sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Parham Vs Racismo (tradução)

Cruzando as Linhas: A Contribuição de Charles Parham ao Caráter Interracial no Início do Pentecostalismo

Por Eddie L. Hyatt

Com comentários de Pauline Parham, nora de Charles Parham, que faleceu com 94 anos de idade em 22 de dezembro de 2003




Ele foi chamado de “racista fanático" e “supremacista branco”. Ele tem sido vilipendiado como o progenitor do preconceito racial no movimento pentecostal. Alguns acreditam que os vestígios de racismo entre os modernos pentecostais pode ser atribuído a ele. Em uma recente reunião de reconciliação, foi oferecido arrependimento e se pediu perdão pelo seu pecado de racismo.1 Nas mentes de muitos, Charles Parham é um embaraço para o movimento pentecostal e não merece o reconhecimento como um dos seus fundadores.

Por outro lado, Parham, foi quem primeiro cruzou as linhas raciais entre afro-americanos e mexicano-americanos e os incluiu no principiante movimento pentecostal. Foi Parham, um nativo do Kansas, que ofendeu os brancos do sul, pregando em igrejas negras e permitindo que um pastor negro se inscrevesse em sua escola bíblica na segregada Houston, TX. Foi Parham quem fez o "inédito" de convidar uma mulher negra, Rev. Lucy Farrow, para pregar em seu acampamento de avivamento de Fé Apostólica no sul do Texas, em 1906. E foi Parham, que até sua morte em 1929, manteve relações cordiais com a comunidade negra em sua cidade natal de Baxter Springs, KS, freqüentemente pregando na igreja pentecostal negra local.

Então, como podemos reconciliar estas visões conflitantes de Parham e sua postura racial. Há mais de um Charles Parham? O problema parece ser o contexto, ou a falta dele. Eventos históricos ocorrem dentro de um contexto e o historiador não pode ignorar o contexto. Quando a vida de Parham é avaliada dentro do contexto sócio-jurídico-religioso de seu tempo, o que emerge não é um santo cruzado (i.e guerreiro) da igualdade racial, nem um fanático racista. O que emerge é um indivíduo que, em muitos aspectos, reflete os tempos em que viveu, quando o apartheid racial era geralmente aceito e praticado por toda a terra. Mas o que também emerge é um indivíduo que, em momentos críticos, estava disposto a romper com os costumes culturais e cruzar as linhas raciais quando isto não era uma coisa muito popular. É por esta razão que Charles Parham merece crédito por definir o tom para a abertura interracial e concordância que prevaleceu durante algum tempo no início do pentecostalismo.

O Contexto Histórico

Parham (1873-1929) viveu e ministrou durante uma época quando a segregação racial era aceita e praticada por toda a América. A 14° emenda da Constituição tinha incluído uma cláusula "separados mas iguais ", reconhecendo a segregação mas exigindo que todos os cidadãos fossem tratados iguais perante a lei. No caso de 1896, "Plessy versus Ferguson," a Suprema Corte dos Estados Unidos aprovou a parte "separado” desta cláusula quando ela regulamentou que uma lei da Louisiana, requerendo que negros e brancos andassem em vagões separados, não violava a Constituição.

Era óbvio, no entanto, que a parte "separados" da cláusula foi mantida muito mais vigorosa do que a parte "iguais". Instalações públicas dos negros eram inferiores e em menor número do que as dos brancos. Os negros eram geralmente obrigados a sentar no banco traseiro em trens e ônibus e a comer em más condições em salas separadas nos restaurantes. Os melhores hotéis eram apenas para brancos e até mesmo esportes profissionais eram apenas para brancos.

E a igreja? Na década de 1960 o Dr. Martin Luther King Jr. Declarou que às 11 da manhã de domingo era o momento mais segregado da América. Isso era pior há 50 anos antes. Uma pessoa negra em uma igreja de branco ou um branco em uma igreja de negro era considerado estranho e até mesmo impróprio. As maiorias dos professos cristãos brancos acreditavam que a raça branca era superior e que a segregação racial poderia ser defendida na Escritura. No Sul, o apartheid racial era ainda mais pronunciado. Leis de Jim Crow marginalizavam o povo negro. Os negros eram obrigados a usar banheiros públicos e bebedouros distintos. Eles foram obrigados a sentar-se em seções separadas em trens, ônibus, nos restaurantes e em todas as instalações públicas. Toda a educação pública era segregada de acordo com a raça. Os negros viviam em bairros separados e sutis formas de intimidação foram usadas para mantê-los "em seu lugar."

Primeiro Encontro Sério de Parham com a Questão Racial

Durante o verão de 1905, Parham, pela primeira vez, se arriscou no sul através da linha Mason-Dixon no Texas. Ele foi lá para declarar sua mensagem recém-descoberta do batismo no Espírito Santo, evidenciado pelo falar em línguas. Parham acreditava que a sua experiência sinalizava o começo do último dia da efusão do Espírito no mundo inteiro, prometido em Atos 2:17, ele tinha vindo do Sul para declarar esta verdade recém descoberta.

Parham chegou em Houston, com cerca de vinte e cinco trabalhadores em julho de 1905. Pela primeira vez, ele encontrou uma grande população negra e um intenso preconceito racial que não tinha conhecido em seu estado natal do Kansas. Ele realizou uma reunião muito bem sucedida em Bryan Hall, que contou com um certo número de negros que, por causa da lei e costumes locais, provavelmente sentaram em assentos segregados. No entanto, ele estendeu a mão para a população negra e fez amizade com os líderes negros, como Lucy Farrow e William Seymour. Na verdade, a sua abertura racial fez com que muitos cristãos brancos em Houston ficassem incomodados. Um pastor branco, se referindo à Parham e seus trabalhadores do Kansas, escreveu a seguinte repreensão em dezembro de 1905.



Confio, portanto, que os nossos evangelistas e os trabalhadores do Norte não irão esquecer essa condição de assuntos [segregação racial] e embaraçar os trabalhos do Sul pelo bem intencionado, mas equivocados esforços em ignorá-los. Vamos à questão da raça só até ter tido tempo suficiente para saber por experiência o que parece impossível para o nosso bretão do Norte em aprender através de outras fontes.2



Parham Fez Amizades Com Líderes Negros

Quando Parham voltou a Baxter Springs, Farrow foi convidada para ir com eles. Ela aceitou o convite e, antes de sair, voltou-se a sua congregação sobre um pregador negro chamado William Seymour. Em Kansas, Farrow viveu na casa de Parham e agiu como uma “governanta" sobre as crianças de Parham, que carinhosamente se referiam a ela como "tia". Quando no Kansas, Farrow foi batizada no Espírito Santo e falava em línguas.

Farrow retornou a Houston com Parham em dezembro de 1905 e compartilhou com Seymour sua experiência de batismo no Espírito Santo. Ela também o informou de uma escola bíblica que Parham estava prestes a abrir, em Houston. Seymour se inscreveu e foi aceito. Segundo um relato, Seymour teria sentado em uma sala adjacente onde, através de uma porta aberta, ele ouvia as aulas. Este arranjo, se for verdade, não seria surpreendente por causa das leis de Jim Crow e o predominante costume de segregação. No entanto, a família de Parham ouviu uma história diferente sobre esta situação.

Pauline Parham:



Um daqueles que solicitaram o registro era William J. Seymour, que havia sido encorajado a fazê-lo por Lucy Farrow. Sua entrada na escola bíblica deve ter causado alguma consternação por causa das leis de segregação de Jim Crow no Texas. “Dad” Parham, sendo do Kansas, não estava acostumado a tais leis e costumes, e saudou Seymour em sala de aula. Há uma descrição irregular, repetida em muitos livros, que Seymour foi obrigado a se sentar em uma sala adjacente e a ouvir as aulas através de uma porta aberta. O relato que ouvi de pessoas presentes foi de que ele foi recebido na classe, juntamente com todos os outros.



Parham e Seymour se tornaram amigos íntimos durante este tempo. Seymour apresentou Parham a algumas das igrejas negras na área de Houston e eles ministraram juntos em várias ocasiões.3 Outrora em Fevereiro, Seymour respondeu a um convite para pastorear uma igreja de santidade (i.e holiness) na área de Los Angeles. Parham recolheu uma oferta para a sua passagem de trem e ele partiu para Los Angeles.

Paredes Raciais Quebradas no Sul do Texas

Na Primavera de 1906, Farrow seguiu Seymour até Los Angeles e se juntou a ele na liderança do avivamento que estava irrompendo em um antigo prédio na Rua Azusa, 312. Em Los Angeles, Farrow sentiu um chamado Divino para a Libéria, de onde seus antepassados tinham sido trazidos para a América. No seu caminho para a Virgínia, onde pretendia ir abordo de um navio para a Libéria, ela parou em Houston apenas a tempo para ir ao acampamento de avivamento de Fé Apostólica de Parham.

Sedo uma amiga querida e reconhecendo o dom de Deus em sua vida, Parham fez o "inédito" e a convidou para pregar em uma secção do acampamento. A grande tenda em que ela pregava estava lotada e o público a ouviu atentamente enquanto ela falava de sua experiência em Los Angeles e de sua missão na Libéria. No final de seu sermão orava para muitos receberem o batismo no Espírito Santo. Foi um momento poderoso. Um participante disse que ela possuía "um incomum poder para impor as mãos sobre as pessoas para a recepção do Espírito Santo”.4 A respeito dssa abertura racial liderada por Parham, James R. Goff. Jr., que fez sua dissertação de doutorado sobre Parham, declara, "No contexto da época, ele dificilmente poderia ser chamado de racista."5

Pauline Parham:



Este evento, por si só, demonstra que “Dad” Parham não era racista como alguns afirmaram. Uma mulher negra, falando em uma platéia predominantemente branca e, em seguida, que as suas mãos ficassem sobre eles na oração era inédito no sul do Texas na época. “Dad” Parham estava disposto a ofender os preconceitos e os costumes locais, se isso significava ajudar outro ser humano e promover a causa de Jesus Cristo.



A Distorção da Ku Klux Klan

Aqueles que acusam Parham de racismo, geralmente se referem ao fato de que ele elogiou uma vez a Ku Klux Klan em um de seus sermões. O que se tem negligenciado é que a KKK da década de 20 projetou-se de forma muito diferente da KKK do século 19 e apos o século 20. A KKK do século 19 foi uma notória organização anti-negro, decidida em preservar os escravos libertos da obtenção de qualquer riqueza e poder. Ela eventualmente morreu e tinha deixado de funcionar em 1872.

A nova Klan, formada em 1915, mascarou o seu racismo e se apresentou como a guardiã da moral, do patriotismo e da fé protestante. Era contra o divórcio, a imortalidade sexual e interveio em situações familiares em que o abuso físico estava ocorrendo. Em um documentário 20/20 Hugh Downs afirmou que, "Na década de 20 a Ku Klux Klan promoveu os valores da família e defendeu um retorno à religião dos velhos tempos". Devido a isso, muitos negros desta época não viam isso como uma ameaça, como é apontado por David Lowe em sua história da KKK.10

Além de promover o patriotismo e a moral sexual, a KKK da década de 20 também teve uma postura muito anti-católica, expressando os temores de muitos protestantes na grande imigração católica do sul da Europa durante o século 20. Um escritor salientou que o apoio religioso para a Klan no Kansas (o estado de origem de Parham), durante essa época “foi resultado, em grande parte, de um temor de católicos.” 11

Durante a década de 20 a KKK se tornou uma poderosa força política e ajudou a eleger governadores e senadores, prefeitos e vereadores, não só no sul, mas em outras regiões também. Ela atingiu seu auge de poder, em 1924, quando seus membros e poder foram decisivos na convenção democrata nacional. Lowe salienta que a Klan havia assumido o poder de tal forma como um recurso ou medida política.12 Por exemplo, o jovem Harry Truman (foto ao lado), que posteriormente como presidente desagregado das forças armadas americanas, entrou para a Klan, em 1922.13 Durante esse mesmo período, um jovem advogado, Hugo Black, que mais tarde tornou-se um juiz da Suprema Corte, também se juntou a Klan.14 É a partir desta mesma época que Robert Byrd, o senador democrata da Virgínia Ocidental, no momento da escrita, também se tornou um membro da Klan.

Com a Klan tendo ganhado proeminência na década de 20, não é surpreendente que Parham fosse comentar sobre eles e suas atividades. Parham nunca pertenceu a Klan (como alguns têm afirmado) e o seu louvor a eles está provavelmente relacionado com o seu patrocínio ao patriotismo, o casamento e a família, não à sua mascarada agenda racial. Parham passou a declarar que mesmo os esforços supostamente positivos da Klan estavam fadados ao fracasso, porque faltava uma agenda puramente espiritual. 15

Conclusão

A abertura racial que Parham exibiu em Kansas City e Houston floresceu por um tempo na Missão da Rua Azusa em Los Angeles. No entanto, em vez de continuar a ser uma voz profética na raça, pentecostais renderam-se à cultura envolvente e adotaram os caminhos dos pagãos, ou seja, a segregação racial. E embora os pentecostais tenham feito mudanças positivas nos últimos anos, eles vêm na esteira de uma mudança de cultura americana, não como o resultado de qualquer voz profética ou visão.

E Parham? Parece óbvio que ele não é merecedor de críticas que foram empilhados em cima dele. Embora ele não fosse ativista por direitos civis, ele expressa uma abertura racial que transcendeu os tempos em que viveu. O exemplo de Parham, nesta fase inicial foi fundamental para o que se seguiu. É por esta razão que ele merece o crédito por ajudar a definir o tom da abertura interracial e da harmonia que prevaleceu durante algum tempo no início do pentecostalismo.


NOTAS

1 Esta informação foi dada ao autor por um amigo que estava presente nesta reunião, em Kansas City, KS.

2 WF Carothers, "The Race Question in South", The Apostolic Faith vol. 1, no. 8 (Dez. 1905).

3 Ver B. F. Lawrence, The Apostolic Faith Restored (St. Louis: Gospel Publishing, 1916), 64.

4 Veja Lawrence, The Apostolic Faith Restored, 66.

5 James R. Goff, Jr., Fields White Unto Harvest (Fayetteville, AR: Univ. Of Arkansas Press, 1988), 108.

10 David Lowe, Ku Klux Klan: Empire The Invisible (Nova York: W. W. Norton & Co., Inc.).

11 James R. Goff, Jr., "Charles F. Parham e seu papel no desenvolvimento do movimento pentecostal: uma reavaliação", História Kansas (Outono 1984): 236.

12 Lowe, Ku Klux Klan: Empire The Invisible, 18.

13 Veja Lowe, Ku Klux Klan: Empire The Invisible 19, que diz: "Truman tinha juntado durante uma campanha de juizado, mas logo desistiu e não recebeu apoio da Klan quando concorreu e perdeu da próxima vez. "

14 Lowe, Ku Klux Klan: Empire The Invisible, 19.

15 Parham, The Apostolic Faith, No. 3 (janeiro 1927): 3.

Fonte: Pneuma Foundation
Tradução: Google Translate (OBS: tradução parcial do artigo original)



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