quarta-feira, 24 de março de 2010

Solo encharcado põe em risco preservação de ruínas na Babilônia


Gina Haney observa uma fundação em decomposição no Portão de Ishtar


A ameaça mais imediata à preservação das ruínas de Babilônia, que abrigam uma das Sete Maravilhas do mundo antigo, é a água que encharca o solo e solapa o que resta, no Iraque moderno, da grande cidade construída na era do rei Nabucodonossor 2°.

Além de ser a maior ameaça, essa é também uma das mais antigas. Nabucodonossor já enfrentava problemas com a água 2,6 mil anos atrás. Negligência, práticas irresponsáveis de construção e saques em tempo de guerra também ajudaram na deterioração, nos últimos anos, mas arqueólogos e especialistas em preservação de relíquias culturais afirmam que nada de substancial deveria ser feito para corrigir a situação antes que o problema da água seja resolvido.

Um estudo em curso, o projeto Futuro da Babilônia, documenta os danos causados pela água, associados ao rio Eufrates e sistemas de irrigação a ele conectados. O solo está saturado logo abaixo da superfície nos sítios do Portão de Ishtar e dos Jardins Suspensos, uma das maravilhas da antiguidade, há muito desaparecido. Tijolos estão caindo, templos desabam. A Torre de Babel, arruinada há muito, está cercada de água parada.

Os líderes do projeto internacional, descrevendo suas constatações em entrevistas e em reunião realizada este mês em Nova York, afirmaram que qualquer plano para recuperar Babilônia como atração turística precisa incluir o "controle da água como maior prioridade".

O estudo tem por objetivo desenvolver o plano mestre para a antiga cidade, e foi iniciado no ano passado pelo Fundo dos Monumentos Mundiais, em cooperação com o Conselho Estatal de Antiguidades e Herança Histórica do Iraque. Uma verba de US$ 700 mil fornecida pelo Departamento de Estado norte-americano vai bancar o estudo inicial, de dois anos, e o plano preliminar de gestão. Um dirigente do fundo disse que o esforço completo deve levar cinco a seis anos.

"Trata-se sem dúvida do mais complexo programa que já tivemos de organizar", disse Bonnie Burnham, presidente do fundo. Alguns poucos arqueólogos expressaram preocupação quanto ao que veem como início lento do trabalho. Os membros do trabalho afirmaram que foi difícil convencer especialistas estrangeiros a viajar ao Iraque, e também liberar sua documentação e a entrada do equipamento de que necessitavam para trabalhar no local.

Além do desgaste do tempo, algo a que todas as ruínas antigas estão sujeitas, é preciso levar em conta as depredações recentes em Babilônia. Os arqueólogos alemães que realizaram o primeiro estudo cuidadoso do sítio, antes da Primeira Guerra Mundial, já haviam percebido os estragos causados pelas águas de irrigação extraídas de um tributário do rio Eufrates, cerca de 80 quilômetros ao sul da moderna Bagdá.

McGuire Gibson, especialista em arqueologia mesopotâmia da Universidade de Chicago, não participou do projeto e concorda em que a água "é o maior problema" em Babilônia; ele disse que a situação havia sido agravada nos últimos anos quando um lago e canal foram escavados como parte de uma campanha para atrair turistas. Nabucodonossor mesmo, apontou Gibson, enfrentou a intrusão da água por meio da construção de novas edificações cada vez mais elevadas, erigidas por sobre montes de antigas ruínas.

Os primeiros pesquisadores alemães, liderados por Robert Koldewey, reportaram extensos danos de água nas estruturas de tijolos e a intrusão de campos arados e aldeias nos limites da antiga cidade. As pessoas já haviam removido pedras e tijolos, demolindo completamente o zigurate, conhecido por meio do historiador Heródoto e por sua designação bíblica como Torre de Babel. Os alemães mesmos removeram o suntuoso Portão de Ishtar e o levaram para um museu de Berlim.

Depois, nos anos 70 e 80, o líder iraquiano Saddam Hussein, que desejava se retratar como sucessor da grandeza de Nabucodonossor, construiu um imponente palácio em Babilônia, inspirado nas edificações do passado. Também adotou a prática real de marcar com o seu nome os tijolos usados na reconstrução. Os arqueólogos ficaram indignados. O novo palácio e algumas outras restaurações pouco têm de autêntico, dizem, e no entanto dominam o local.

O que fazer quanto ao palácio de Hussein é outra questão, disse Jeff Allen, co-diretor do projeto. "Como equilibrar a integridade do sítio e seu uso como atração turística, esse é o problema", disse, apontando que o Iraque conta com Babilônia como futura fonte de renda turística. Allen, consultor norte-americano em preservação cultural que trabalha no Cairo, informou que custaria milhões de dólares demolir o palácio ou convertê-lo em centro de atendimento aos turistas.

"Isso ainda precisará ser estudado por outros especialistas", disse, e brincou acrescentando a sugestão de que o palácio faria um ótimo cassino. "Eu não interferiria com o palácio", diz Gibson, apontando para o fato de que se baseava em desenhos deixados pelos arqueólogos alemães. "Dessa forma, as pessoas poderão ver pelo menos em parte que cara tinha a arquitetura do passado", acrescentou. "De outra forma, os visitantes verão apenas ruínas".

Elizabeth Stone, arqueóloga da Universidade de Stony Brook, em Nova York, e conhecedora da Babilônia, disse que apoia os esforços de reabrir o local ao turismo, especialmente para uso dos iraquianos meses. "Fica perto de Bagdá, e é o único local a que os iraquianos podiam ir para tentar entender o seu passado", disse.

Novos danos foram sofridos na guerra do Iraque, iniciada em 2003. Os saques se tornaram frequentes, em Babilônia e outros sítios arqueológicos. As forças armadas dos Estados Unidos mantiveram Babilônia ocupada por anos, protegendo-a contra saques mas deixando outras cicatrizes. Cerca de um quilômetro quadrado da área teve sua terra removida durante a ocupação, "de um modo ou de outro", diz Stone, e parte dessa terra poderia conter artefatos.

"As forças armadas certamente não fizeram bem ao lugar", disse Lisa Ackerman, vice-presidente executiva do fundo de monumentos. "Elas moveram muita terra, mas os danos são reparáveis". O sítio retornou ao controle do Iraque mais de um ano atrás. Ackerman e Allen afirmaram que o projeto já estudou as ruínas, edificação a edificação, e iniciou a restauração de dois museu. Ainda que o Iraque conte com grande número de arqueólogos nacionais, disseram, há necessidade imediata de instruir outros interessados em como preservar as ruínas, e em conduzir engenheiros estruturais e especialistas em hidrologia para resolver o problema da água.

Tradução: Paulo Migliacci ME


Fonte: Terra Notícias
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