terça-feira, 28 de setembro de 2010

Reflexão Sobre Jesus na Arte



Antes de dissertarmos sobre Jesus na arte é necessário termos em mente alguma definição sobre arte. A definição que iremos seguir relaciona-se com a capacidade humana de manifestar alguma ideia ou propósito para uma coletividade, seja isto através da pintura, literatura, música... Dentro desta esfera podemos dizer que a primeira forma de manifestação artística sobre Jesus é a própria Bíblia, em especial o Evangelho contido de modo quadrangular no Novo Testamento. Não podemos dizer que este Jesus é apenas o resultado de um esforço humano em caracterizá-lo, como os liberais o fazem, contudo, nem um esforço meramente divino, como os esotéricos o fazem. Deveras, este Jesus é a cooperação entre o divino Espírito e a capacidade humana (i.e artística) de representar algo ou alguém. Embora haja diferentes teologias de como cada evangelista tenha pintado Jesus nos papiros originais, podemos perceber de forma mais ampla que Jesus (i.e o Jesus artisticamente autorizado pelo Espírito Santo) sempre demonstra-se uma figura contraditória, seja por causa de sua afirmação de ser divino, por causa de sua vida piedosa ou por causa de sua teologia. Porém, fisicamente ele não causou nenhuma reação inesperada por parte dos expectadores, era reconhecido como judeu (Jo 4.9), teve de ser reconhecido por um beijo (Mt 26.48), mesmo após a ressurreição não despertava interesse estético (Lc 24.15), sendo até confundido com um jardineiro (Jo 20.15). Não é a aparência de Jesus motivo de admiração, mas o seu Ser o é. Artisticamente inspirados pelo Espírito Santo este é o Jesus pintado pelos evangelistas no cântico escatológico de Apocalipse 5.9: “Digno és de tomar o livro e de abrir-lhe os selos, porque foste morto e com o teu sangue compraste para Deus os que procedem de toda tribo, língua, povo e nação”.

Contudo, a natureza humana não poderia deixar de fazer as suas próprias interpretações de quem é Jesus. Isto se manifestou primeiramente nos grupos que ficariam conhecidos posteriormente como gnósticos, eles poetizaram Jesus no molde das mitologias gregas, fazendo de Jesus mais um semideus impessoal e não o Deus encarnado em prol de uma humanidade pecadora. Até mesmo a falta de um corpo físico fora assimilado por estes grupos, e isto devido às suas convicções filosóficas (cf. 2Jo 1.7). Isto é o que podemos encontrar, sucintamente, no mundo neotestamentário sobre Jesus na arte, seja ela na cooperação humano/divina ou apenas humana.


Prosseguindo e deixando o tempo no qual foi escrito o Novo Testamento, a igreja por sua vez também não deixou de manifestar artisticamente o seu Senhor e Salvador, por ora, algumas vezes a igreja tenha cedido “à tentação” de honrar mais a criação do que o Criador a arte empregada foi e continua sendo puro dom de Deus a serviço do Reino, mesmo tendo os súditos distorcido o propósito original. Dentro deste quadro de dom dado por Deus versus depravação humana a imagem do Salvador foi reconstituída pela igreja conforme as suas tradições locais. Não é de se admirar que Jesus fosse loiro de olhos azuis para os bárbaros que invadiram Roma, ruivo de pele sardenta para os chiprenses e moreno de tez bronzeada para os egípcios. Estas são as três tradições que há na igreja sob o império romano. Entretanto, outras figuras além dos muros do império romano foram formadas, os cristãos ortodoxos etíopes em seus evangelhos iluminados não tem medo de retratar o menino Jesus aos braços de Maria com pele negra e ambos com um penteado Black-Power de fazer inveja aos Jackson’s Five, e isto para o escândalo dos cristãos europeus que mesmo possuindo um cristianismo mais recente do que os etíopes (At 8.27) creem obstinadamente que são mais prudentes em seu retrato de um Jesus Cristo histórico. Para os antigos cristãos nestorianos chineses e também para os atuais católicos romanos chineses Jesus tem olhos puxados e pele amarela.

Jesus deste os tempos da igreja primeva e até o presente tempo foi adaptado para as condições geográficas onde a fé cristã foi estabelecida. Talvez numa ânsia por um Jesus menos estrangeiro e mais camarada algumas modificações tenham sido interessantes e provocaram bons resultados ao longo de um prazo maior. Porém, a adaptação sempre dá a oportunidade para a aniquilação de uma verdade e a fixação de uma mentira, dentro dessa ótica a igreja nunca foi uma adaptadora da figura de Jesus, mas sempre uma perpetuadora daquilo que foi recebido no Evangelho. Contudo, desde as primeiras representações de Jesus nas catacumbas o elemento da adaptação está fortemente presente (cf. Em o Bom Pastor – Catacumba de São Calisto – Jesus é uma adaptação do Hermes Kriophoros), creio que não mudando ou substituindo essencialmente Jesus, mas tornando-o uma figura relativamente mais próxima. O que não é saudável é perdermos Jesus para ficarmos com a arte, pois a finalidade da arte é ser uma facilitadora da proclamação cristã e não o contrário.

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