quinta-feira, 19 de março de 2015

Jesus Ensinou Eleição Incondicional Em Mc 4.11-12?



Ele lhes respondeu: A vós outros vos é dado conhecer o mistério do reino de Deus; mas, aos de fora, tudo se ensina por meio de parábolas, para que, vendo, vejam e não percebam; e, ouvindo, ouçam e não entendam; para que não venham a converter-se, e haja perdão para eles. (Mc 4:11-12)

Este texto gerou dúvidas em certos irmãos porque segundo alguns cristãos, Jesus estaria aqui ensinando a eleição incondicional. Tal texto não somente é impróprio para afirmar esta doutrina, mas também é um texto que demonstra claramente o gracioso sinergismo na salvação do ser humano. Não pretendo ser muito extenso na explicação e, portanto, vou me deter ao máximo nestes versículos. Para começar gostaria de trazer um comentarista bíblico de peso.

John Wesley diz:

Marcos 4.11

Aos de fora – Assim os judeus designavam os pagãos; também o nosso Senhor designa todos os incrédulos obstinados, portanto eles não entrarão em seu reino, eles habitarão nas trevas exteriores.

Marcos 4.12

Para que, vendo, vejam e não percebam – eles não viram antes e agora eles não podiam ver, Deus lhes deu a cegueira que tinham escolhido.

O arminiano John Wesley chama a atenção para o uso do termo “aos de fora” nesta passagem. Conforme o que ele nos diz este termo se refere a pessoas consideradas incrédulas pelos judeus. Jesus usa este termo para se referir a um grupo específico de pessoas que ao ouvirem as suas parábolas estavam insensíveis para o significado espiritual delas. Ao término do seu ensinamento parabólico houve dois grupos distintos de pessoas.

Quando a multidão foi embora, as pessoas que ficaram ali começaram, junto com os doze discípulos, a fazer perguntas a Jesus sobre parábolas. (Mc 4.10 NTLH)

Um grupo chamado multidão (os de fora) voltou para as suas casas, enquanto que algumas pessoas junto dos doze apóstolos (os de dentro) permaneceram para pedir mais explicações sobre o sentido das parábolas. O objetivo de Jesus em falar por meio de parábolas é justamente forçar uma reposta que irá distinguir as pessoas como “os de dentro” e “os de fora”. Não há aqui nenhuma forma de eleição secreta ou predestinação arbitrária de Deus. O que qualificou os dois grupos não foi a vontade decretiva de Deus senão a resposta individual ao ensinamento de Jesus. As parábolas são uma forma de juízo sobre os desinteressados e incrédulos, a multidão que foi embora (os de fora) trouxe sobre si mesmo o juízo de Deus por não responderem com fé a graça preveniente disposta a eles (c.f. At 13.46).

Conscientes deste uso confrontativo das parábolas podemos agora partir para o versículo 12 e analisarmos o comentário de Wesley. Deus não cegou arbitrariamente a multidão, a cegueira foi o juízo divino consequente a escolha que eles tomaram de não aceitar os ensinamentos de Jesus. Para o grupo “de dentro” Jesus explica a parábola e esclarece que no mundo a Palavra de Deus é recebida de diversas formas. A forma como cada indivíduo reage à semente plantada irá determinar o resultado desta semeadura. Aqui vemos inequivocamente o sinergismo evangélico em ação. Temos a ação de Deus através da graça preveniente que plantou a Palavra no coração do ser humano e o sinergismo divino-humano que irá definir o resultado desta obra.

Jesus ensina o mistério do Reino apenas ao grupo “de dentro”. Isto está em conformidade com outras partes do evangelho onde vemos Jesus ensinar aos discípulos que não deveriam “dar aos porcos as pérolas” (Mt 7.6) ao não atender o pedido da mulher cananeia até ela demonstrar fé (Mt 15.26-27). O ser humano é totalmente responsável por acolher a graça preveniente, por responder ao chamado de Deus e perseverar nele. O mistério do Reino tem acesso somente o grupo da fé, aqueles que responderam ao chamado de Deus agora podem compreender a ação da graça divina e as consequências do acolhimento ou rejeição dela. Quem estiver sob a ação da graça preveniente e a rejeitar não se converterá, e o diabo então irá retirar a Palavra do seu coração. Quem não buscar se aprofundar será inconstante e logo deixará a Palavra. Quem não cuidar do seu próprio coração deixará que a Palavra seja sufocada pelo mundo. Mas quando o homem cooperar com a graça de Deus, a acolher, então o resultado é uma boa colheita para Deus.


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Mais sobre o objetivo das parábolas no link: http://www.arminianismo.com/index.php/categorias/diversos/artigos/69-grant-r-osborne/109-grant-r-osborne-objetivo-das-parabolas

sexta-feira, 6 de março de 2015

Um Deus Auto-limitado, mas Infinito!


Por Billi

Tanto calvinistas quanto arminianos afirmam algum tipo de auto-limitação divina, por exemplo, na encarnação houve uma auto-limitação de Deus, Jesus não fez milagres por causa da incredulidade das pessoas (Mc 6.5-6). No arminianismo a auto-limitação acontece a fim de dar espaço para uma relação genuína entre o homem e Deus, ou seja, Deus limita a sua vontade para que o homem possa exercer livremente a sua vontade de amá-lo e servi-lo. Deste modo, a auto-limitação é o que possibilita o indeterminismo na cosmovisão arminiana.

Por outro lado, calvinistas também acreditam numa forma de auto-limitação. Aqueles que acreditam que a queda do homem foi devido a "vontade permissiva" de Deus e que Deus não pode ser culpado por ela estão afirmando que, em certo sentido, Deus limitou o seu poder em relação a criação. Calvinistas não concordam entre si sobre como isto se dá, alguns afirmam que Deus retirou a "graça suficiente ou necessária" de Adão que possibilitava a sua perseverança. Assim sendo, o homem destituído desta graça iria pecar e Deus se ausentaria de qualquer culpa pela queda. Porém, outros calvinistas afirmam que a queda se deu conforme o decreto de Deus, para não chocar as pessoas e também assumir todas as consequências lógicas disto o calvinismo coloca o véu da "vontade secreta" sobre o decreto da queda.

Ambos os lados afirmam a auto-limitação. Evidentemente arminianos se sentem mais confortáveis em usar este termo do que calvinistas, porém o conceito existe dentro do calvinismo porque é necessário em alguma medida para concebermos a obra da criação e a encarnação de Jesus de forma ortodoxa. Por que, então, calvinistas não gostam de usar o termo auto-limitação? Suponho que a ênfase da teologia reformada na soberania divina não permita qualquer terminologia que "supostamente" venha a lançar suspeitas sobre esta soberania. Aqui encontro um ponto onde vejo um erro histórico de calvinistas ao conceberem a doutrina da soberania divina. Soberania é praticamente sinônimo de determinismo/fatalismo no calvinismo. É claro que muitos calvinistas não afirmam abertamente o determinismo/fatalismo, contudo há no calvinismo uma estrutura filosófico-teológica bem estabelecida que, no meu entendimento, conduz para este caminho quando levada na ponta da caneta.

A soberania para arminianos e para muitos não calvinistas não implica em determinismo. Parafraseando Roger Olson, Deus é tão soberano na teologia arminiana que ele exerce soberania limitando a sua própria vontade. Caso Deus não fosse soberano sobre a sua própria vontade seríamos levados a conceber que Deus realmente desejou o pecado e o inferno para a humanidade. Porém, na teologia arminiana o exercício da soberania de Deus faz com que ele soberanamente permita a liberdade do agente humano na concorrência divina. A liberdade é um verdadeiro ato amoroso de um Deus soberano!

Uma visão determinista de soberania leva o jugo de admitir explicitamente que Deus quis e ordenou toda dor e sofrimento no qual nos encontramos. Obviamente, tudo isto é muito bem encoberto no véu da "vontade secreta" de Deus. O livre-arbítrio do ser humano em nada agrava ou afeta a doutrina da soberania de Deus. Deus nada perdeu ao dotar as suas criaturas feitas a sua imagem e semelhança com o livre-arbítrio. Aliás, o único livre-arbítrio possível é aquele que o Deus soberano nos deu. Eis aqui outra questão, um Deus soberano não tem o direito de dar e distribuir os seus dons conforme o seu querer? Podemos replicar a Deus se ele fez o homem livre para decidir livremente?

Calvinistas querem impor que a única forma de entender aceitavelmente a doutrina da soberania é a sua. Nesta finalidade de impor a sistemática reformada a toda cristandade poucos refletem sobre as consequências hermenêuticas e filosóficas desta soberania. Não estou dizendo que calvinistas sejam intelectualmente despreparados ou desonestos, estou afirmando que o apreço que possuem a esta doutrina não os leva a refletirem imparcialmente. Ao meu ver, a soberania na visão reformada-calvinista é aprendida mais por "osmose" do que por reflexão. A exposição metódica a esta doutrina, quase a um nível de "mantra" teológico, é a chave do seu sucesso.

Este é um breve escrito que não tem objetivo acadêmico de uma exposição ordenada ou sequer é relevante academicamente para descrever a doutrina da soberania nos dois sistemas soteriológicos. Quero apenas salientar que a auto-limitação divina é necessária para uma teologia saudável e qualquer teologia que disserte sobre a soberania de Deus e faça algum agravo a auto-limitação divina está descaracterizando a própria soberania de Deus em pelo menos dois casos, a criação e a encarnação.