sábado, 1 de fevereiro de 2014

As Opiniões dos Remonstrantes em 1618 com um Memorial a Jacó Armínio


A. A opinião dos Remonstrantes sobre o primeiro artigo que trata do decreto da Predestinação

 

1.  Deus não decretou eleger alguns à vida eterna ou reprovar alguns da mesma antes de ter decretado a criação destes homens, sem qualquer consideração da obediência ou desobediência precedente, segundo a sua boa vontade para demonstração da glória da sua misericórdia e justiça ou do seu absoluto poder e domínio.

2. Visto que o decreto de Deus a respeito da salvação e da perdição de cada homem não é um decreto de fim absolutamente determinado, segue que nenhum destes meios são subordinados ao mesmo decreto pelo qual o eleito e o réprobo podem ser eficazmente e inevitavelmente levados ao seu destino final.

3. Portanto, não foi com este propósito que Deus criou no único homem Adão todos os homens num estado de retidão, não ordenou a queda ou a sua permissão, não retirou de Adão a graça necessária e suficiente, não faz com que o Evangelho seja pregado e que os homens sejam exteriormente chamados, não deixa de dar certos dons do Espírito Santo que por meio dos quais Ele levaria alguns a vida eterna e priva outros do benefício da vida, Cristo, o Mediador, que não é apenas o executor da eleição, mas também o fundamento do próprio decreto da eleição. Assim sendo, a razão pela qual alguns homens são eficazmente chamados, justificados, perseveram na fé e são glorificados não é porque foram absolutamente eleitos para a vida eterna; também não é a razão pela qual outros são deixados em queda, não lhes sendo Cristo dado, ou ainda porque não são eficazmente chamados, permanecendo endurecidos e condenados por estarem absolutamente reprovados da vida eterna.

4. Deus não decretou, sem a ocorrência de pecados atuais, deixar a maior parte dos homens em queda e excluídos de toda esperança de salvação.

5. Deus ordenou que Cristo fosse a Propiciação pelos pecados de todo o mundo, e em virtude deste decreto Deus determinou justificar e salvar aqueles que creem nele, administrando aos homens os meios necessários e suficientes para a fé, do modo que Ele compreende estar em harmonia com a sua sabedoria e justiça.  Mas Ele de modo algum determinou, por virtude de um decreto absoluto, dar a Cristo como Mediador apenas ao eleito e através de um chamado eficaz lhe conceder exclusivamente fé, justiça, perseverança na fé e glorificação.

6. Ninguém é reprovado da vida eterna e dos meios suficientes para alcançá-la por algum decreto absoluto antecedente, assim sendo, os méritos de Cristo, o chamado, e todos os dons do Espírito, são capazes de beneficiar a todos os homens para a sua salvação, e realmente beneficiam a todos os homens a não ser que por um abuso destas bênçãos eles as pervertam para a sua própria destruição. Porém, nenhum homem está predestinado à descrença, impiedade ou a prática do pecado, como meios e causas da sua condenação.

7. A eleição de determinadas pessoas é definitiva, a partir da consideração da sua fé em Jesus Cristo e da sua perseverança, mas nunca sem considerar a fé e a perseverança na verdadeira fé como condição prévia para a sua eleição.

8. A reprovação da vida eterna é feita segundo a consideração da descrença precedente e da perseverança na mesma, mas nunca sem considerar a descrença precedente e a perseverança nela.

9. Todos os filhos de crentes estão santificados em Cristo, de modo que nenhum deles que deixar esta vida antes do uso da razão perecerá. Assim, nenhum dos filhos de crentes que deixar esta vida em sua infância e antes de cometer qualquer pecado atual deve ser contado entre os réprobos! Portanto, nem o sagrado lavar do batismo ou as orações da Igreja são meios capazes de beneficiá-los com a salvação.

10. Nenhum dos filhos de crentes que foram batizados em nome do Pai, do Filho, e do Espírito Santo, vivendo no estado de infância são contados entre os réprobos por um decreto absoluto.

B. A opinião dos Remonstrantes sobre o segundo artigo que trata da universalidade do mérito da morte de Cristo

 

1.  O preço da redenção que Cristo ofereceu ao seu Pai é, em e de si mesma, não só suficiente para a redenção de toda a raça humana, mas ela também foi paga por todos os homens e por cada homem, segundo o decreto, a vontade, e a graça de Deus Pai; por isso ninguém está absolutamente excluído da participação nos frutos da morte de Cristo por um absoluto e antecedente decreto de Deus.

2. Cristo, pelo mérito da sua morte, reconciliou Deus Pai com toda a raça humana, por conta disso o Pai pode e quis, sem prejuízo para a sua justiça e verdade, fazer e confirmar uma Nova Aliança da graça com os pecadores e homens passíveis de condenação.

3. Apesar de Cristo ter merecido por todos os homens e cada homem a reconciliação com Deus e perdão dos pecados, ainda assim, segundo o pacto da nova e graciosa Aliança, nenhum homem é feito verdadeiro participante dos benefícios adquiridos pela morte de Cristo a não ser pela fé, nem são os delitos e ofensas dos pecadores perdoados antes deles realmente e verdadeiramente crerem em Cristo.

4. Somente aqueles por quem Cristo morreu são obrigados a crer que Cristo morreu por eles. Mas aqueles que são chamados de réprobos e por quem Cristo não morreu, não podem ser obrigados a crer nisto, nem podem ser justamente condenados pela sua incredulidade; mas se foram reprovados, então seriam obrigados a crer que Cristo não morreu por eles.

C. A opinião dos Remonstrantes sobre o terceiro e quarto artigos que tratam da graça de Deus e da conversão do homem

 

1.  O homem não tem, por e de si mesmo, a fé salvífica e nem a tem pelos poderes do seu próprio livre-arbítrio porque no seu estado de pecado ele é incapaz de, e por si mesmo, pensar, querer ou fazer algo que seja bom, nada que seja salutarmente bom, a qual primeiramente é a fé salvífica. Mas é necessário que por Deus, em Cristo, através do seu Espírito Santo, ele seja regenerado e renovado em seu intelecto, afeições, vontade e em todas as suas forças, a fim de que ele seja capaz de corretamente entender, meditar, querer e consumar estas coisas que são salutarmente boas.

2. Afirmamos que a graça de Deus é o princípio, o progresso e a consumação de todo o bem, de modo que nem mesmo um homem regenerado não é capaz sem esta precedente, preveniente, excitante, prosseguinte e cooperante graça, pensar, querer, ou terminar qualquer bem, ou resistir a quaisquer tentações para o mal. Por isso, todas as boas obras e boas ações que qualquer um é capaz de conceber, são atribuídas à graça de Deus.

3. Ainda assim, não cremos que todo zelo, cuidado, estudo e todos os esforços que são empregados para obter a salvação, antes da fé e do Espírito de renovação, são vãos e inúteis; menos ainda cremos que tudo isto é mais prejudicial ao homem do que benéfico. Pelo contrário, afirmamos que ouvir a Palavra de Deus, lamentar o pecado cometido, e sinceramente buscar e desejar a graça salvífica e o Espírito de renovação (nada disto o homem é capaz de fazer sem a graça divina) não é prejudicial ou vão, mas isto é bastante útil e extremamente necessário para a obtenção da fé e do Espírito de renovação.

4. A vontade do homem num estado de lapso ou de queda, e antes do chamado de Deus, não possui a capacidade e a liberdade de querer qualquer bem que seja de natureza salvífica e, portanto, negamos que a liberdade de querer tanto o que é salutarmente bom como o que é mal esteja presente na vontade humana em algum estado ou condição.

5. A graça eficaz, pela qual qualquer homem é convertido, não é irresistível; embora Deus influencie a vontade do homem pela sua Palavra e pela operação interna do seu Espírito, lhe conferindo a capacidade de crer ou poder espiritual, que realmente o faz crer, mesmo assim o homem é capaz de desprezar e rejeitar esta graça e não crer e, portanto, perecer por sua própria culpa.

6. Mesmo que, segundo a libérrima e irrefreável vontade de Deus haja uma grande disparidade ou desigualdade da graça divina, ainda assim o Espírito Santo quer conceder, ou está disposto a conceder, a todos e a cada um a quem a Palavra da fé é pregada, tanta graça o quanto for suficiente para gradualmente promover a conversão dos homens. Portanto, a graça suficiente para a fé e conversão é concedida não somente aqueles a quem Deus diz estarem desejosos para a salvação segundo o seu decreto de eleição absoluta, mas também aqueles que não são convertidos.

7. O homem é capaz, pela graça do Espírito Santo, de fazer mais bem do que ele realmente faz, e evitar mais mal do que ele realmente evita. Tampouco cremos que Deus simplesmente não quer que o homem faça mais bem do que ele faz e evite mais mal do que ele evita, nem cremos que Deus decretou deterministicamente desde toda a eternidade que cada um destes atos seria feito ou evitado.

8. Aqueles a quem Deus chama para a salvação, Ele os chama seriamente, isto é, com uma intenção sincera e não fingida de salvá-los. Tampouco subscrevemos a opinião daquelas pessoas que afirmam que Deus exteriormente chama certos homens que não serão chamados interiormente, isto é, aqueles que Ele não quer que sejam verdadeiramente convertidos, antes mesmo de rejeitarem a graça do chamado.

9. Não há em Deus uma vontade secreta que contraria a sua vontade revelada na Palavra, que segundo esta vontade secreta Ele não queira a conversão e salvação daqueles a quem, pela Palavra do Evangelho e por sua vontade revelada, Ele seriamente chama e convida para a fé e salvação.

10. Sobre este ponto não admitimos uma dissimulação santa, como é o costume de alguns homens falarem, ou de uma dupla personalidade na Deidade.

11. Não é verdade que todas as coisas – tanto as boas como as más – necessariamente acontecem por força e eficácia da vontade secreta de Deus ou do seu decreto, de modo que todos aqueles que pecam, não são capazes de pecar sem o decreto de Deus. Muito menos que Deus deseja, decreta, e é o administrador dos pecados dos homens, de suas insanidades, loucuras e atos cruéis, também da blasfêmia sacrílega do seu próprio nome, que Ele move a língua dos homens à blasfêmia, etc.

12. Afirmamos também ser um falso e horrível dogma: que Deus por meios secretos impele os homens a cometerem aqueles pecados que Ele abertamente proíbe; que aqueles que pecam não agem em oposição à verdadeira vontade de Deus propriamente dita; que aquilo que é injusto (isto é, aquilo que é contrário aos seus preceitos) é agradável a sua vontade; ou, melhor ainda, que isto é verdadeiramente um crime capital contra a vontade de Deus.

D. A opinião dos Remonstrantes sobre o quinto artigo que trata da Perseverança dos verdadeiros crentes na fé

 

1.  A perseverança dos crentes na fé não é o efeito de um decreto absoluto de Deus, pelo qual Ele elegeu ou escolheu algumas pessoas em particular sem levar em consideração a sua obediência.

2. Deus provê aos verdadeiros crentes poderes sobrenaturais ou a força da graça o quanto Ele julga ser, segundo a sua infinita sabedoria, o suficiente para sua perseverança e para vencerem as tentações do diabo, da carne, e do mundo. Portanto, da parte de Deus não há nada que os impeça de perseverar.

3. Os verdadeiros crentes podem cair da verdadeira fé e podem cair em pecados que não são condizentes com a verdadeira e justificante fé. Isto não é somente possível acontecer, mas isto ainda acontece com frequência.

4. Os verdadeiros crentes são capazes de cair por sua própria culpa em infames e atrozes maldades, de perseverarem e morrerem nelas, e assim finalmente caírem e perecerem.

5. Tampouco cremos que os verdadeiros crentes, embora possam às vezes cair em pecados graves, que destroem a consciência, estejam imediatamente sem qualquer esperança de arrependimento; mas reconhecemos que não é impossível de acontecer que Deus, segundo a multidão das suas misericórdias, possa os chamar novamente pela sua graça ao arrependimento. Além do mais, somos de opinião que isto acontece frequentemente, embora estes crentes caídos não possam estar “mais plenamente convencidos” sobre este assunto que certamente e indubitavelmente acontecerá.

6. Portanto, rejeitamos os seguintes dogmas com todo o nosso coração e alma, os quais são diariamente afirmados em várias publicações amplamente difundidas entre as pessoas, a saber, que: 1) “Os verdadeiros crentes não são capazes de pecar deliberadamente, mas só por ignorância e fraqueza”. 2) “Os verdadeiros crentes por nenhum dos seus pecados podem cair da graça de Deus”. 3) “Milhares de pecados, até todos os pecados do mundo inteiro, não são capazes de tornar a eleição inválida”. Se a isto for acrescentado: “Os homens de todos os tipos estão obrigados a crer que eles são eleitos para a salvação e, portanto, são incapazes de cair desta eleição”. Deixaríamos os homens pensando que uma grande janela deste dogma se abre para uma segurança carnal. 4) “Não há pecados, quer grandes e graves, que sejam imputados aos crentes; mas todos os seus pecados presentes e futuros já foram perdoados”. 5) “Os verdadeiros crentes caindo em heresias destruidoras, nos mais graves e atrozes pecados, como adultério e homicídio, em virtude dos quais a Igreja, segundo a instituição de Cristo, é compelida a testemunhar que ela não pode os tolerar em sua comunhão exterior, e que a menos que estas pessoas se convertam, elas não terão parte no Reino de Cristo; no entanto, é impossível a eles caírem totalmente e finalmente da fé”.

7. Visto que um verdadeiro crente é capaz de agora estar seguro em relação à integridade da sua fé e consciência, assim também ele é capaz de agora ter a certeza da sua própria salvação e da boa vontade salvífica de Deus para com ele. Sobre este ponto rejeitamos totalmente a opinião dos papistas.

8. Um verdadeiro crente, realmente, pode e deve ter a certeza futura que ele é capaz – por uma vigília diligente, pelas orações, e por outros exercícios santos – de perseverar na verdadeira fé, e que a graça de Deus jamais faltará para que ele persevere. Mas não entendemos como é possível a ele ter a certeza, mais adiante, que jamais será negligente em seu dever, mas que perseverará na fé e naquelas obras de piedade e amor que são apropriadas aos crentes nesta escola de milícia cristã; também não julgamos necessário que um crente deva ter certeza desta perseverança.

E. A opinião dos Remonstrantes sobre a Trindade

 

1.  Deus deve ser considerado distintamente em três pessoas ou substâncias, como Ele mesmo as tem expressado na sua Palavra, pois assim deve ser conhecido e contemplado por nós. Esta Trindade de pessoas é conhecida por nós como: Pai, Filho, e Espírito Santo. Uma destas pessoas divinas ou hipóstases da Deidade é ἀναίτιος (anaitios), isto é, sem causa e ingerada. A outra tem a sua causa ou é gerada pelo Pai, a saber, o unigênito do Pai. E também a outra igualmente procede e emana do Pai pelo Filho.

2. Porém, só o Pai é desprovido de origem ou ingerado. No entanto, Ele tem comunicado desde toda eternidade a sua própria Deidade ao seu Filho unigênito, feito Filho, não por criação, como os anjos foram feitos filhos de Deus, nem meramente por uma graciosa comunicação de poder divino ou glória como ser mediador, mas por uma real geração, embora secreta e inefável, e também ao Espírito Santo, que desde toda eternidade, tem procedido  de ambos por uma secreta emanação ou espiração. Portanto, o Pai é mais corretamente considerado a fonte e a origem de toda Deidade.

3. Portanto, o Filho e o Espírito Santo, em relação ao seu ser ou substância, são verdadeiramente distintos do Pai. Todavia, são verdadeiramente participantes da mesma Deidade e também pela mesma essência Divina distintos do Pai, isto se torna mais evidente quando as Sagradas Escrituras lhes dão os mesmos nomes, e lhes atribuem as mesmas propriedades que as do Pai. Por isto, o Credo dos Apóstolos sobre este assunto, que cordialmente cremos, e todas as declarações que adotamos, diz: “[Cremos] em Deus Pai, todo-poderoso, Criador do céu e da terra. E em Jesus Cristo. Seu único Filho, etc. [Cremos] no Espírito Santo, etc.”

4. As declarações acima são suficientes em relação a este santo mistério, assunto que sempre julgamos conveniente e apropriado tratar com modéstia, prudência, e reverência religiosa. Também julgamos ser mais seguro de nos expressar, tanto quanto for possível, sobre este assunto nas mesmas palavras, e segundo o modo e frases que nos apresenta o próprio Espírito Santo, visto que o próprio Espírito de Deus conhece melhor a si mesmo, e também é mais capaz de afirmar e expressar a respeito da sua própria natureza e ser, na medida em que foi necessário ser declarado e revelado, aprouve-lhe nos revelar. Portanto, nos é especialmente conveniente, que com reverência, humildade, e religiosidade, sigamos o modo que nos foi apresentado de falar sobre este assunto, até que sejamos permitidos a ver Deus face a face, quando na glória deste mundo celestial, Ele perfeitamente se fará conhecido a nós, entre visões claras e manifestações do ser e vontade.

Fim

Memorial a Jacó Armínio – Simão Episcópio, D.D. 1623

 

Este servo de Deus, Armínio, a fim de estar aprovado diante de Deus, escolheu suportar o ódio e a contradição de toda a humanidade, antes de violar a sua consciência. Ele hasteou a todo o mundo cristão a insígnia da paz e da concórdia, e desejou iniciar isto nas Igrejas Reformadas. Sendo um homem prudente e de espírito brando, percebeu que estas igrejas estavam dispersas e separadas umas das outras de várias formas, e até agora não se observou medida alguma para acabar com estas dissensões. Portanto, os seus esforços foram usados para induzir as partes contenciosas a pôr de lado a animosidade, e cantar um cântico fúnebre sobre as suas inimizades e disputas desnecessárias. Este era o plano de Armínio: que todos os esforços fossem empregados a fim de se fazer um relato acurado destas doutrinas que são absolutamente desnecessárias, e que cada uma das partes se confine dentro destes limites; que, em relação a todo o resto, tudo o que fosse tolerável, ou que não dificultasse a salvação, recebesse tolerância; que a regra da Prudência e Caridade, por si só, fosse suficiente para este propósito; e que, sem estas coisas, a contínua contenda e ódio seriam perpetuados, os quais fariam as lágrimas da Igreja fluíssem novamente. Armínio persistiu nisto até o fim da sua vida, este plano se tornou uma fonte de dor e tristeza para ele, em virtude da resistência obstinada daqueles que deveriam ter se mostrado mais favoráveis a este plano. Se isto foi louvável ou não, deixemos que eles se julguem afetados pela comiseração à vista de toda a cristandade dividida em minúsculos partidos: eu me rio, sem dúvida, disto ter um propósito piedoso.

Armínio era tão grande admirador e praticante da direção apostólica, “Seja a vossa moderação conhecida de todos os homens.”, (Fl 4.5) que sempre se mostrou indulgente em expressões amargas ou injuriosas. Ele nunca será pego difamando, muito menos incitando o ódio e caluniando, ou injuriando por uma palavra sequer aqueles a quem Capellus chama de “os reformadores”. Na verdade, ninguém jamais discordou deles com tamanha moderação. Que os escritos de Armínio sejam examinados, e que a minha afirmação seja encontrada correta. Esta era, de fato, a modéstia deste homem piedoso e instruído, que considerava que todos os erros, especialmente aqueles que demonstrou serem injuriosos à piedade, deveriam ser atacados com ousadia e segundo o pensamento dos seus autores; porém, que os próprios errantes deveriam ser tratados com brandura e segundo a mente de Cristo Jesus. Visto ele saber, o quão fácil é cometer algum erro, o quão injusto é disciplinar com opróbio aquele que está no erro, o quão desagradável é falar mal de um homem piedoso, e o quão isto é necessário para um cristão, e particularmente a um bispo, não ser violento, mas paciente (1Tm 3.3),  gentil para com todos os homens, apto para instruir com mansidão aqueles que lhe opõem (2Tm 2.24). Tal foram os seus sentimentos, tal foi a sua conduta – muito contrária às vergonhosas artes que Capellus emprega!

Armínio era tão avesso a uma nova Confissão quanto era de um cisma. Estas coisas que ele considerava como desiderata (desejáveis) na Igreja, deveriam ser corrigidas pela Igreja e dentro dela mesma; Armínio pensava que estas coisas poderiam ser alteradas com maior eficiência e segurança. Ele não esperava um remédio das novas confissões, na verdade, temia angústias ainda mais perigosas. Aderir somente as Escrituras; ou tolerar algumas frases impróprias afirmadas em qualquer confissão, unicamente por um ódio do cisma, e também reconciliá-las com a Escritura com o benefício de uma leve interpretação, ou corrigi-las com o auxílio de revisões lícitas – era, em sua opinião, uma direção muito melhor do que dispender trabalho em novas confissões que poderiam servir para fomentar cismas. Pois como um homem prudente ele percebeu, nesta época frutífera em contendas e disputas, a consequência mais comum é que onde novas confissões são escritas, os corações dos homens se dividem e se distraem por causa das suas opiniões diferentes. – Em nenhum momento da sua vida ele afirmou, muito menos contestou, que o artigo sobre a Predestinação nas Confissões Holandesas era falso ou que apresentava evidentes marcas de falsidade, que continha heresias ou que sobejava delas, muito menos que ele abundava numa multidão de heresias. Como prova irrefutável disto pode-se declarar, que Armínio sempre se esforçou para acomodar os seus sentimentos com vários e fortes argumentos da própria Confissão Holandesa; ele professou que estava preparado para se retirar do ministério, se em algum momento, seja em secreto ou em público, tivesse falado ou escrito qualquer coisa contrária a esta fórmula. Armínio sempre negou que os sentimentos os quais combatia eram aqueles da Confissão. Ele dizia que combatia os sentimentos de alguns teólogos em particular, dos quais ele era perfeitamente livre para discordar.

Armínio nunca disse que toda a raça humana foi, ao mesmo tempo, reconciliada e curada pela satisfação de Cristo. Ele era um homem de grande acurácia para falar algo desse tipo. Ele disse que a humanidade foi reconciliada pela satisfação de Cristo: Mas quem, exceto um tolo, diria que eles foram curados? Armínio apenas ensina que Deus, por causa de Cristo, concede aqueles que lhe são reconciliados através de Cristo, uma nova potência (capacidade), quando são chamados pelo Evangelho, a fim de que possam ser capazes de se libertarem da sua servidão, desde que usem diligentemente esta capacitação, não a queiram para si mesmos senão para a graça de Deus. Pois bem, Armínio ensina isto, ensina uma doutrina contrária a que Capellus deseja. Para este homem que nos ensina, aqueles que são reconciliados ainda estão sob a servidão do pecado, mas que, com auxílio da graça recém-concedida, é possível ser gradualmente curado de sua servidão. Porque uma coisa é dar a capacidade para qualquer um, pela qual tal pessoa pode sair da sua servidão; porém, outra coisa é sair verdadeiramente da servidão, ou ser curado dela.

As pessoas que viveram com Armínio, e que como diz a frase, comeram um saco de sal em sua companhia, podem dar testemunho da sua sinceridade e integridade. A França, seu país, nunca produziu um espírito dotado de tão grande integridade. A menos que ele tivesse sido estudioso destas virtudes, ele jamais teria incorrido na chance de tanto ódio, não se submetendo ao perigo de tal obstinada contradição. Se ele ocasionalmente se usou da prudência, a partir de um grande respeito a sua própria consciência e da paz pública, ele não fez nada mais além do dever de um bom homem e cristão. Ele podia fazer isto, e realmente fez, sem qualquer desejo de enganar ou, melhor ainda, o fez com o desejo de se aprovar mais diante de Deus, o único que sonda o interior dos corações, e que sabe que um hipócrita é mais detestável que um homem abertamente ímpio. Pois quando um homem mau quer se aparecer como um homem bom, ele é então o pior de todos os homens.

Qual seria o desejo mais aberto, sincero e enérgico do que a Declaração de Armínio diante dos estados da Holanda? Gostaria que os seus adversários tivessem, com a mesma franqueza e ingenuidade, declarado os seus sentimentos sobre a Reprovação, na Conferência de Haia, e mais recentemente no Sínodo de Dort! Mas se alguma vez estas pessoas foram dissimuladas, ou se recusaram a revelar os seus sentimentos, estas foram certamente os membros destas duas assembleias. Na verdade, esta é uma ocorrência comum – quando um homem percebe ser culpável de algum crime, ele rapidamente o descarrega sobre os outros, a fim de que pareça estar na maior distância possível do mesmo.

Portanto, concluo dizendo que Armínio agiu em todas as coisas com perfeita boa fé e sinceridade; que ele abertamente professou a doutrina a qual acreditava; que segundo a sua própria declaração, ele sempre espertamente acreditou que esta doutrina era contrária as fórmulas das Igrejas; que ele nunca condenou as fórmulas; e que ele nunca divulgou, exceto na assembleia dos Estados e ao seu comando, as considerações que ele havia sublinhado segundo o decreto do Supremo Magistrado e a pedido do Sínodo. Assim sendo, Capellus sem qualquer causa justa, lamenta a ausência de sinceridade neste homem muito sincero. – Examen Thesium I. Capelli



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