segunda-feira, 10 de março de 2014

Os Arminianos São Necessariamente Sinergistas?

Por Matthew Pinson

Recentemente li numa postagem no blog do Roger Olson sobre como uma pessoa não precisa concordar com Armínio para ser um arminiano. A postagem pode ser lida aqui.[1]

Olson pontuou muitas coisas boas no artigo, ele certamente está correto em sua principal afirmação que alguém pode discordar de pontos delicados de Armínio e ainda assim ser um Arminiano. Apesar do seu desejo de cavar um lugar para teístas abertos no campo arminiano, o que obviamente seria muito problemático para Armínio, a sua postagem é boa e instigante. Concordo especialmente com a sua opinião de que o molinismo é inconsistente com o arminianismo.

Entretanto, a principal coisa que me chamou atenção no ensaio de Olson foi o seu comentário sobre as visões a respeito de Armínio ser um tipo de “evangélico sinergista” (um termo emprestado de Donald Bloesch). Ele diz, mais de uma vez, que anabatistas como Baltasar Hubmaier e Menno Simons foram percursores de Armínio em seu “sinergismo evangélico”.

Eu costumava pensar na mesma linha. Um dos meus primeiros artigos publicados tinha o título “Um Batista Livre-Arbítrio na Reforma”, era sobre o anabatista do século XV Baltasar Hubmaier – este grande anabatista que praticou o lava-pés, batizou crentes, afirmou o livre-arbítrio libertário e que também tinha uma visão sobre igreja e estado muito mais parecida com Thomas Helwys e os batistas ingleses do século seguinte do que os principais anabatistas do seu próprio século.

Mas quando fazia um trabalho de doutorado sobre a soteriologia dos primeiros batistas, John Smyth e Thomas Helwys, para o professor Richard Greaves da Universidade do Estado da Flórida, comecei a ver uma diferença entre o sinergismo de John Smyth, que se tornou soteriologicamente um menonita, e as visões muito mais orientadas na graça de Thomas Helwys. Ele se separou de Smyth em grande parte depois dele ter abraçado a visão menonita e ter deixado uma visão mais reformada de pecado original e justificação pela imputação da justiça de Cristo.

Helwys nunca quis ser chamado de sinergista. Ele queria evitar qualquer alusão de cooperação ou colaboração com Deus na salvação. Ele mesmo não gostava do termo livre-arbítrio! Então, comecei a perceber, em grande parte pela obra de Alvin Beachy The Concept of Grace in the Radical Reformation, que as noções anabatistas de graça, incluindo as de Hubmaier, Menno e Smyth foram semi-pelagianas, ao contrário das noções de Helwys e Jacó Armínio.[2]

Passei, então, a fugir da palavra sinergismo e comecei a crer que pensadores como Armínio e Helwys, que davam uma ênfase muito mais graciosa em suas soteriologia, nas doutrinas da depravação e incapacidade humana que os anabatistas, teriam feito o mesmo.

Recentemente me deparei com o livro, Jacob Arminius: Theologian of Grace, que afirma que o próprio Armínio era um sinergista. Os autores, Thomas McCall e Keith Stanglin, dizem que: “Alguns estudiosos negam que Armínio seja um ‘sinergista’, ainda que a sua definição de graça subsequente seja precisamente ‘sinergistica’, a qual é simplesmente o equivalente grego de ‘cooperativa’ (derivado do latim).” Seu principal culpado, a quem eles citam na nota, sou eu.[3]

Assim como o meu colega do Welch College, Robert Picirilli, não acho que Armínio chamou a si mesmo ou nunca teria chamado a si mesmo de sinergista por causa das implicações semi-pelagianas do termo. Isso implicaria que as pessoas estariam operando junto de Deus para obterem a sua salvação. Stanglin e McCall citam Agostinho alguns parágrafos depois, usando a mesma linguagem de graça subsequente cooperante como Armínio usava. O uso de Armínio desta mesma frase não o torna um “sinergista”, ele não ficaria confortável em tudo com o termo.

Eu diria de Armínio o que Gregory Graybill diz do sócio de Martinho Lutero, Phillipp Melanchthon, em sua recente monografia Evangelical Free Will. A conversão para Melanchthon, insiste Grybill, “era uma recepção passiva do mérito, ao invés de uma ativa obra cooperativa que ganharia o mérito. Isto não é sinergismo!” Graybill distingue a visão de Melanchthon da visão de Pedro Lombardo, a qual “requeria que Deus e o homem operassem juntamente num sinergismo.” Assim como é injusto que teólogos luteranos atribuam um termo a Melanchthon que foi rapidamente associado com os seus seguidores, é ainda mais injusto rotular Armínio com um termo que ele mesmo não o empregou e que era estranho ao seu contexto teológico.[4]

Stanglin corretamente repreende estudiosos pela importação de categorias dogmáticas descontextualizadas para a sua compreensão de Armínio, as quais estão distantes do seu contexto. Porém, eu acho que rotular Armínio com a designação “sinergista”, quando isto estava tão distante das suas próprias categorias e terminologia teológica reformada, é descontextualizar o pensamento de Armínio.

Acho que a abordagem de Picirilli e Arthur Skevington Wood é preferível: que a visão de Armínio não representa “uma forma de sinergismo no qual a obra de Deus e a obra do homem cooperam, mas sim uma relação na qual a vontade e a obra de Deus dentro do homem [são] bem-vindas numa atitude de confiança e submissão”[5]. Armínio ficaria muito mais confortável com a linguagem usada pelo meu colega do Welch College, Leroy Forlines, que no seu livro Classical Arminianism, usa a terminologia “monergismo condicional” ao invés de sinergismo.[6] Esta abordagem é compartilhada por estudiosos de Armínio como Carl Bangs e William den Boer, bem como o estudioso de Episcópio, Mark Ellis. [7]

Esta mesma linha de pensamento é seguida por estudiosos como os professores do Southeastern Seminary, Kenneth Keathley e Jeremy Evans, e de Notre Dame professor Richard Cross. Em vários escritos, estes senhores fazem uso do “monergismo com resistibilidade da graça.” Tanto Evans quanto Keathley encerram o argumento de Richard Cross, em seu artigo “Anti-Pelagianism and the Resistibility of Grace.”[8]

Cross pergunta: “Suponha que adotemos... que não possa haver cooperação humana ativa na justificação. Será que esta posição requer que aceitemos a irresistibilidade da graça?” (Evans, 260). Cross, junto com Keathley e Evans, acha que não. Evans chama isto de “monergismo com resistibilidade da graça.” Keathley e Evans citam o “modelo ambulatorial” de Cross, segundo o qual o pecador é como uma pessoa inconsciente que é resgatada por paramédicos e acorda numa ambulância, ele não resiste às ações médicas para salvar a sua vida.

Essa tentativa de manter uma postura de livre-arbítrio libertário sobre a soberania divina e liberdade humana enquanto evita-se a noção de sinergismo me lembra do desejo de Armínio em manter “a maior distância possível do pelagianismo.”[9] Evans observa que esta abordagem significa que “a única contribuição que a pessoa faz não provém de uma condição pessoal positiva, como as vertentes do pelagianismo e semi-pelagianismo mantém”, porque a salvação é “operada por Deus” (Ef 2.8-9). Então, as pessoas não “se puxam pelo seu próprio esforço.” Em vez disso, a fé salvífica é um “dom livremente dado dos Céus e não reside em alguma capacidade natural da pessoa” (Fp 1.28-29). Além disso, Evans defende, afirmando o monergismo juntamente com a graça resistível, que isto nos “ajuda a entender como Deus deseja que ninguém pereça” (1Tm 2.3) (Evans, 261).

Portanto, acho que é uma boa ideia que arminianos encontrem um modo de evitar a terminologia do sinergismo. Acho que estudiosos como Forlines, Picirilli, Wood, Bangs, den Boer, Ellis, Cross, Keathley e Evans tem bons motivos para quererem ficar longe dela. Também acho que Armínio (e Helwys) teria concordado.






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[1] http://www.patheos.com/blogs/rogereolson/2013/11/must-one-agree-with-arminius-to-be-arminian/
[2] Beachy, The Concept of Grace in the Radical Reformation (Nieuwkoop: B. De Graaf, 1977).
[3] Stanglin and McCall, Jacob Arminius: Theologian of Grace (New York: Oxford UP, 2012), 152-53.a
[4] Graybill, Evangelical Free Will: Phillipp Melanchthon's Doctrinal Journey on the Origins of Faith (Oxford: Oxford UP, 2010), 297.
[5] Picirilli aprovando a citação de Wood em Grace, Faith, Free Will (Nashville: Randall House, 2002), 162. Veja Wood, “The Declaration of Sentiments: The Theological Testament of Arminius,” Evangelical Quarterly 65 (1993), 111-29.
[6] F. Leroy Forlines, Classical Arminianism: A Theology of Salvation (Nashville: Randall House, 2011), 264, 297.
[7] Bangs, “Arminius and Reformed Theology” dissertação de doutorado, University of Chicago, 1958 (onde afirma ousadamente, “Armínio era um monergista” [166]); den Boer, “‘Cum delectu’: Jacob Arminius’s Praise for and Critique of Calvin and His Theology,” Church History and Religious Culture 91 (2011), 83-84; veja também den Boer, God’s Twofold Love: The Theology of Jacob Arminius (Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 2010); Ellis, Simon Episcopius’ Doctrine of Original Sin (New York: Peter Lang, 2006), 84. Essa perspectiva coincide com o que Richard Muller disse num trabalho anterior: “É difícil rotular [essa abordagem de Armínio] de sinergismo” (Muller, “The Priority of the Intellect in the Soteriology of Jacobus Arminius,” Westminster Theological Journal 55 [1993], 70. Porém, num artigo mais recente Muller caracteriza Armínio como um sinergista: “Arminius and the Reformed Tradition,” 29).
[8] Cross, “Anti-Pelagianism and the Resistibility of Grace,” Faith and Philosophy 22 (2005), 199-210; Keathley, Salvation and Sovereignty: A Molinist Approach (Nashville: B&H Academic, 2010), 88, 103-08; Evans, “Reflections on Determinism and Human Freedom,” em Whosoever Will: A Biblical-Theological Critique of Five-Point Calvinism (Nashville: B&H Academic, 2010), 253-74; cf. Kevin Timpe, “Grace and Controlling What We Do Not Cause,” Faith and Philosophy 24 (2007), 284-99.
[9] The Works of James Arminius (Nashville: Randall House, 2007), 1:764.
[10] http://www.welch.edu/blog/view/25/are-arminians-necessarily-synergists

1 comentários:

CassimiroFCN disse...

Parabéns pela postagem. Gostei muito pois parece com a linha que estou adotando, antes mesmo de saber deste pormenores de Armínio.

Que Deus o abençoe.

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