segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Uma explicação da presciência simples


Por Kevin Jackson

No livro Contra o Calvinismo, Roger Olson afirma que o calvinismo prejudica a reputação de Deus, e que ele (não intencionalmente) torna Deus em um monstro moral que é dificilmente distinguível do diabo. Olson não defende que os calvinistas afirmam que Deus é como o diabo. Em vez disso, em sua opinião, isto é a implicação lógica do calvinismo. Esta é uma afirmação forte, mas eu concordo. John Wesley também .

Michael Horton, um calvinista muito amável, e autor do livro A Favor do Calvinismo , fez recentemente uma postagem sobre por que ele acredita que os arminianos incorrem nas mesmas questões de "caráter de Deus" tal como calvinistas. Ele propõe que " teologias não-calvinistas são tão vulneráveis a respeito desta questão."  Ele propõe duas perguntas:

Se [no arminianismo] Deus sabia que Adão e Eva iriam transgredir sua lei, por que ele não mudou as circunstâncias para que eles pudessem ter feito uma escolha diferente?

Por que [no arminianismo] Deus criaria pessoas que ele sabia que iriam ser condenadas pelo seu pecado original e atual?

As perguntas de Horton implicitamente reconhecem que o sistema calvinista cria problemas para o caráter de Deus, contudo, ele acredita que essas questões também estão presentes na teologia arminiana. Se os argumentos de Horton atingirem o alvo, eles pareceriam limitar os arminianos a apenas duas opções: 1) Reconhecer que a compreensão arminiana da presciência de Deus torna Deus em um monstro moral da mesma forma que o calvinismo torna, ou 2) rejeitar a possibilidade de que Deus tem presciência exaustiva (teísmo aberto).

Mas há uma terceira opção: presciência simples (a qual chamarei PS). A PS evita as questões do "caráter de Deus" presentes no calvinismo, ao mesmo tempo que sustenta que Deus tem conhecimento exaustivo de todos os eventos desde antes da fundação do mundo.

E se Deus soubesse o que a humanidade faria somente depois que ele tomasse a decisão de nos criar? Isso poderia ser entendido como uma ordem lógica, não por necessidade temporal, visto que Deus é eterno. E se depois que Deus decidiu nos criar, ele não quisesse ou não fosse capaz de voltar atrás dessa decisão? Esta compreensão de presciência não comprometeria o caráter de Deus, porque sua presciência surgiu como resultado da sua decisão de criar. Nem todos os arminianos sustentam a PS, outros sustentam explicações diferentes (como o molinismo). No entanto, a PS provê respostas razoáveis ​​para as perguntas de Horton sobre o caráter de Deus. 

Os adeptos da PS mantém que a presciência de Deus é contingente a nossa existência. Deus sabe o que faremos porque o faremos. O conhecimento de Deus não é a fonte de nosso fazer. Em vez disso, o nosso fazer é a fonte do conhecimento de Deus. Os adeptos da PS acreditam que não faz sentido falar de Deus conhecendo as ações de criaturas que não existem. Também que não faz sentido falar de Deus sabendo o que faríamos em situações diferentes que na verdade não existem. Se uma situação real não existe, não há nada para Deus saber sobre isso.

É um pouco como dizer que Deus sabe o que vai acontecer amanhã, quando o hobbit rouba o pote de ouro do gnomo. Deus não conhece nenhum "fato" como esse. Não há hobbit. Não há gnomo. Não há nada para Deus saber sobre esta situação, apenas um conceito imaginário que não existe.

Os adeptos de PS sustentam que em algum momento Deus tomou a decisão de criar o mundo. Novamente, isto pode ser entendido como uma ordem lógica, não uma temporal. Antes da decisão de Deus de fazer o mundo, não havia nada para ele saber sobre o que a humanidade faria ou não faria. Ele não tinha decidido nos criar. Nós éramos não-existentes. Depois decidir criar o mundo, Deus sabia tudo o que aconteceria – pecado, algumas pessoas acreditando nele, outras o rejeitando. Mas nesse momento nosso mundo foi atualizado, Deus sabia o que faríamos, porque acabaria por fazê-lo. Naquele momento, Deus também sabia o que faria a respeito do pecado e como redimiria a humanidade – enviando Jesus: o próprio Deus em carne. Após decidir criar a humanidade à sua imagem, e nos conceder a capacidade de tomar decisões, e nos conceder uma posição privilegiada, Deus não poderia voltar atrás sua escolha de criar. Ele não poderia fazer com que deixássemos de existir, sem fazer violência ao seu caráter e à sua criação.

Agora, a PS tem algum mistério para isto. Como Deus sabia o que faríamos antes de nós realmente existirmos no tempo? Como Deus poderia decidir em um instante como ele interagiria com a humanidade ao longo de todo o tempo? Como Deus pode ser emocional a respeito da sua criação hoje se já conheceu todos os eventos? Estas são perguntas válidas, mas estou confortável deixando-as no campo do mistério. O mistério é preferível a acreditar que Deus causa o pecado, ou que ele não conhece o futuro.

A ordem lógica da presciência de Deus no calvinismo e no arminianismo funciona assim:

Calvinismo
1) Deus meticulosamente decreta o que vai acontecer no mundo que ele pretende criar. 
2) Deus cria.

Arminianismo
1) Deus decide criar.
2) Deus tem conhecimento exaustivo sobre tudo o que vai acontecer.

Enquanto calvinistas e arminianos acreditam que Deus tem conhecimento exaustivo do futuro, só no calvinismo Deus decreta meticulosamente o futuro – e (na visão arminiana) isso é o que o torna responsável pelo mal. No arminianismo, a presciência de Deus é contingente as ações livres futuras das criaturas criadas à sua imagem. Se fizéssemos algo diferente, Deus saberia algo diferente, porque a fonte de sua presciência são as nossas ações eventuais. O arminiano não afirma que Deus sabia que ele condenaria as pessoas antes que ele decidisse criá-las, nem é necessário para nós fazê-lo. Se a fonte da presciência de Deus são as nossas ações, Deus não é culpado pelo mal. Se a fonte da presciência de Deus é através do seu decreto meticuloso, então Deus é responsável por cada pecado que cada pessoa comete. E ele é finalmente responsável pelo mal. Fim de papo!




[Para uma explicação acadêmica da visão de PS, leia God and Time do teólogo Jack Cottrell. Cottrell chama esse conceito de “big bang noético”.]







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