domingo, 14 de abril de 2013

O Teísmo Aberto é um tipo de Arminianismo?


O Teísmo Aberto é um tipo de Arminianismo?

Por Roger Olson

Uma das razões pelas quais criei esse blog foi prover um lugar para discutir sobre questões arminianas, questões relacionadas com a teologia arminiana. (Não há um “movimento arminiano” como tal, por isso toda a discussão sobre arminianismo é sobre teologia.) Uma dessas questões é se o teísmo aberto, teologia da “abertura de Deus”, é uma versão do arminianismo. Será que ele pertence a uma categoria abrangente da “teologia arminiana” ou ele é uma teologia “solitária” cara a cara com o arminianismo? Estão eles separados ou o arminianismo deve ser considerado de modo mais amplo, uma perspectiva doutrinária maior e o teísmo aberto um ângulo particular dessa perspectiva?

Geralmente falando, os teístas abertos querem ser considerados arminianos. A maioria deles eram arminianos antes de se tornarem teístas abertos; eles ainda se consideram arminianos. (Uns poucos teístas abertos saltaram de alguma versão da teologia reformada para o teísmo aberto.)

Geralmente falando, não teístas abertos arminianos não querem incluir teístas abertos entre as suas fileiras ou considerar o teísmo aberto como uma variação do arminianismo.

Penso que existem razões políticas para isso. Entre os evangélicos, de qualquer modo, o arminianismo tem sido aceito como uma tradição respeitável até mesmo pela maioria dos evangélicos reformados que discordam totalmente dele. Arminianos estavam entre os fundadores da Associação Nacional de Evangélicos. Quem poderia seriamente duvidar que John Wesley devesse ser considerado evangélico? Sim, é claro, que há aqueles calvinistas e luteranos que gostariam de possuir o rótulo de “evangélico” e excluir arminianos, porém isso não é amplamente aceito pelos líderes do evangelicalismo. Se o teísmo aberto puder ser considerado arminiano, isso dará aos teístas abertos mais de uma voz, um lugar à mesa, entre os evangélicos.

Por outro lado, os anti-teístas abertos arminianos, até mesmo alguns arminianos simpáticas ao teísmo aberto, não querem incluí-los como uma variação do arminianismo porque isso daria crédito à crítica calvinista de que o arminianismo conduz ao teísmo aberto (que é definido por eles como heresia).

Tenho uma gravação parcial de um evento público onde dois líderes calvinistas evangélicos que discutem um com o outro, na frente de uma plateia, sobre teísmo aberto e arminianismo. Eles concordam que o teísmo aberto está “fora dos limites”, por assim dizer (do evangelicalismo), mas acabam não sabendo o que dizer sobre o arminianismo exceto que os arminianos “estão todos indo para lá” (ou seja, teísmo aberto).  O que eles queriam dizer, e tenho certeza disso, é que o teísmo aberto é o ponto lógico final da teologia arminiana (argumento da ladeira escorregadia).

Alguns anos atrás ajudei no começo de uma organização de evangélicos arminianos. Eu não discuti que teístas abertos devessem ser incluídos porque entendia as ramificações políticas disso. A organização pretendia introduzir uma organizada e trans-denominacional voz de arminianos entre os evangélicos. A ideia era que se fossem incluídos os teístas abertos isso faria com que a crítica calvinista fosse direcionada ao bocado todo da organização com uma heresia amigável. Isso seria dar motivos àqueles que afirmam que o arminianismo conduz ao teísmo aberto. Eu não concordei com o que foi feito, mas cheguei ao ponto de excluir teístas abertos – pelo menos no começo. Agora acho que isso foi um erro.

É claro, deixando de lado a questão política, tudo depende de como se define amplamente “arminianismo”. Se isso inclui um monte de detalhes, então talvez o teísmo aberto não pertencesse a essa categoria, porém muitas outras pessoas (que não são teístas abertos) que se consideram arminianos também seriam excluídas. Por exemplo, nós evangélicos arminianos discordamos entre nós sobre o molinismo, “conhecimento médio”, e onde que isso é uma versão válida de arminianismo. Muitos arminianos acreditam que Deus tem o conhecimento médio e o usa em sua providência e predestinação de pessoas. Alguns eruditos de Armínio afirmam que Armínio foi um molinista. Outros arminianos são inflexivelmente contrários ao conhecimento médio e especialmente a qualquer ideia de que Deus o usa na providência e predestinação. (Agora não vou entrar nisso, mas o assunto está sendo discutido em sua maioria de forma amigável entre evangélicos arminianos no fórum de discussões da Sociedade Arminiana.)

Para mim, essa é a maior, e mais importante questão a do teísmo aberto. Isso porque, para mim, e para muitos arminianos, a chave para o arminianismo é o caráter de Deus. Isso é o que primeiramente distingue o arminianismo do calvinismo. Todos os arminianos acreditam que o Deus do calvinismo não pode ser compreendido (logicamente) como um ser perfeitamente bom e amável, e que somente o arminianismo (se sob o rótulo ou não) torna isso (logicamente) possível ver Deus como perfeitamente bom (sem cair no universalismo como no caso de Barth e alguns outros na tradição reformada).

Sim, é claro, que o livre-arbítrio é uma ideia chave da teologia arminiana, e a graça preveniente como a fonte do livre-arbítrio em relação à aceitação de uma pessoa ao Evangelho (de fato eles nada fazem de bom espiritualmente falando). Todavia, o livre-arbítrio é para o bem do caráter de Deus.  Arminianos, aos menos os arminianos evangélicos, não acreditam no livre-arbítrio para o seu próprio bem ou em qualquer forma humanista. Acreditamos no “arbítrio libertado” (libertado pela graça) porque acreditamos na relacional bondade de Deus (parando muito antes do universalismo).

O molinismo, em minha opinião, levanta pontos de interrogação sobre a bondade de Deus – na medida em que sugere que Deus usa o conhecimento médio para determinar as decisões e ações de pessoas. E qual o outro motivo para crer nisso? O foco central do conhecimento médio molinista é reconciliar livre-arbítrio e determinismo. Acredito que o arminianismo é essencialmente não determinista. O determinismo divino, mesmo em sua forma molinista, conduz logicamente, inexoravelmente, ao mesmo problema do calvinismo clássico – uma sombra posta sobre a bondade de Deus. A questão, claramente, é a intencionalidade divina em relação ao pecado e o mal, especialmente o inferno. (Veja a minha discussão sobre molinismo, conhecimento médio e compatibilismo em Contra o Calvinismo.)

Assim, me parece irônico que alguns arminianos sejam molinistas e que o molinismo exista entre arminianos, mas o teísmo aberto que está mais perto do “coração” do arminianismo (o caráter de Deus é absolutamente bom) seja excluído.

É claro, um argumento para a inclusão do molinismo, mas não ao teísmo aberto é o apelo a tradição. Alguns eruditos arminianos argumentam que Armínio foi um molinista. Se sim, defendo eu, então ele era inconsistente. Pode haver passagens em que Armínio soe desse jeito, mas a minha própria “pegada” sobre elas é que ele não estava pensando claramente nos dias que ele as escreveu. Ele também nunca tornou público ter abraçado o molinismo ou o conhecimento médio (com o melhor do meu conhecimento e já li todas as suas obras que foram traduzidas ao inglês e muitos livros sobre Armínio e sua teologia). Quando eu estava fazendo a minha pesquisa para Teologia Arminiana: Mitos e Realidades li vários teólogos dos séculos XVIII, XIX e XX, mas nunca me deparei com um que claramente fosse molinista.

No entanto, estou disposto a admitir que possa ter havido molinismo em alguns cantos de muitos escritos de Armínio e no arminianismo posterior. Acho que na melhor das hipóteses isto é um corpo estranho dentro da tradição arminiana. Ele pertence ao calvinismo, em minha humilde opinião. (A não ser que um arminiano simplesmente acredite que Deus tem o conhecimento médio, mas não o use para determinar as decisões e ações das criaturas. Mas então, qual é o ponto?)

Outro ponto de discordância e variedade entre arminianos é a perfeição cristã, total santificação, ou não. Arminianos wesleyanos acreditam nisso; arminianos não wesleyanos não. (E, é claro, os teólogos wesleyanos contemporâneos discordam entre si sobre o seu significado.) Isso nem chega perto de tocar a questão central do caráter de Deus, por isso nunca me preocupei sobre a inclusão de ambas as perspectivas como igualmente arminiano. Contudo, muitos críticos reformados de Wesley (e da teologia wesleyana) se preocupam que a crença em algum tipo de perfeição cristã ou total santificação conduza inevitavelmente a justificação por obras em detrimento a justificação pela fé. E ainda, que a crítica nunca tenha, com o melhor do meu conhecimento, mantido arminianos não wesleyanos de considerar arminianos wesleyanos companheiros arminianos em pé de igualdade.

Portanto, não discordância muito profunda entre arminianos evangélicos sobre muitas coisas. Por que excluir teístas abertos – especialmente se molinistas estão incluídos?

A única razão que posso pensar é que o teísmo aberto é controverso entre os líderes do evangelicalismo – muitos dos quais são mais reformados do que arminianos. (Aqui eu não vou entrar nessa discussão – se o arminianismo é uma variedade do protestantismo reformado.)

Quando pela primeira vez o teísmo aberto entrou na cena evangélica, com a publicação de The Openness of God em meados de 1990, vários líderes evangélicos bradaram bem alto – o condenando, por exemplo, como “apenas teologia do processo”. Eles levantaram esse burburinho antes mesmo de compreendê-lo totalmente, estes líderes evangélicos se recusaram a abraçar o teísmo aberto como uma opção evangélica legítima. Fui muito mal tratado por alguns líderes evangélicos por isso.

Esta é uma história pessoal que não posso provar; você pode acreditar em mim ou não. Mas me lembro disso como se tivesse acontecido ontem. Um líder evangélico muito influente que tem muita autoridade para definir “evangelicalismo” e fazer a sua definição a “vara de medida” me disse, no café da manhã de uma reunião da sociedade profissional, que ele tinha se inclinado por um longo tempo ao teísmo aberto. Isso foi logo após a publicação de Openness of God, antes da confusão sobre isso explodir. Sei que ele compreendeu o que é o teísmo aberto, porque conversamos sobre isso por pelo menos trinta minutos e ele tinha lido e compreendido outros escritos de pessoas como Richard Rice e Clark Pinnock que precederam esse volume do livro. Então, quando a controvérsia irrompeu em guerra aberta (não violenta) entre evangélicos, especialmente com alguns calvinistas, marchando e gritando (e muitas vezes revelando que eles mesmos nem entenderam o teísmo aberto!), este líder, uma pessoa evangélica influente não mais se identificou como um teísta aberto em particular ou em público. Ele tentou moderar a controvérsia, para aclamá-la, e ganhar de todos os lados a fim de se engajar na calma, discussão civil. Mas tenho quase certeza que ninguém senão eu e alguns poucos que sabia que ele era um teísta aberto, ou pelo menos se inclinava nessa direção, antes da controvérsia explodir.

Como essa controvérsia poderia se tornar tão explosiva? Bem, uma maneira foi os anti-teístas abertos deturparem o teísmo aberto aos não teólogos, pastores e leigos, por exemplo, na crença de que “Deus dá maus conselhos” e na crença de um “Deus ignorante”. Muitos deles foram diretamente às convenções denominacionais e passaram resoluções contra o teísmo aberto aos assustados delegados, sugerindo que o teísmo aberto é um cavalo de Tróia da teologia do processo. (Eles, às vezes, passavam mais tempo falando sobre a teologia do processo que do teísmo aberto, isso fazia com que os delegados apavorados pensassem que os dois eram basicamente a mesma coisa.)

Muitas vezes perguntei por que o teísmo aberto, de todas as coisas, levava a tal histeria (e às vezes a franca desonestidade) entre os seus críticos. Uma das coisas que suspeito é que muitos calvinistas perceberam que caso muitos evangélicos adotassem o teísmo aberto, um dos seus argumentos mais fortes contra o arminianismo seria anulado – que o arminianismo não pode explicar como Deus prevê livres decisões futuras das criaturas sem de alguma forma as determinar.

O teísmo aberto está, na minha opinião, ainda que errado, mais perto do verdadeiro coração do arminianismo do que o molinismo (na medida em que usa o conhecimento médio para reconciliar o determinismo divino com o livre-arbítrio). Ele deve ser considerado uma variação de arminianismo assim como, digamos, o supralapsarianismo é considerado uma variação legítima do calvinismo. O calvinismo é uma tradição diversificada. Ele inclui muitas perspectivas diferentes, algumas delas muito controversas entre aqueles que se consideram porta-vozes da teologia reformada. O supralapsarianismo é uma. (Ok, R.C. Sproul é contra o supralapsarianismo e ainda diz que ele não é o verdadeiro calvinismo. Gostaria de vê-lo e ouvi-lo dizer isso na frente de Alvin Plantinga.) O Sínodo de Dort reconheceu serem os supralapsarianos verdadeiramente reformados, mesmo sendo a maioria dos líderes do sínodo à favor do infralapsarianismo. Há outros debates entre os evangélicos calvinistas sobre os quais poucos excluem alguém de ser considerado verdadeiramente reformado ou calvinista.

O arminianismo é uma grande tenda e um jogo centrado. O teísmo aberto está sob ela e nela. Está na hora de todos os arminianos simplesmente reconhecerem isso e pararem de tentar excluir os teístas abertos.







Fonte: Patheos.com 



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