quinta-feira, 8 de abril de 2010

Escavação na Síria deve ampliar compreensão da Mesopotâmia


Os arqueólogos localizaram fragmentos de paredes de tijolos. Os estilos de cerâmica e a datação por carbono da muralha apontam para o ano 5000 AC.

Arqueólogos iniciaram escavações no norte da Síria que devem ampliar e aprofundar a compreensão da cultura pré-histórica da Mesopotâmia que deu origem às primeiras cidades e Estados do mundo, e à invenção da escrita.

Em duas temporadas de avaliação preliminar e escavações no sítio de Tell Zeidan, pesquisadores americanos e sírios descobriram amostras fascinantes de artefatos naquilo que foi um robusto assentamento pré-urbano no curso superior do rio Eufrates. O sítio foi habitado por dois milênios, até 4000 AC, um período pouco conhecido mas crucial para evolução humana.

Estudiosos da antiguidade afirmam que Zeidan pode oferecer novas percepções sobre a vida no chamado período de Obeid, de 5500 AC a 4000 AC. A agricultura com uso de irrigação se difundiu, o comércio de longa distância ganhou influência social e econômica, poderosos líderes políticos surgiram e comunidades gradualmente se dividiram em elites prósperas e cidadãos comuns mais pobres.

Gil Stein, diretor do Instituto Oriental da Universidade de Chicago e das escavações em Zeidan, disse que a localização setentrional do sítio prometia ampliar o conhecimento sobre a influência da cultura de Obeid a distância maior do ponto em que os primeiros centros urbanos viriam a florescer, no curso inferior do rio Tigre e no vale do Eufrates. As novas escavações, ele disse, serão as mais abrangentes em um grande assentamento do período, e provavelmente resultarão em décadas de descobertas.

"Minha ideia é a de que ainda estar trabalhando lá quando chegar a hora de me aposentar", disse Stein, 54 anos. Existem diversos motivos para o entusiasmo quanto às escavações em Zeidan. A guerras e as condições instáveis que elas gerou impedem que arqueólogos trabalhem no Iraque e em seus sítios primários da antiguidade da Mesopotâmia. Por isso, eles redobraram seus esforços na porção norte dos rios, do lado sírio e turco da fronteira. E Zeidan é um local de fácil acesso. Porque culturas subsequentes não construíram cidades sobre o assentamento, a tarefa dos escavadores é facilitada. Uma das ambições dominantes de um arqueólogo é escavar para além do passado conhecido e obter mais que um vislumbre do desconhecido.

Por quase dois séculos, a glória coube a expedições que escavaram as casas e templos, silos e oficinas dos primeiros centros urbanos, como Uruk, lar do lendário Gilgamés, e os esplendores posteriores de Ur e Nineveh. O desafio era decifrar os tijolos escritos de uma civilização alfabetizada que surgiu no chamado período de Uruk, entre 4000 AC e 32000 AC.

Traços das culturas do período Obeid, a primeira sociedade complexa conhecida na região, continuam a existir em toda a área da cultura de Uruk. Apenas algumas ruínas - em Obeid, Eridu e Oueili, no sul da Mesopotâmia, e em Tepe Gawra, perto de Mosul, Iraque - permitiram vislumbrar essas culturas mais antigas. Alguns dos sítios da cultura Obeid no norte da Síria eram pequenos demais para revelar muita coisa ou estavam virtualmente inacessíveis, sob outras ruínas.

Uma década atrás, Richard Zettler, arqueólogo da Universidade da Pensilvânia com ampla experiência na Síria, disse que "nosso foco real deveria estar no período de Obeid e não no de Uruk".

Na semana passada, Zettler, que não integra a equipe de Chicago mas visitou o sítio, disse que Zeidan preserva artefatos de um longo período da cultura de Obeid, e em um local que servia como nexo para grandes rotas comerciais. "Poderemos ver a transição, com o avanço da cultura de Obeid vinda do sul para as regiões agrícolas do norte", afirmou.

Guillermo Algaze, antropólogo da Universidade da Califórnia em San Diego e autoridade sobre os primórdios do urbanismo do Oriente Médio, que também não está envolvido na pesquisa, disse recentemente que Zeidan "tem o potencial de revolucionar as atuais interpretações sobre como se desenvolveu a civilização no Oriente Próximo".

Em 2008 e 2009, Stein comandou o mapeamento das ruínas de Zeidan e a escavação de trincheiras de exploração. Ele disse que as descobertas iniciais confirmaram se tratar de uma "comunidade proto-urbana" do período de Obeid, possivelmente um templo importante. A descrição e interpretação das descobertas realizadas até agora foi publicada no recente relatório anual do Instituto Oriental, e seguida por anúncio oficial da Universidade de Chicago, esta semana. A equipe internacional de escavação, bancada pela Fundação Nacional de Ciências dos Estados Unidos, deve retomar o trabalho de campo em julho.

Quatro fases distintas de ocupação foram identificadas em Zeidan. Um cultura mais simples conhecida como halaf é encontrada nas camadas inferiores de sedimentos, material bem preservado do Obeid na camada intermediária e restos da Idade do Cobre em duas camadas superiores. Os indícios obtidos até o momento apontam para transição pacífica entre os períodos.

Os arqueólogos localizaram restos de assoalhos de casas com fornos, fragmentos de paredes de tijolos, cerâmica pintada ao estilo Obeid e trechos de muralhas maiores, possivelmente parte de fortificações ou monumentos. Os estilos de cerâmica e a datação por carbono da muralha apontam para o ano 5000 AC.

Uma das descobertas mais reveladoras foi um selo de pedra com a figura de um cervo, possivelmente usado para marcar bens e identificar propriedade, em era anterior à escrita. Com cerca de cinco por seis centímetros, o selo é incomumente grande e foi entalhado em uma pedra vermelha que não é originária do local. Os arqueólogos afirmam, de fato, que o selo se assemelha em estilo a um objeto semelhante encontrado 300 quilômetros a leste, em Tepe Gawra, perto de Mosul.

Para os arqueólogos, um selo não é só um selo. Zettler diz que ele significa que "alguém tem a autoridade de restringir o acesso às coisas - fechar urnas, sacas, portas. Assim que surge um selo, surge a estratificação social".

A existência de selos elaborados com padrões quase idênticos em sítios tão distintos, disse Stein, sugere que "nesse período, as elites mais elevadas estavam assumindo posições de liderança em uma região mais ampla, e essas elites dispersas adotaram um conjunto comum de símbolos e talvez até uma ideologia comum de status social superior".

Outros artefatos são prova da transição de vida autônoma de aldeia para a produção especializada, dependente do comércio e capaz de adquirir produtos de luxo, reportaram os arqueólogos. Uma transição como essa presumivelmente requereria certa estrutura administrativa e teria produzido uma classe rica. A expedição sairá em busca de restos de templos e edificações públicas imponentes como confirmação dessas mudanças políticas e sociais.

Naquilo que parece ser a área industrial do sítio, arqueólogos descobriram oito grandes fornos de cerâmica, uma das mercadorias mais comuns do período Obeid. Também encontraram lâminas produzidas de obsidiana vulcânica de elevada qualidade. A abundância de lascas de obsidiana mostra que as lâminas eram produzidas no local, e a cor e composição química do material indica que veio de minas localizadas no território da atual Turquia.

"Encontramos lâminas curvas em toda parte", disse Stein, apontando que elas tinham marcas de uso, "nos pontos em que receberam polimento pela sílica contida nos talos de trigo que eram usadas para colher".

Zeidan também contava com uma fundição para produzir ferramentas de cobre, a mais avançada tecnologia do século 5 AC. Os moradores provavelmente comerciavam com comunidades a cerca de 400 quilômetros de distância para adquirir minério de cobre, de fontes próximas à moderna Diyarbakir, Turquia. Transportar o minério não era tarefa fácil. Em era anterior à invenção da roda ou domesticação de jumentos, as pessoas teriam de transportar o pesado minério às costas.

Um sítio como Zeidan, disse Zettler, "nos informa que as cidades de Uruk não vieram do nada; evoluíram das fundações estabelecidas pela cultura de Obeid".

Até recentemente, disse Algaze, "acidentes de recuperação de dados" haviam levado os estudiosos a acreditar que a origem das cidades e Estados da Mesopotâmia fosse "ocorrência bastante abrupta no quarto milênio, e concentrada no sul do atual Iraque".

As cidades ao sul podem ter sido maiores e mais duradouras, ele disse, mas a crescente pesquisa na periferia da Mesopotâmia, especialmente sobre a difusão do comércio e tecnologia entre as culturas do Obeid, sugere que "a semente da civilização" havia sido plantada bem antes de 4000 AC.

Tradução: Paulo Migliacci ME


Fonte: Terra Notícias
Fonte original: The New York Times (com um vídeo sobre a descoberta)
Fotos: Clique aqui

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