novo Testamento grego sobre a crítica textual do nome Júnias, por si só, é uma amostra ou do desconhecimento do Rev. Nicodemus sobre o assunto ou da manipulação consciente de informações.
A minha opinião é que devemos ficar com aquilo que a Sagrada Escritura claramente ensina, por mais difícil que isto seja de se admitir. Em momento algum temos um relato de ordenação feminina, mas temos casos concretos de ofícios duradouros de mulheres que exerciam o ministério profético tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. Como poderiam exercer tal ministério e não serem ordenadas para este fim? As proibições que encontramos no Novo Testamento sobre o falar e ensinar das mulheres ocorrem em situações específicas e não sugerem uma prática universal da igreja apostólica. Pelo contrário, o testemunho primitivo celebra santas mulheres que foram pregadoras da Palavra de Deus. A função da mulher no judaísmo do Segundo Templo é muito distinta da função do judaísmo rabínico. Tal tensão gerou inclusive colapsos dentro do judaísmo posterior e o cisma entre os judeus, uma das correntes oriundas deste cisma foi o caraísmo que tem uma visão igualitária entre homem e mulher.[7]
A história da ordenação feminina está longe de acabar, esta briga é típica de uma sociedade patriarcal de origem romana. Mais do que uma questão meramente cultural a ordenação feminina ainda tem que enfrentar concepções pseudo-ortodoxas do ministério pastoral. Os mestres ocidentais são muitas vezes néscios quanto as tradições cristãs mais antigas, e com certeza ficariam escandalizados com a naturalidade com que as mulheres na igreja apostólica profetizavam sobre homens e mulheres. O meu desejo é que o Evangelho não encontre impedimentos enraizados em tradições humanas desprovidas de qualquer base na tradição cristã antiga e ainda mais importante sem qualquer fundamento bíblico.


Referências
Fitzmyer, Joseph A. Romans: A New Translation with Introduction and Commentary. The Anchor Bible vol. 33. New York: Doubleday, 1993.
Metzger, Bruce M. Un Comentario Textual Al Nuevo Testamento Griego. New York: Sociedade Bíblica Americana, 2006.
Onomason, Roger L. Variantes Textuais do Novo Testamento. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 2010.
           


quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

A Teologia Arminiana é Sinergista?


A Teologia Arminiana é Sinergista?


Por kangaroodort

Para algumas pessoas o debate entre arminianismo e calvinismo se resume em saber se a salvação é monergista ou sinergista. Acredito que o termo “sinergismo” nem sempre é corretamente aplicado a posição arminiana. A palavra vem do grego synergos, que basicamente significa “trabalhar junto”. Enquanto monergismo (trabalhar sozinho) pode ser um rótulo aceitável ao que os calvinistas acreditam (Deus faz toda a obra da salvação), sinergismo nem sempre faz jus ao que arminianos historicamente acreditam.

A palavra em si, quando tomada num estrito sentido gramatical, não é a melhor descrição do que arminianos acreditam em relação a salvação. Arminianos não acreditam que tanto Deus quanto o homem “trabalham” juntos na salvação. Acreditamos que somos salvos “de fé em fé até o fim” (Rm 1.17). Visto que a fé é antitética as obras (Rm 3.20-28; 4.2-5; 9.32; 10.5,6; Gl 2.16; 3.2,5; Ef 2.8,9; Fp 3.9) torna-se um equívoco rotular a soteriologia arminiana como sinergista no sentido estrito da palavra.

A teologia arminiana, quando corretamente entendida, ensina que a salvação é monergista. Deus somente opera a salvação. Deus somente regenera a alma que está morta no pecado. Deus somente perdoa e justifica com base nos méritos do sangue de Cristo. Deus somente nos torna santos e justos. Em todas estas formas a salvação é inteiramente monergista. A diferença entre calvinismo e arminianismo é que se a obra salvífica de Deus é condicional ou incondicional. Arminianos acreditam que Deus não nos salvará até atendermos a condição da fé. A fé somente pode ser entendida como sinergista no sentido que Deus graciosamente nos capacita a crer, porém somos os únicos que decidimos se vamos ou não crer.

F. Leroy Forlines colocou bem isto quando disse:

“Creio que a fé salvífica é um dom de Deus no sentido que o Espírito Santo dá a capacitação divina sem a qual a fé seria impossível (Jo 6.44). A diferença entre o conceito calvinista de fé e o meu conceito não é que a deles é monergista e a minha sinergista. Em ambos os casos ela é sinergista. A participação ativa na fé pelo crente significa que ela é sinergista. A responsabilidade humana não pode ser descartada da fé. A justificação e a regeneração são monergistas. Cada uma é um ato de Deus, não do homem. A fé é um ato humano através da capacitação divina e, por isso, não pode ser monergista. (The Quest For Truth, pg 160, ênfases dele)

Se a fé fosse monergista, então, não seria a pessoa que creria, mas Deus creria para a pessoa. A fé é a genuína resposta ao chamado de Deus e o meio pelo qual acessamos a sua graça salvífica (Rm 5.1-2). Continua a ser a graça que salva, mas essa graça deve ser recebida pela fé, e a natureza desta fé é tal que ela jamais poderá ser chamada de uma “obra”.

Isto quer dizer que o homem é quem determina a salvação e não Deus? Com certeza não. Deus determinou que aqueles que crerem em seu Filho deveriam ser salvos, e esta determinação é absoluta e imutável (Jo 3.16-17,36). Simplesmente determinamos se ou não atenderemos a ordenação divina da fé. Calvinistas tendem a contestar que a fé, quando entendida no contexto da teologia arminiana, é realmente uma “obra”.





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quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Importantes pais da Igreja falam sobre o livre-arbítrio



Com exceção dos escritos dos últimos anos de Agostinho, que após sua experiência na controvérsia donatista (v. ap. 3) concluiu que as pessoas podiam ser forçadas a crer, quase todos os grandes pensadores até a Reforma afirmaram que o ser humano tem o direito de escolher o contrário, mesmo no estado caído.[1] Ninguém cria que um ato coagido é um ato livre. Em resumo, todos teriam rejeitado o pensamento do calvinismo extremado de que Deus age irresistivelmente sobre quem não quer (v. cap. 5)

JUSTINO MÁRTIR (100-165 D.C.)

Deus, no desejo de que homens e anjos seguissem sua vontade, resolveu criá-los livres para praticar a retidão. Se a Palavra de Deus prediz que alguns anjos e homens certamente serão punidos, isso é porque ela sabia de antemão que eles seriam imutavelmente ímpios, mas não porque Deus os criou assim. De forma que quem quiser, arrependendo-se, pode obter misericórdia (Dialogue, CXLI).

IRENEU (130-200 D .C.)[2]

A expressão: “Quantas vezes eu quis reunir os seus filhos [...] mas vocês não quiseram” ilustra bem a antiga lei da liberdade do homem, porque Deus o fez livre desde o início, com vontade e alma para consentir nos desejos de Deus sem ser coagido por ele. Deus não faz violência, e o bom conselho o assiste sempre, por isso dá o bom conselho a todos, mas também dá ao homem o poder de escolha, como o tinha dado aos anjos, que são seres racionais, para que os que obedecem recebam justamente o bem, dado por Deus e guardado para eles. [...]

Se não dependesse de nós o fazer e o não fazer, por qual motivo o Apóstolo, e bem antes dele o Senhor, nos aconselhariam a fazer coisas e a nos abster de outras? Sendo, porém, o homem livre na sua vontade, desde o princípio, e livre é Deus, à semelhança do qual foi feito, foi-lhe dado, desde sempre, o conselho de se ater ao bem, o que se realiza pela obediência a Deus (Contra as heresias, IV, 37.1,4)

ATENÁGORAS DE ATENAS (SÉC. II)

Justamente como homens que possuem liberdade de escolha assim como virtude e defeito (porque você não honraria tanto o bom quanto puniria o mau, a menos que o defeito e a virtude estivessem em seu próprio poder, e alguns são diligentes nos assuntos confiados a eles, e outros são infiéis), assim são os anjos (Embassy for Christians, XXIV).

TEÓFILO DE ANTIOQUIA (SÉC. II)

Deus fez o homem livre, e esse poder sobre si próprio [...] Deus lhe concede como um dom por filantropia e compaixão, quando o homem lhe obedece. Pois como o homem, desobedecendo, atraiu morte sobre si próprio, assim, obedecendo à vontade de Deus, aquele que deseja é capaz de obter para si mesmo a vida eterna (Para Autolycus, XXVII).

TACIANO DA SÍRIA (FIM DO SÉC. II)

Viva para Deus e, apreendendo-o, coloque de lado sua velha natureza. Não fomos criados para morrer, mas morremos por nossa própria falha. Nosso livre-arbítrio nos destruiu, nós que fomos livres nos tornamos escravos; fomos vendidos pelo pecado. Nada de mal foi criado por Deus; nós próprios manifestamos impiedade; mas nós, que a temos manifestado, somos capazes de rejeitá-la novamente (Address, XI).

BARDESANO DA SÍRIA (C. 154-222)

Como é que Deus não nos fez de modo que não pecássemos e não incorrêssemos na condenação? Se o ser humano fosse feito assim, não teria pertencido a si mesmo, mas seria instrumento daquele que o moveu. [...] E como, nesse caso, diferiria de uma harpa, sobre a qual outro toca; ou de um navio, que outra pessoa dirige: onde o louvor e a culpa residem na mão do músico ou do piloto, [...] eles sendo somente instrumentos feitos para uso daquele em quem está a habilidade? Mas Deus, em sua benignidade, escolheu fazer assim o ser humano; pela liberdade ele o exaltou acima de muitas de suas criaturas (Fragmentos).

CLEMENTE DE ALEXANDRIA (C. 150-215)

Mas nós, que temos ouvido pelas Escrituras que a escolha auto-determinadora e a recusa foram dadas pelo Senhor ao ser humano, descansamos no critério infalível da fé, manifestando um espírito desejoso, visto que escolhemos a vida e cremos em Deus através de sua voz (Stromata, 2.4).

Mas nada existe sem a vontade do Senhor do universo. Resta dizer que essas coisas acontecem sem o impedimento do Senhor. Não devemos, portanto, pensar que ele ativamente produz aflições (longe esteja de nós pensar uma coisa dessas!); mas devemos ser persuadidos de que ele não impede os que as causam, mas anula para o bem os crimes dos seus inimigos (Stromata, 4.12).

TERTULIANO (155-225)

Eu acho, então, que o ser humano foi feito livre por Deus, senhor de sua própria vontade e poder, indicando a presença da imagem de Deus e a semelhança com ele por nada melhor do que por esta constituição de sua natureza. [...]

Você verá que, quando ele coloca diante do ser humano o bem e o mal, a vida e a morte, que o curso total da disciplina está disposto em preceitos pelos quais Deus chama o ser humano do pecado, ameaça e exorta-o; e isso em nenhuma outra base pela qual o ser humano é livre, com vontade ou para a obediência ou para a resistência.[...]

Portanto, tanto a bondade quanto o propósito de Deus são descobertos o dom da liberdade em sua vontade dado ao ser humano... (Contra Marcião, 2.5).

NOVACIANO DE ROMA (C. 200-258)

Ele também colocou o ser humano no topo do mundo, e também o fez à imagem de Deus, e lhe comunicou mente, razão e perspicácia, para que pudesse imitar a Deus; e, embora os primeiros elementos do seu corpo fossem terrenos, a substância foi inspirada por um sopro divino e celestial. E, quando ele lhe deu todas as coisas para o seu serviço, quis que apenas ele fosse livre. E, para que novamente uma ilimitada liberdade não caísse em perigo, estabeleceu uma ordem, na qual ao ser humano foi ensinado que não havia qualquer mal no fruto da árvore; mas ele foi advertido previamente de que o mal surgiria se porventura ele exercesse o seu livre-arbítrio no desprezo à lei que lhe foi dada (Sobre a Trindade, cap. 1).

ORÍGENES (C. 185-254)

Ora, deve ser conhecido que os santos apóstolos, na pregação da fé de Cristo, pronunciaram-se com a maior clareza sobre certos pontos que eles criam ser necessários para todo mundo. [...] Isso também é claramente definido no ensino da Igreja de que cada alma racional é dotada de livre-arbítrio e volição (De Principiis, pref.).

Há, de fato, inúmeras passagens nas Escrituras que estabelecem com extrema clareza a existência da liberdade da vontade (De Principiis, 3.1).

METÓDIO (C. 260-311)

Ora, aqueles que decidem que o ser humano não possui livre-arbítrio, e afirmam que ele é governado pelas necessidades inevitáveis do destino [...] são culpados de impiedade para com o próprio Deus, fazendo-o ser a causa e o autor dos males humanos (O banquete das dez virgens, xvi).

Eu digo que o ser humano foi feito com livre-arbítrio, não como se já houvesse algum mal existente, que ele tinha o poder de escolher se quisesse [...], mas que o poder de obedecer e desobedecer a Deus é a única causa (Sobre o livre-arbítrio).

ARQUELAU (C. 277)

Todas as criaturas que Deus fez, ele fez muito boas, e deu a cada indivíduo o senso de livre-arbítrio, de acordo com o padrão que ele também instituiu na lei de julgamento. Pecar é característica nossa, e nosso pecado não é dom de Deus, já que nossa vontade é constituída de modo a escolher tanto pecar quanto não pecar (Discussão com Mani).

ARNÓBIO DE SICCA (C. 253-327)

Aquele que convida a todos não liberta igualmente a todos? Ou não empurra ele de volta ou repele qualquer um para longe da amabilidade do Supremo que dá a todos igualmente o poder de vir a ele? — A todos, ele diz, a fonte da vida está aberta, e ninguém é impedido ou retido de beber [...] (Contra os pagãos).

Mais ainda, meu oponente diz que, se Deus é poderoso, misericordioso, desejando salvar-nos, que mude as nossas disposições e nos force a confiar em suas promessas. Isso, então, é violência, não é amabilidade nem generosidade do Deus supremo, mas uma luta vã e pueril na busca da obtenção do domínio. Pois o que seria tão injusto como forçar homens que são relutantes e indignos, reverter suas inclinações; imprimir forçadamente em suas mentes o que eles não estão desejando receber, e têm horror de... (ibidem).

CIRILO DE JERUSALÉM (C. 312-386)

Saiba também que você tem uma alma autogovernada, a mais nobre obra de Deus, feita à imagem do Criador, imortal por causa de Deus que lhe dá imortalidade, um ser vivente racional, imperecível, por causa dele que concedeu esses dons: tendo livre poder para fazer o que deseja (Lecture, IV).

Não há um tipo de alma pecando por natureza e outro de alma praticando justiça por natureza; ambas agem por escolha, a substância da alma sendo de uma espécie somente e igualmente em tudo (ibidem).

A alma é autogovernada: e embora o Demônio possa sugerir, ele não tem o poder de obrigar a vontade. Ele lhe pinta o pensamento da fornicação: mas você pode rejeitá-lo, se quiser. Pois se você fosse fornicador por necessidade, por que razão Deus preparou o inferno? Se você fosse praticante da justiça por natureza, e não pela vontade, por que preparou Deus coroas de glória inefável? A ovelha é afável, mas ela nunca foi coroada por sua afabilidade; visto que sua qualidade de ser afável lhe pertence por natureza, não por escolha (ibidem).

GREGÓRIO DE NISSA (C. 335-395)

Sendo à imagem e semelhança [...] do Poder que governa todas as coisas, o ser humano manteve também na questão do livre-arbítrio esta semelhança a ele cuja vontade domina tudo (Sobre a virgindade, cap. XII).

JERÔNIMO (C. 347-4.20)

E em vão que você tem uma idéia falsa a meu respeito e tenta convencer o ignorante de que eu condeno o livre-arbítrio. Deixe aquele que o condena ser ele próprio condenado. Fomos criados, capacitados com o livre-arbítrio; ainda não é isto que nos distingue dos bárbaros. Pois o livre-arbítrio humano, como eu disse, depende da ajuda de Deus e necessita de sua ajuda momento a momento, algo que você e os seus não escolhem admitir. Sua posição é a de que, uma vez que o ser humano tem livre-arbítrio, ele não mais necessita da ajuda de Deus. É verdade que a liberdade da vontade traz consigo a liberdade da decisão. Ainda assim o ser humano não age imediatamente sobre o seu livre-arbítrio, mas requer a ajuda de Deus que, em si mesmo, não precisa de ajuda (Cartas).

Quando nós estamos preocupados com a graça e a misericórdia, o livre-arbítrio é em parte anulado; em parte, eu digo, porque tanto depende dele, que queremos e desejamos, e damos consentimento ao curso que escolhemos. Mas depende de Deus se temos o poder em sua força e com sua ajuda para fazer o que desejamos, e para nosso trabalho e esforço darem resultado (Contra os pelagianos, Livro III).

Cabe a nós o começar, mas a Deus terminar (ibidem, 3.1, v. tb. ap. 11).

JOÃO CRISÓSTOMO (347-407)

Deus, tendo colocado o bem e o mal em nosso poder, nos deu plena liberdade de escolha; ele não retém o indeciso, mas abraça o que é disposto (Homilias sobre Gênesis, 19.1).

Tudo está sob o poder de Deus, mas de um modo que nosso livre-arbítrio não é perdido. [...] Ele depende, entretanto, de nós e dele. Deve­mos primeiro escolher o bem, e, então, ele acrescenta o que lhe pertence. Ele não precede nosso querer, aquilo que nosso livre-arbítrio não suporta. Mas quando nós escolhemos, então ele nos proporciona muita ajuda. [...] Cabe a nós escolher de antemão e querer, mas cabe a Deus aperfeiçoar e concretizar (Homilia sobre Hebreus).[3]

AGOSTINHO JOVEM (354-430)[4]

O livre-arbítrio, naturalmente concedido pelo Criador à nossa alma racional, é um poder tão neutro que pode tanto se inclinar para a fé como se voltar para a incredulidade (O Espírito e a letra).

De fato, o pecado é tanto um mal voluntário que não é pecado de forma alguma, a menos que seja voluntário (Sobre a religião verdadeira).

Logo, ou a vontade é a causa primeira do pecado, e nenhum pecado será causa primeira do pecado (O livre-arbítrio, 3.49).

O pecado não está de fato em nenhum lugar senão na vontade, visto que esta consideração também teria me ajudado, que a justiça declara culpados os que pecam pela vontade má apenas, embora possam ter sido incapazes de fazer o que desejavam (Duas almas, Contra os maniqueus, 10.12).

Nós, convencidos da existência de um Deus supremo e verdadeiro, confessamos também que possui potestade, vontade e presciência soberanas. E não tememos, por isso, fazer sem vontade o que voluntariamente fazemos, porque de antemão sabe Ele, cuja presciência não pode enganar-se, o que temos de fazer (A cidade de Deus, 5.9).

Quem quer que seja que tenha feito qualquer coisa má por meio de alguém inconsciente ou incapaz de resistir, este último não pode por meio algum ser condenado justamente (Duas almas, Contra os maniqueus, 10.12).

Qualquer um que também faz uma coisa com relutância é compelido, e todo aquele que é compelido, se faz uma coisa, faz somente de má vontade. Segue que aquele que deseja é livre de compulsão, mesmo se acha que está sendo obrigado (Duas almas, Contra os maniqueus, 10.14).

De maneira alguma nos vemos constrangidos, admitida a presciência de Deus, a suprimir o arbítrio da vontade ou, admitido o arbítrio da vontade, a negar em Deus a presciência do futuro, o que é verdadeira impiedade. Abraçamos, isso sim, ambas as verdades, confessamo-las de coração fiel e sincero. [...] Longe de nós negar a presciência, por querermos ser livres, visto como com seu auxílio somos e seremos livres (A cidade de Deus, 5.10).

ANSELMO (1033-1109)

Ninguém abandona a retidão exceto por desejar abandoná-la. Se “contra a própria vontade” significa “com relutância”, então ninguém abandona a retidão contra a sua vontade. [...] Mas uma pessoa não pode querer contra a sua vontade porque não pode querer estando indisposta para querer. Cada um que quer, o faz desejosamente (Verdade, liberdade e mal).

Embora eles [Adão e Eva] tenham cedido ao pecado, não podiam abolir em si mesmos a liberdade natural de escolha. Contudo, podiam afetar o seu estado a ponto de não serem capazes de usar aquela liberdade exceto por uma graça diferente daquela que eles tinham antes de sua queda (ibid).

E não devemos dizer que eles [Adão e Eva] tinham liberdade com o propósito de receber de um doador a retidão que eles não tinham, porque nós temos de crer que eles foram criados com vontade reta — embora não devemos negar que eles tinham liberdade para receber essa mesma retidão novamente, se eles a tivessem abandonado de uma vez e ela retornasse para eles por alguém que originalmente lhes deu. Freqüentemente vemos uma evidência disso em pessoas que são trazidas de volta à justiça da injustiça, por graça celestial (ibid).

Você não vê que se segue dessas considerações que nenhuma tentação pode vencer uma vontade reta,? Pois, se a tentação pode vencer a vontade, ela tem o poder de vencê-la, e vence a vontade pelo próprio poder. Mas a tentação não pode fazer isso porque a vontade pode ser vencida somente pelo próprio poder (ibidem).

Agora, eu me pergunto se o próprio Deus poderia remover a retidão da vontade de uma pessoa. Será que poderia? Eu lhe mostrarei que ele não pode. Pois, embora ele possa reduzir tudo o que ele fez do nada de volta para o nada, ele não tem o poder de separar a retidão de uma vontade que a possui (ibidem).

TOMÁS DE AQUINO (1224-1274)

A causa de um pecado é que a vontade não segue a regra da razão nem a lei divina. O mal não surge antes que a vontade se aplique a fazer alguma coisa (Theological Texts, p. 132).

A necessidade vem do agente quando coage alguém do que não pode fazer o contrário. Referimo-nos a isso como “necessidade por coerção”. A necessidade por coerção é contrária à vontade, pois consideramos violento o que quer que seja contrário à inclinação de uma coisa. Mas o próprio movimento da vontade é uma inclinação para algo, de forma que esse algo seja voluntário quando segue a inclinação da natureza. Exatamente como esse algo não pode ser possivelmente violento e natural simultaneamente, assim esse algo não pode ser abso­lutamente coagido ou forçado e simultaneamente voluntário (An Aquinas Reader, p. 291-2).

Assim, por necessidade o ser humano deseja a alegria, e lhe é impossível querer não ser feliz ou ser infeliz. Mas, visto que a escolha não trata com o fim, mas com os meios para o fim, como foi discutido previamente (Suma teológica, I-II, p. 13, 3), ela não trata com o bem perfeito ou com a alegria, mas com outros bens particulares. Conseqüentemente, o ser humano não escolhe necessariamente, mas livremente (ibidem, p. 293).

Alguns têm proposto que a vontade do ser humano é movida necessariamente a fazer alguma escolha, embora não afirmem que a vontade seja coagida. Pois nem toda necessidade de um princípio externo (movimento de violência) é de coação, mas somente aquela que se origina de fora, onde os movimentos naturais certos são descobertos como necessários, mas não como coercitivos. Pois o coercitivo é oposto ao natural, assim como é também oposto ao movimento voluntário, porque esse último vem de um princípio interno, enquanto o movimento violento vem de um princípio externo. Essa opinião [dos averroístas latinos] é, portanto, herética porque destrói o mérito e o demérito das ações humanas. Pois, por que deveria haver qualquer mérito ou demérito por ações que uma pessoa não pode evitar praticar? Além do mais, isso significa ser incluído entre as opiniões excluídas dos filósofos: pois se não há qualquer liberdade em nós exceto que somos movidos da necessidade de querer, então a escolha deliberada, o encorajamento, o preceito, a punição, o louvor e culpa são removidos, e esses são os verdadeiros problemas que a filosofia moral leva em conta. Não somente isso é contrário à fé como também corrói todos os princípios da filosofia moral (ibidem, p. 294-5).

Ora, o pecado não pode destruir totalmente a racionalidade do ser humano, pois então ele não mais seria capaz de pecar (Philosophical Texts, p. 179).

Ser livre não é ser obrigado a um objetivo determinado (ibid., p. 259).

O ser humano possui livre-arbítrio, de outra forma, os conselhos, exortações, preceitos, proibições, recompensas e punições seriam todos sem propósito... (ibidem, p. 261-2).

O ser humano, entretanto, pode agir com juízo e adaptação na razão, um juízo livre que deixa intacto o poder de ser capaz de decidir deforma contrária (ibidem).

De modo semelhante, então, o pecado é causado pelo livre-arbítrio que se afasta de Deus. Em consequência, não se segue que Deus seja a causa do pecado, embora ele seja a causa do livre-arbítrio (Sobre o mal, p. 106).

Deve ser observado que o movimento do primeiro motor não é uniformemente recebido em todas as coisas movíveis, mas em cada uma de acordo com o próprio modo. [...] Pois, quando uma coisa está devidamente disposta a receber o movimento do primeiro motor, segue uma ação perfeita de acordo com a intenção do primeiro motor; mas, se uma coisa não está corretamente disposta e adequada para receber o movimento do primeiro motor, segue uma ação imperfeita. Então, toda ação é atribuída ao primeiro motor, mas todo defeito não é atribuído ao primeiro motor, visto que um defeito na ação resulta do fato de que o agente parte da ordem do primeiro motor. [...] Por essa razão, afirmamos que a ação relativa ao pecado vem de Deus, mas o pecado não vem de Deus (ibidem, p. 110).

Contudo, a deformação do pecado de modo algum está sob a vontade divina, mas resulta do fato de que a vontade livre se afasta ou desvia da ordem da vontade divina (ibidem, p. 111).

Aquino acrescenta:

Semelhantemente, quando alguma coisa move a si mesma, não se pode excluir que ela seja movida por outra coisa de quem ela tem esta própria capacidade de mover a si mesma. Portanto, não é contrário à liberdade dizer que Deus é a causa do ato da vontade livre (ibidem).[5]

O pecado feriu o ser humano em seus poderes naturais no que diz respeito à sua capacidade para o bem gratuito, mas não de tal forma que retira algo da essência de sua natureza; e, assim, não se segue que o intelecto dos demônios errou exceto a respeito de assuntos gratuitos (ibidem, p. 496).



Referência:

GEISLER, Norman. Eleitos, mas Livres:  uma perspectiva equilibrada entre a eleição divina e o livre-arbítrio. Trad. Heber Carlos de Campos. ed. 2. São Paulo: Editora Vida, 2005. p. 170-81.



[1] Se não houver outra indicação, as citações até Agostinho (com exceção de O livre-arbítrio e A cidade de Deus) seguem Roger T. Forster e V. Paul Marston, em God’s Strategy in Human History (p. 245s), e o grifo é do autor em todas as citações.
[2] Trad. Lourenço Costa, São Paulo, Paulus, 1995 (Patrística). A Paulus não manteve em português o título Contra as heresias, como são conhecidos os cinco livros de Irineu de Lião, optando tão-somente pelo nome do autor.
[3] João Calvino conscientemente opõe-se a Crisóstomo e praticamente a todos os pais da Igreja quando diz: “Devemos, portanto, repudiar o sentimento freqüentemente repetido por Crisóstomo: ‘A quem ele atrai, ele atrai voluntariamente’, insinuando que o Senhor somente estica a sua mão, e espera para ver se nos agradamos em receber a sua ajuda. Admitimos que, como o ser humano foi originalmente constituído, poderia se inclinar para qualquer lado, mas, visto que ele nos ensinou pelo seu exemplo que coisa miserável é o livre-arbítrio se Deus não opera em nós o querer e o realizar, de que nos adiantaria se a graça fosse dada em tal exígua medida?” (Institutas da religião cristã, 1.2.3.10).
[4] Esses textos foram retirados dos escritos mais antigos de Agostinho, antes de sua posição ter mudado depois da controvérsia com os cismáticos donatistas (v. ap. 3), os quais Agostinho cria que podiam ser coagidos a aceitar a verdade da Igreja.
[5] Com isso, ele aparentemente quer dizer que Deus é a Causa Primeira, que produziu o fato da vontade livre, enquanto o ser humano é a causa secundária, que realiza (pelo poder que Deus lhe dá) os atos da livre-escolha.

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