segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Romanos 9:22-23 - Por que Deus suporta os israelitas étnicos incrédulos? Podem os "vasos de ira" tornarem-se "vasos de misericórdia"?

Romanos 9:22-23 - Por que Deus suporta os israelitas étnicos incrédulos? Podem os "vasos de ira" tornarem-se "vasos de misericórdia"?

Por KINGSWOODHART

Esta é parte de uma série de postagens sobre a carta de Paulo aos Romanos.

Tendo considerado Romanos 9.20-21 (sobre o oleiro e o barro), neste post vamos continuar com os versos 22-23:

“Que diremos, pois, se Deus, querendo mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita longanimidade os vasos de ira, preparados para a perdição, a fim de que também desse a conhecer as riquezas da sua glória em vasos de misericórdia, que para glória preparou de antemão,”

Na estrutura de Romanos 9.6-29 (a seção C2-B1), verso 22 corresponde com o verso 17: “Porque a Escritura diz a Faraó: Para isto mesmo te levantei, para mostrar em ti o meu poder e para que o meu nome seja anunciado por toda a terra.” Ambos os versículos se referem a Deus mostrando/dando-se a conhecer o seu poder com o propósito da proclamação das boas novas sobre Deus. Como vimos ao considerar o versículo 17, Deus estava explicando a Faraó porquê Ele ainda não tinha emitido juízo total e completo contra ele, matando-o, que era o que Faraó merecia após a sua rejeição a Deus. Deus explicou que tinha antes mantido Faraó na sua posição de poder e lhe tinha endurecido porque isso causou uma maior disseminação das boas novas sobre Deus, o que foi conseguido através dos grandes milagres/pragas e o êxodo triunfante final do povo de Deus. Isto teve um impacto muito maior do que se Deus tivesse simplesmente matado Faraó imediatamente e depois calmamente conduzido seu povo para fora do Egito.

Por uma razão semelhante, Deus não matou imediatamente os israelitas étnicos incrédulos após a sua rejeição de Cristo, mesmo que este fosse o julgamento completo e merecido. Em vez disso, Deus os manteve no lugar e os endureceu (também um ato de julgamento). O resultado disso foi que os gentios estavam passando a confiar em Cristo seguindo a expansão do evangelho para as nações. Se Deus tivesse matado imediatamente todos os israelitas étnicos que rejeitaram a Cristo, o evangelho não teria se espalhado tão rapidamente, à medida que mais crentes teriam ficado em Jerusalém, em vez de sair para fugir da perseguição. Além disso, isto teria removido a oportunidade para qualquer um desses israelitas étnicos de se arrepender mais tarde e passar a confiar em Cristo. Uma tal pessoa que fez isso foi o próprio Paulo! Outros também fariam isso, como Paulo explica em Romanos 11 (veja abaixo).

Os versículos 22 e 23 de Romanos 9, portanto, explicam que Deus cumpre seu desejo de mostrar a sua ira e tornar conhecido o seu poder, conservando as pessoas que merecem a destruição final para que Ele possa mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu poder através da situação em que Ele os mantém. Seu desejo de mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu poder é um desejo evangélico para fazer as riquezas de sua glória conhecida, assim como o seu desejo na situação com Faraó era um desejo evangélico de ter seu nome anunciado em toda a terra. Ele cumpriu esse desejo, conservando Faraó no lugar para que Ele pudesse mostrar seu poder e ira através dos milagres/pragas e o êxodo.

Os versículos 22 e 23 falam novamente de duas categorias de pessoas: “vasos de ira” e “vasos de misericórdia”. Com relação aos “vasos de ira, preparados para a perdição”. Deus tem os “suportado” “com muita paciência”, como eles são merecedores do julgamento completo agora e a existência contínua deles requer paciência da parte de Deus, permitindo-lhes continuar a pecar. A razão pela qual Deus faz isso é porque ele quer dar “a conhecer as riquezas da sua glória em vasos de misericórdia, que para glória preparou de antemão”. Deus tem uma motivação evangélica ao reter o julgamento completo e final de quem o merece, devido à sua rejeição de Cristo.

Paulo fala mais sobre este processo em Romanos 11, explicando que os gentios vieram à fé, como resultado da rejeição de Cristo pelos israelitas étnicos incrédulos. Em Romanos 11.11, Paulo afirma que “pela sua [isto é, israelitas étnicos descrentes] transgressão, veio a salvação aos gentios”. Além disso, em Romanos 11.30, Paulo afirma que os gentios “alcançastes misericórdia, à vista da desobediência deles [isto é, israelitas étnicos descrentes]”. Deus, portanto, suportou com muita paciência a desobediência dos israelitas étnicos descrentes, e isso resultou nos gentios vindo a conhecer as riquezas da glória de Deus.

Uma questão que Paulo não aborda neste momento em Romanos 9 é se os “vasos de ira, preparados para a perdição” têm alguma esperança de salvação. Todos eles estão destinados a morrer sem se arrependerem e confiar em Cristo, ou ainda existe uma possibilidade para eles crerem? Nós não precisamos especular sobre a resposta desta pergunta, como Paulo continua a responder, ele mesmo, em Romanos 11. No final de Romanos 9.23, Paulo rompe sua linha de pensamento e não responde a esta pergunta. Ele faz isso porque ele vai continuar sobre este tema em Romanos 11.1-32, que é a seção paralela à Romanos 9.6-29 (semelhante à como o próprio Romanos 9 está captando onde Paulo parou na seção paralela de Romanos 3).

Até agora, em Romanos 9, Paulo só começou a considerar os dois primeiros elos de uma corrente de três elos:

1.          Rejeição de Cristo pelos israelitas étnicos incrédulos, resultando em
2.          Aceitação de Cristo pelos gentios

Há um terceiro elo da cadeia explicada em Romanos 11:

3.          Os Israelitas étnicos incrédulos passam a confiar em Cristo, devido à sua inveja dos gentios que aceitaram Cristo

Lendo na citação de Romanos 11.11 como vimos acima, Paulo afirma que “Mas, pela sua transgressão [isto é, dos israelitas étnicos descrentes], veio a salvação aos gentios, para pô-los [isto é, dos israelitas étnicos descrentes] em ciúmes”. Paulo continua a afirmar que “Dirijo-me a vós outros, que sois gentios! Visto, pois, que eu sou apóstolo dos gentios, glorifico o meu ministério, para ver se, de algum modo, posso incitar à emulação os do meu povo e salvar alguns deles” (Romanos 11.13-14). Da mesma forma, Paulo continua em Romanos 11.30-31 a afirmar que “Porque assim como vós [isto é, crentes gentios] também, outrora, fostes desobedientes a Deus, mas, agora alcançastes misericórdia, à vista da desobediência deles [isto é, os israelitas étnicos incrédulos], assim também estes, agora foram desobedientes, para que, igualmente, eles alcançarem misericórdia, à vista da que vos foi concedida.”

Paulo é claro que os israelitas étnicos incrédulos (que são atualmente “vasos da ira, preparados para a perdição”) ainda podem ser salvos.

Os “vasos de ira” e “vasos de misericórdia” estão se referindo a duas categorias de pessoas, mas temos visto a partir de Romanos 11, que é possível para um indivíduo mudar de ser um “vaso de ira” para se tornar um “vaso de misericórdia”. Isso é significativo, uma vez que existem algumas pessoas que consideram que cada pessoa foi escolhida por Deus na eternidade passada para ser de qualquer uma das duas categorias, e que é impossível para qualquer pessoa de qualquer categoria mudar para outra categoria em qualquer momento. Agora vamos ver que, assim como as passagens discutidas acima e no post anterior sobre o versículo 21, há um contexto bíblico adicional que também mostra que esta visão é errada.

Em primeiro lugar, em Romanos 10.1, Paulo fala dos israelitas étnicos que rejeitaram a Cristo e afirma que: “vontade do meu coração e a minha súplica a Deus a favor deles são para que sejam salvos.” Na visão que apresentei acima, estes israelitas étnicos incrédulos são todos “vasos de ira”, mas podem mudar individualmente de categoria para se tornar “vasos de misericórdia” e serem salvos se vierem a se arrependerem e confiarem em Cristo. Assim, faz sentido que Paulo oraria por sua salvação coletivamente, pois qualquer um deles ainda podia ser salvo. Por outro lado, aqueles que são da opinião de que as pessoas não podem alterar as categorias entenderiam que os incrédulos israelitas étnicos que Paulo está orando para incluir algumas pessoas que são “vasos de misericórdia” (aqueles que virão a acreditar em algum momento no futuro) e algumas pessoas que são “vasos de ira” (aqueles que continuarão rejeitando a Cristo até a morte). Seria muito estranho para Paulo acreditar que algumas dessas pessoas são imutavelmente fixas como “vasos de ira” e, em seguida, orar coletivamente para a salvação de todos eles. Em vez disso, é claro que Paulo pensa que essas pessoas podem ser salvas!

Romanos 11.23-24 fala também de israelitas étnicos incrédulos se tornando membros da igreja se não permanecerem na incredulidade, o que é mais uma prova de que Paulo pensa que é possível para qualquer israelita étnico descrente fazer isso.

Além disso, em Efésios 2.1-5, Paulo, falando aos cristãos, diz o seguinte:

“Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados, nos quais andastes outrora, segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe da potestade do ar, do espírito que agora atua nos filhos da desobediência; entre os quais também todos nós andamos outrora, segundo as inclinações da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos, por natureza, filhos da ira, como também os demais. Mas Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, — pela graça sois salvos,”

Paulo diz que todos os cristãos podem olhar para trás para um tempo em que eles eram “filhos da ira”. Isso mostra que as pessoas não estão permanentemente fixas em uma categoria ou outra, porque todos os cristãos, que agora são “vasos de misericórdia”, já foram “filhos da ira”. Eles eram merecedores da ira de Deus como o resto da humanidade (Efésios 2. 3), mas eles aceitaram a dádiva de Deus da salvação pela fé (Efésios 2.8) e, portanto, o seu estado diante de Deus foi mudado.

Romanos 2.1-5 é igualmente relevante:

“Portanto, és indesculpável, ó homem, quando julgas, quem quer que sejas; porque, no que julgas a outro, a ti mesmo te condenas; pois praticas as próprias coisas que condenas. Bem sabemos que o juízo de Deus é segundo a verdade contra os que praticam tais coisas. Tu, ó homem, que condenas os que praticam tais coisas e fazes as mesmas, pensas que te livrarás do juízo de Deus? Ou desprezas a riqueza da sua bondade, e tolerância, e longanimidade, ignorando que a bondade de Deus é que te conduz ao arrependimento? Mas, segundo a tua dureza e coração impenitente, acumulas contra ti mesmo ira para o dia da ira e da revelação do justo juízo de Deus,”

Deus está sendo paciente com esses israelitas étnicos em não dar-lhes o julgamento completo imediatamente, mas antes está dando-lhes uma oportunidade de se arrepender. Eles estão atualmente “acumulando ira” para si mesmos como “vasos de ira, preparados para a perdição”, mas Deus está dando-lhes uma oportunidade de escapar ao castigo que merecem. Eles podem escapar desta punição por meio do arrependimento, que é o que a bondade e a paciência de Deus em atrasar o seu julgamento merecido visa permitir.

Esta compreensão da paciência de Deus também se encaixa com 2 Pedro 3.9, que afirma que: “Não retarda o Senhor a sua promessa, como alguns a julgam demorada; pelo contrário, ele é longânimo para convosco, não querendo que nenhum pereça, senão que todos cheguem ao arrependimento.” Isso não faria sentido se Deus havia escolhido algumas pessoas de forma permanente e imutável a permanecem como “vasos de ira”. O contexto deste verso é o julgamento de Deus (2 Pedro 3.10). Deus pacientemente atrasa o julgamento total que as pessoas merecem na esperança de que eles se arrependerão antes que seja finalmente tarde demais. Louve a Deus por sua paciência e misericórdia! Pedro continua a incentivar seus leitores a: “...tende por salvação a longanimidade de nosso Senhor, como igualmente o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada, ao falar acerca destes assuntos, ...”(2 Pedro 3.15-16). O ensinamento de Pedro sobre a paciência de Deus é a mesma que Paulo.

A partir desta análise, podemos concluir que é possível para as pessoas mudar de ser um “vaso de ira” para ser um “vaso de misericórdia”, de modo que as pessoas não tenham sido fixas permanente em uma ou outra categoria desde a eternidade passada. Podemos, portanto, definir as duas categorias da seguinte forma:

·         Os “vaso de ira” são aqueles que rejeitaram a Cristo e, portanto, estão caminhando para o julgamento final e ao inferno, que é o lugar preparado para essas pessoas. Enquanto Deus pacientemente atrasa o julgamento final que eles merecem, eles têm a oportunidade de se arrependerem e, assim, alterar as categorias antes que seja tarde demais.

·         Os “vaso de misericórdia” são aqueles que estão atualmente confiando em Cristo. Eles correspondem, portanto, aos “eleitos”, tal como definido por Paulo em Romanos 11.7. Os israelitas étnicos referidos como vasos para uso honroso/desonroso de Romanos 9.21, portanto, são vasos de misericórdia/ira, respectivamente.

Paulo não fala nestes versos sobre como Deus decidiu que se tornariam um vaso de misericórdia (por exemplo, de forma arbitrária, dependente de fé, etc.) – ele afirma apenas que os vasos de misericórdia foram “preparados de antemão para a glória”. Não é explicado se eles foram preparados de antemão, individualmente ou corporativamente. Como vimos que os indivíduos que são “vasos de misericórdia” nem sempre foram esse tipo de vasos, faz sentido para a preparação de antemão para a glória dos “vasos de misericórdia” terem sido feitos coletivamente, e não individualmente. Deus estava preparando o que aconteceria com os “vasos de misericórdia” coletivamente, em vez de selecionar individualmente quem seria um “vaso de misericórdia”.

Os “vasos de ira” também estão em uma situação corporativa. Eles estão “preparados para a perdição” – o destino final dos “vasos de ira” foi fixado, mas Deus dá aos “vasos de ira” individualmente a oportunidade de se arrepender e mudar de categoria.

Esta compreensão corporativa se encaixa com o contexto dos versos, que foram estabelecendo uma distinção entre duas categorias de pessoas: vasos de ira/misericórdia e vasos para honra/desonra.


Tradução: Walson Sales


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