quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

O outro lado do legalismo

Por Luís Henrique S. Silva

           Atualmente na igreja evangélica brasileira devido a uma série de literaturas, principalmente de origem norte-americana, publicadas ao longo de anos, alguns problemas teológicos têm sido mais bem analisados do que outrora. Especialmente o problema de legalismo[1] em comunidades cristãs aparece neste tipo de literatura como uma farta fonte para a análise da espiritualidade dos cristãos.[2] Certamente muitos cristãos já tiveram que enfrentar alguma situação (ou ainda enfrentarão) na igreja que poderia ser classificada como legalismo.

Portanto, este problema não é um assunto exclusivamente relacionado com as academias teológicas, ao contrário ele nos remete ao cotidiano de nossas igrejas através da relação pessoal entre os cristãos. Obviamente o erro legalista decorre de uma perspectiva teológica errada e assim afeta a toda prática cristã.[3] Na Escritura vemos exemplos de legalismo nos fariseus, os quais conforme Jesus “Amarram fardos pesados e os põem nas costas dos outros, mas eles mesmos não os ajudam, nem ao menos com um dedo, a carregar esses fardos” (Mt 23.4 NTLH). Dentre tantas coisas que poderiam ser destacadas, enfatizamos que o legalismo farisaico oculta a hipocrisia destes líderes espirituais em exigir do seu rebanho algo que o próprio Deus não ordenara. Inevitavelmente muitas pessoas deveriam se encontrar frustradas e exaustas espiritualmente tentando cumprir com a suposta vontade de Deus. Jesus caracteriza estas pessoas “como ovelhas sem pastor” (Mt 9.36 NVI).

O Novo Testamento nos informa que o problema do legalismo não é uma novidade contemporânea, visto que Jesus e posteriormente os apóstolos tiveram de enfrenta-lo[4] ele tem se mostrado um erro recorrente na história cristã. Todavia outro assunto menos trabalhado (ou quem sabe pouco conhecido, porém presente em muitos círculos evangélicos) por autores e seus livros caracteriza-se por ser a antítese do legalismo, estamos falando de um problema chamado antinomismo. Tal como o legalismo, o antinomismo também tem acompanhado a história da igreja desde a sua fundação. Especificamente no protestantismo do século XVI o antinomismo emergiu na figura de João Agrícola, o qual entrou em debate com Martinho Lutero, ensinando que a lei de Deus (Decálogo) deveria ser removida da igreja.[5]

O assunto do antinomismo interessa muito a nós arminianos devido a ser um tema relevante que impacta a prática de uma igreja espiritualmente saudável bem como por termos um grande ícone da tradição arminiana, John Wesley, o qual dedicou pelo menos dois escritos seus diretamente a este problema, a saber, a Conversa Entre Um Antinomista e Seu Amigo e a Segunda Conversa Entre Um Antinomista e Seu Amigo.[6] Alguns pontos destas duas obras merecem ser brevemente destacados para uma visão global deste relevante assunto.

Na primeira conversa a doutrina da justificação pela fé é usada pelo antinomista para dizer que todos os pecados pessoais do crente (passados, presentes e futuros) foram “destruídos”. As respostas embasadas na Escritura para a questão levantada são, para o antinomista, uma apelação ao uso da razão carnal sob o seu evidente fideísmo.[7] O antinomista acusa o amigo de ser legalista por tê-lo confrontado com versículos opostos a sua crença. O amigo, por sua vez, acusa o antinomista de dizer coisas sem sentido e não fazer a distinção entre justificação e santificação.

Já na segunda conversa começa com uma discussão terminológica, o antinomista não aceita ser rotulado como tal. Em seu parecer ele é um pregador da justiça de Deus, enquanto o amigo prega uma justiça inata (i.e. há aqui uma sutil acusação de pelagianismo). O amigo explica a libertação da lei distinguindo-a em cerimonial e moral, o homem não precisa cumprir a lei cerimonial, porém a respeito da lei moral o homem está livre da condenação, mas não de cumpri-la. Conforme o amigo, uma possível síntese dos posicionamentos entre os dois não ocorrerá porque o antinomista possui: 1) uma linguagem imprecisa; 2) uma linguagem ambígua; 3) uma linguagem não escriturística; 4) porque esta forma de falar pode produzir soberba. Com estas informações podemos entender um pouco sobre o tipo de antinomismo[8] que Wesley enfrentou em seus dias.

Uma vez obtido este discernimento sobre o antinomismo, devemos nos perguntar: atualmente a crítica ao legalismo não tem gerado certa antinomismo na igreja? Ao que parece uma resposta positiva não seria descabida, em vez da crítica centralizar o pêndulo da prática cristã nas prescrições bíblicas ela o tem levado em algumas circunstâncias para o outro lado, o lado do antinomismo. O crescimento de evangélicos sem vínculos com qualquer instituição[9] é uma demonstração empírica de uma forma líquida de conceber a espiritualidade, caracterizada pelo despojamento de regras cúlticas e o evidente desapontamento com a estrutura tradicional eclesiástica. Tal desapontamento se cristaliza, principalmente, em críticas a “religião” e a “religiosidade” como intrinsicamente más, inibidoras da verdadeira espiritualidade, propaladoras de legalismo, etc. Tudo isto, por sua vez, abre espaço para o surgimento de um sentimento restauracionista e pensamento revisionista quanto a tradição cristã.[10]

Wesley também enfrentou o problema gerado pela distorção do cristianismo bíblico. Em Um Apelo Sincero aos Homens de Razão e Religião, ele se propõe a defender o movimento metodista de algumas críticas, e ao explicar o fundamento da religião cristã a sua oponente, ela lhe diz: “Senhor, se isto for Cristianismo”, “Eu nunca vi um cristão em minha vida.”[11] O antinomismo distorce a religião cristã e cria a visão romântica que podemos ir ao seu encontro em nossos próprios termos. Não há ideia mais errada sobre Deus do que esta, o Senhor do universo não se submete aos caprichos humanos e nem aceita os seus egoísmos. A teologia Armínio-wesleyana exalta a soberania de Deus e afirma que o homem deve se sujeitar aos termos divinos para a realização da sua vontade. Jesus deixa claro que quem vive uma vida imprudente ouvirá no último dia: “Em verdade vos digo que não vos conheço” (Mt 25.12). Jesus rejeitará toda aparência de cristianismo, não há cristianismo teórico, a profissão de fé em Jesus exige uma vida compromissada com o reino de Deus e sua vontade (Mt 25.31-46).

Uma das características do antinomismo é ter um discurso que aparentemente exalta a graça divina, no entanto, na prática acaba por negá-la. O apóstolo Tiago nos informa que a genuína graça dispensada a nós não dá pretexto algum para uma vida indisciplinada e relapsa em relação ao cultivo das virtudes cristãs (Tg 1.22-25). A graça é a força que impulsiona o cristão a buscar a Deus não apenas em palavras, mas através de todo o seu ser. A verdadeira religião e religiosidade, para Tiago, consistem no exercício da santidade de vida.

Alguém está pensando que é religioso? Se não souber controlar a língua, a sua religião não vale nada, e ele está enganando a si mesmo. Para Deus, o Pai, a religião pura e verdadeira é esta: ajudar os órfãos e as viúvas nas suas aflições e não se manchar com as coisas más deste mundo. (Tg 1.26-27 NTLH)

Na tradição Armínio-wesleyana a santidade não é vista apenas sob o aspecto pessoal, mas também social. A santidade tem que ir além da experiência solitária, ela precisa ser realizada dentro do contexto da comunidade cristã. Grosseiramente, a santidade encontra o seu objetivo no serviço ao próximo, coisa que uma santidade ou religião solitária não consegue alcançar. Wesley chega a afirmar que: “... o cristianismo é essencialmente uma religião social, e que fazer dele uma religião solitária é, na verdade, destruí-lo.”[12] De certa forma a inclinação antinomista a descorporização deságua em ostracismo e quietismo, os quais são uma séria ameaça a esfera social da santidade. A prática de obras de piedade e de misericórdia só são possíveis excluindo-se o individualismo antinomista e o seu descompromisso com a graça. Tais obras beneficiam tanto quem é servido quanto quem as ministra e, conforme Wesley, são meios de graça nos quais somos aperfeiçoados e crescemos em amor a Deus e ao próximo.[13] Portanto, o antinomismo perversamente, em nome da graça, priva o homem da graça, de ser aperfeiçoado através dela e crescer nela.

Para John Wesley não há cristianismo de um homem só! Porém este é o caminho do antinomismo, ele vai rumo a religião solitária que não tem preocupação em servir e amar o próximo. Há também uma forma velada de antinomismo que podemos encontrar em muitas comunidades cristãs, trata-se da terceirização da caridade cristã. Sim, aparentemente o amor cristão foi terceirizado a um departamento da igreja! Em vez de toda igreja participar ativamente do exercício da caridade esta responsabilidade foi transferida a um grupo específico. Embora não seja errado a criação de um departamento específico para a “ação social” a fim de uma melhor organização, o exercício de obras de misericórdia é dever de todo cristão e não apenas de alguns.

Tal como Wesley, precisamos dizer: “A coisa que você precisa é a religião que pregamos.” “Você precisa da religião do amor e nada mais.”[14] Só a religião do amor nos apresenta ao Cristo soberano que recebe o pecador, mas também diz: “vai e não peques mais.” (Jo 8.11). Tanto o legalismo quanto o antinomismo criam orgulho espiritual e abrem espaço para a reivindicação de superioridade espiritual.  Todavia, a religião do amor cria humildade e serviço ao próximo. De fato devemos exaltar a graça, ela aceita a todos, mas por outro lado não deixa de transformar ninguém que está ao seu alcance. Falar sobre graça e desconsiderar a transformação que ela provoca é fazer apologia contra ela. A máxima latina “In medio stat virtus” (trad. A virtude está no meio), lembra-nos que as boas coisas não estão em opostos antagônicos, mas sim entre eles. Portanto, que possamos orar cantando:

2. Vem, Senhor, ajudar o teu povo a se unir,
Se o que tem é pouco, na partilha é sustento.
Dá-lhe sempre esperança e mais fé para prosseguir
Aperfeiçoa o amor que é mais do que alimento.[15]



[1] Basicamente o legalismo coloca a observação a leis como meio para salvação.
[2] Por exemplo, autores como Philip Yancey e Brennan Manning têm se servido de suas experiências pessoais para abordar em seus livros o legalismo e o árido formalismo eclesiástico.
[3] O arminiano D.L. Moody corretamente salienta que: “A Lei não foi dada como meio de salvação. Foi dada a um povo já salvo (19:4; 20:22) a fim de instruí-lo na vontade do Senhor, para que pudesse realizar o propósito de Deus como ‘um reino de sacerdotes e uma nação santa’ (19:6). A revelação foi dada ‘não para dar, mas para orientar a vida.’” In: SANTOS, Flávyo H. A Lei como revelação de Deus. São Paulo: Editora Reflexão, 2016. p. 57.
[4] Por exemplo, no cumprimento do sábado: Mt 12.1-14; leis dietéticas segregacionistas: Mt 9.9-13; observância de coisas insignificantes em detrimento das importantes: Mt 23.23; circuncisão: At 15.1-35; Gl 6.12-16; ritualismos como forma de aperfeiçoamento: Cl 2.16-23.
[5] ANTINOMISMO. SCHÜLER, Arnaldo. In: Dicionário Enciclopédico de Teologia. Canoas: Ed. ULBRA, 2002. p. 50-51.
[6] Ambos escritos estão no Tomo VII das Obras de Wesley traduzidas para o espanhol. Disponível em:
[7] “Designação dada a todos sistemas filosóficos que põem a fé acima da razão.” SCHÜLER, 2002. p. 205.
[8] Conforme o autor calvinista J.I Packer os tipos podem ser classificados em antinomismo: 1) dualístico; 2) centrado no Espírito; 3) centrado em Cristo; 4) dispensacional; 5) dialético; e 6) situacionista. Contudo, a descrição do antinomismo dada nos escritos de Wesley não parece se encaixar peremptoriamente em nenhum deles.  Por isso prosseguiremos chamando apenas de antinomismo sem classifica-lo. Para o desenvolvimento desta classificação veja: PACKER. J.I. Teologia Concisa. ed. 1 Campinas:  Editora Cultura Cristã, 1999. p. 168-170.
[9] GOIS, Antônio; SCHWARTSMAN, Hélio. Cresce o número de evangélicos sem ligação com igrejas. 2011. Disponível em: .
[10] Caio Fábio, por exemplo, atribui a equivocada descrição de Deus pela religião a crescente descrença no mundo. Disponível em: .
[11] WESLEY, John. Um Apelo Sincero aos Homens de Razão e Religião. Maceió: Sal Cultural, 2016. p. 18.
[12] WESLEY, John. Sermón 24: Sobre el sermón de nuestro Señor en la montaña Cuarto discurso. In: GONZÁLEZ, Justo L (Org.). Obras de Wesley. Henrico: Wesley Heritage Foundation, 1996. Tomo II. p. 84. Disponível em:
[13] COLLINS, Kenneth J. Teologia de John Wesley. Rio de Janeiro: CPAD, 2010. p. 347.
[14] WESLEY, 2016. p. 25-26.
[15] WESLEY, Charles. Vem, Senhor, Ajudar. In: Hinário Metodista Brasileiro. São Paulo; São Bernardo do Campo: [s.n.], 2011. p. 55. Disponível em:
Fonte: O Wesleyano

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